Essa mulher

Hugo Sukman estreia na AmaJazz revisitando Joyce, a morena, a morena, um broto bacana de Copacabana, “moderna e considerante”, toda circunflexa e já caindo de bossa como impressionantemente Vinicius de Moraes a eternizou

Para ser lido ao som de Joyce Moreno em Ansiedade

Arte: Daniel Kondo

Eu poderia falar aqui da Joyce Moreno, uma mulher porreta do Humaitá, que acaba de fazer 70 anos de idade inacreditáveis, senão vejam as lindas fotos de Leonardo Aversa na capa e encarte do disco, e 50 de carreira musical, os olhos sempre verdes, o sorriso triste hoje mais aberto com o humor do tempo e da experiência, a boca de menina amuada de vez em quando traindo a sábia “velha maluca” que ela diz, em forma de samba, ter se tornado.

Mas prefiro, ou melhor, ela preferiu falar de uma outra Joyce, a morena, um broto bacana de Copacabana, “moderna e considerante” (gíria de 68 que hoje se traduziria como? “Transante”, talvez; livre, certamente), toda circunflexa e já caindo de bossa como impressionantemente Vinicius de Moraes a eternizou no texto de apresentação do seu primeiro LP, lançado em 1968, o ano que não só não terminou como teima em se reapresentar neste 2018 todo agitado e cheio de incertezas.

Pois este 50 é isso: Joyce Moreno revisitando Joyce, a morena, 50 anos depois. Num gesto ousado, que só uma soixante-huitarde de raiz como ela, uma autêntica representante da geração rebelde de 1968, ousaria: Joyce aos 70 anos regravou, canção a canção, o seu primeiro LP lançado aos 20 com músicas compostas por ela aos 18, 19, e outras cuidadosamente escolhidas, na época, feitas por amigos de 20 e poucos. Os amigos: Marcos Valle, Ruy Guerra, Paulinho da Viola, Jards Macalé, Caetano Veloso, Francis Hime, Toninho Horta, Ronaldo Bastos. Amigos, para ela; para a história da música brasileira um recorte muito representativo da mais brilhante geração de compositores, da qual Joyce foi a última, ainda que precoce, aparição, já compositora interessante feito os colegas, como se vê em sambas, choros e canções de nítido espírito feminista, característica denunciada por Vinicius com a palavra que ela nem conhecia na época.

E compositora compulsiva, Joyce não se conteve e compôs ainda duas canções novas para um disco anteriormente previsto para ser só de regravações. Em Com o Tempo, feita com Zelia Duncan e participação vocal da parceira, Joyce reflete sobre a passagem do tempo. E no samba-manifesto Velha Maluca ela revela o ponto de vista que criou 50. E faz uma genealogia de seu estilo: “A Velha quando era moça/Queria ser diferente/Zombava dos pretendentes/Queria não se casar/Casou com a filosofia/Dormiu com a literatura/ Pra harmonia fez jura/E o resto eu não sei contar”.

A ousadia de Joyce em 50 deu pelo menos dois resultados evidentes. O primeiro é o retrato de sua própria evolução musical, a voz de menina ainda em formação de 68 resultando numa das vozes mais seguras e perfeitas da música brasileira (e com suingue e divisões tão próprios, inimitáveis); e o violão que em 68 Vinicius dizia ter “grande sentido harmônico e um ritmo exemplar” que se tornou uma verdadeira escola dentro do violão brasileiro, único, reconhecível no primeiro acorde, e que lidera em discos e shows pelo mundo um dos melhores conjuntos de base da música brasileira – Helio Alves ao piano, Rodolfo Stroeter no baixo e Tutty Moreno na bateria – uma “quebração” samba-jazzística danada que aqui no disco substitui e até avança nos lindos e clássicos arranjos originais escritos em 68 por Gaya e Dori Caymmi. Na verdade, um dos motivos de Joyce regravar seu primeiro disco é justamente esse: retomar, sob seu projeto artístico já tão consolidado, os seus primeiros e naturalmente imaturos gestos musicais, ou seja, retomar as ousadias daquela menina marrenta com a segurança da cantora e compositora que construiu um violão (que hoje manda em tudo, do canto aos arranjos) e uma vasta obra autoral.

Depois, e não menos importante, ela lança uma nova e inesperada luz sobre uma obra-prima – sim, aquele disco lançado pela Phillips em 68, chamado apenas de Joyce, é uma obra-prima que passou despercebida pela história da música brasileira. É um clássico, se me permitem a aparente contradição, desconhecido.

Que contém, por sua vez, clássicos da MPB que pouca gente conhece. Senão ouçam o Bloco do Eu Sozinho, marcha-rancho de Marcos Valle e Ruy Guerra (numa de suas melhores letras), canção do nível de contemporâneas suas como a Marcha da Quarta-Feira de Cinzas (de Carlos Lyra e Vinicius) ou Noite dos Mascarados (Chico Buarque) e que agora pode ser reapreciada no moderníssimo arranjo que o próprio autor Marcos Valle fez para este 50, valorizando-lhe a harmonia sem perder as características de rancho, o gosto de carnaval antigo. Trata-se de um puro Marcos Valle safra 1968, a mesma de Viola Enluarada.

