Numa gaiola de vidro

Roberto Muggiati conta como Bud Powell, aprisionado em suas alucinações, tirava sons que só ele conseguia ouvir

Para ser lido ao som de Bud Powell at Home
Ilustração: Daniel Kondo
Ilustração: Daniel Kondo

Earl “Bud” Powell (1924-1966) foi um dos principais pianistas e compositores do jazz moderno. Em seus breves 42 anos de vida, foi um dos principais nomes do bebop e, segundo o trompetista Dizzy Gillespie, “não tocava piano como um pianista, mas como um saxofonista, como Charlie Parker, a-diddle-de-diddle-de-diddle-a-diddle”.

Bud nasceu em Nova York numa família de músicos: o avô, o pai e o irmão Richie eram pianistas, o irmão William tocava trompete e violino. Bud começou cedo, aos seis anos, e até os quinze adquiriu conhecimento da música europeia e da técnica pianística. Largou a escola, tocou em espeluncas e trabalhou com grupos desconhecidos até entrar para a grande orquestra de Cootie Williams, na qual fez suas primeiras gravações. Ao lado de Gillespie e Charlie Parker, particiou da revolução do bebop, influenciando toda uma nova geração de pianistas, embora seu estilo fosse altamente pessoal e inimitável. Em 1949, fez as primeiras gravações sob o seu nome para Blue Note; em 1951, acompanhado de baixo e bateria, gravou a composição que é considerada seu auto-retrato musical Un Poco Loco. Quando saíram em LP as três takes do tema, o crítico Leonard Feather batizou aquela sequência como o “nascimento de uma obra-prima”.

A mudança radical de estilos (de música, de vida)trazida pelo bebop refletiu-se nos títulos das composições, que pareciam fazer parte de uma linguagem cifrada só conhecida de iniciados. Aos temas do jazz tradicional e do swing que faziam alusão à própria música (blues, boogie, rag, stomp) ou ao universo emocional retratado nas canções que serviam de base para os improvisos (com ênfase em palavras como “baby”, “love”, “moonlight”, “stars”), os novos compositores inovavam com conceitos mais intelectualizados, como “anthropology” ou “ornitology” (Charlie Parker tem um tema impronunciável, “Klactoveesedstene”). Bud Powell contribuiu com nomes instigantes. Entre suas composições figuram Dance of the InfidelsThe Scene ChangesHalluciinations,Time WaitsCleopatra’s Dream e Glass Enclosure, que pode ser traduzido como jaula de vidro, com forte atmosfera autobiográfica.

Bud sofreu seu primeiro colapso nervoso em 1945, em decorrência de uma agressão policial, em que foi golpeado na cabeça, e do seu internamento ilegal num asilo de loucos. Ao longo dos anos 50, continuou batalhando heroicamente com seu piano para manter um equilíbrio emocional precário. Em 1959, mudou-se para Paris: as coisas melhoraram temporariamente mas os fantasmas acabaram voltando e Bud regressou aos Estados Unidos, para morrer num hospital do Brooklin em 1966.

Embora a doença mental o tenha submetido a longos períodos de inatividade, é impressionante como a maior parte do que Bud gravou, mesmo sob as condições mais adversas, obedece a uma lógica cristalina em termos de construção musical. À medida que sua mão direita atuava cada vez mais como um instrumento de sopro, a esquerda pontilhava seus solos com acordes dissonantes esparsos, lançados ritmicamente, quase como uma acentuação de bateria. Isso contrariava o cânone e Art Tatum, da escola mais antiga, chamou certa vez Bud de “pianista de uma só mão”. Noites depois, num clube noturno lotado, diante de Tatum, Bud tocou um conhecido standard numa velocidade incrível, só com a mão esquerda. Correu até a versão de que Bud teria esfaqueado a mão direita para colocá-la fora de ação naquela noite lendária. Bill Evans, que veio depois e soube criar seu próprio estilo, admitiu a influência de Bud e afirmou: “Se eu tivesse de escolher um único músico por sua integridade artística, pela originalidade incomparável de sua criação e também pela grandiosidade de sua obra, seria Bud Powell. Ninguém chega sequer ao calcanhar”.

Como a maioria dos músicos negros de jazz, Bud sofreu a perseguião implacável dos policiais americanos, racistas e truculentos. Aos 21 anos, agredido por golpes de cassetete, mesmo com uma ferida aberta na cabeça e um curativo feito às pressas, foi levado à cadeia, onde o submeteram a duchas de água com amoníaco para “acalmá-lo”. A agressão deixou sequelas , particularmente dores de cabeças intensas, que acabaram levando-o a Bellevue, sarcasticamente intitulado “o hospício de nove entre dez estrelas do jazz”. Após uma série de diagnósticos equivocados e uma certa dose de preconceito racial, Bud foi mandado para o Hospício de Creedmor, uma verdadeira fortaleza cercada de altos muros encimados por arame farpado, onde foi submetido a todo tipo de torturas: medicação maciça de calmantes e soníferos, injeções sinistras de um “veneno” não identificado e choques elétricos.

Por sorte, um dos jovens médicos era fã de jazz e chocado ao verificar que tinha como paciente o grande Bud Powell. Começou a dar-lhe mais atenção e a permitir a visita esporádica de amigos e parentes. Lá passou 13 meses trancado numa pequena cela, quase sem ver a luz do dia. Apesar de todas as condições adversas, a imaginação de Bud viajava livremente. Um dia, o pianista Elmo Hope, que adorava Bud e se inspirava em seu estilo, foi vê-lo em sua “jaula”. Bud perguntou: “Quer ouvir minha última composição?” E, para um Elmo Hope estarrecido, Bud “tocou” o seu novo tema num teclado que ele mesmo havia desenhado na parede nua de sua cela. “Que tal estes acordes?” Nunca as notas musicais soaram com tanto brilho e com tanta emoção.

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