Ou, mais ainda, ouçam neste sentido Ansiedade, uma, sem qualquer dúvida, obra-prima de Paulinho da Viola totalmente ignorada inclusive pelo autor, que nunca a gravou, mas que nada fica a dever a seus melhores momentos. É um samba seu típico, sincopado e filosófico, o menino Paulinho da Viola em busca daquele jeito moderno e confessional de seus ídolos Noel Rosa e principalmente Wilson Batista, com melodia linda e sutilmente cheia de curvas e uma letra triste, reflexiva, filosófica mesmo, de entrar para qualquer antologia do cancioneiro brasileiro: “Há tempo que eu não tiro um samba/Capaz de aliviar meu peito/Há tempo que ele nasce e morre/No espaço breve que eu lhe faço ser”. Sartre? Não, Paulinho emulando o jeito de Wilson Batista, relido aqui por uma Joyce cheia de divisões inventivas e um show à parte da bateria de Tutty Moreno, fazendo um samba todo cheio de nuances, como um presente para os ouvintes de música brasileira que vão ter quase que um novo samba de Paulinho para curtir (já que esteAnsiedade, além da gravação original de Joyce só foi cantado há tempos por Alaíde Costa e Célia, coisa quase que restrita a colecionadores).

De seus amigos, do tal painel da mais brilhante geração da música brasileira, Joyce traz um grandioso samba de carnaval de Francis Hime e Vinicius de Moraes, Anoiteceu, que a dupla deu de presente a ela para o primeiro disco e que ela agora devolve com um arranjo seu especialíssimo, puxado para o jazz, com o contrabaixo de Rodolfo Stroeter emulando um surdo de bloco e um solo de piano incrível de Helio Alves, e o próprio autor Francis Hime, visivelmente emocionado, em participação vocal.

De Caetano, Joyce gravou uma inusitada e tropicalista Ave Maria, em latim, que ele fizera para um peça de teatro e incluiu no seu primeiro disco solo, aquele de Tropicália e Alegria, Alegria, coerente no conjunto de canções tropicalistas por abordar ao mesmo tempo de forma respeitosa e irônica as profundezas do Brasil católico. No disco original, Joyce gravou a “Ave Maria com seus parceiros na época, o quarteto vocal Momentoquatro. Agora, ela reaparece de forma ainda mais ousada, com a orquestra de vozes Equale, de 16 elementos, um arranjo do maestro e violonista Flavio Mendes em ritmo de jongo com direito à percussão de Tom Andrade, o jovem neto músico de Joyce, numa fusão neotropicalista que faz jus à criação original de Caetano e à musicalidade de Joyce, tão afeita a misturas e comentários essencialmente musicais.

Do que talvez seja o maior acontecimento do disco de 1968, o lançamento mundial de um igualmente jovem Toninho Horta, Joyce traz uma nova versão para Litoral, acompanhada exclusivamente pelo violão do próprio autor, que se tornaria, como hoje sabemos, um dos maiores violonistas do mundo. Aqui ele traz um arranjo complexo que celebra, com todas as honras, apenas com música, esse momento muito, mas muito especial de 50, os garotos de 68, que passaram a vida se encontrando em trabalhos variados (como um discaço sobre Tom Jobim, Sem Você) se reencontrando na condição de mestres e embaixadores da música brasileira mundo afora. Litoral (de Toninho Horta e Ronaldo Bastos), linda canção, na sua aparente e bem vinda leveza, tem esse peso histórico aqui celebrado.

As primeiras composições de Joyce, aqui regravadas, têm em seu conjunto, logo de cara, o valor histórico de um ponto de vista feminino totalmente inusitado para a época, e que tanto impressionou Vinicius. Descontando honrosíssimas exceções, além de uma Maysa, uma Dolores Duran uma década antes, naquele 1968 havia pouquíssimas mulheres compositoras, menos ainda que escrevessem letras do ponto de vista feminino. Joyce, não fosse algo natural em sua inspiração, parece nessas canções buscar obsessivamente o tal ponto de vista feminino.

O samba canção Me Disseram é típico neste sentido. Apresentada no Festival Internacional da Canção de 1967, a música causou polêmica e até vaias, pelo choque de se ver aquele “broto de Copacabana”, aos 19 anos, cantar versos próprios como “Já me disseram que meu homem não me ama”, a expressão “meu homem” na raiz do choque e das vaias. A canção, que na época despertou a atenção da gravadora Phillips para fazer um disco com aquela compositora e cantora ótima e inusitada, a rigor nem seria tão feminista assim, mas um ponto de vista feminino de sua contemporânea Com Açúcar, Com Afeto, de Chico Buarque (com quem Joyce foi comparada na época, pela crueza dos versos), mas que, por isso, por ter sido escrita por mulher, ganha uma outra dimensão, aí sim feminista, de uma mulher afirmando sua liberdade de escolha até para seguir um homem mal visto pela sociedade. Tal canção, ótima, ressurge aqui em versão bem seca e moderna, com direito a comentários da flauta de Danilo Caymmi, parceiro de Joyce desde aqueles tempos heroicos.

O samba Não Muda Não, este sim, é feminista típico, uma mulher que ousa dizer ao homem como ele deve ser: autentico, ele mesmo. E que, em mais um lance ousado, questiona “a vida burguesa”, termo que provocou um temor na gravadora de que a música nem passasse na censura. Na nova versão, Joyce convidou a multi-instrumentista Joana Queiroz, aqui tocando clarone, para acompanhar seu grupo na gravação, a presença da mulher de igual para igual cinquenta anos depois se consolidando a partir do pioneirismo justamente desse disco de 68.

Mas a mais sutilmente feminina das canções do disco é Superego, uma descrição de um sonho, que se transformou na mais madura das composições de Joyce naquele momento, uma de suas primeiras músicas “estranhas” e que tem paralelo, se tanto, nas canções mais obscuras de Caymmi, como Sargaço Mar, pelo clima misterioso, doce e cruel das canções e histórias infantis. A canção, de fato bela e originalíssima, reaparece como merece, Joyce acompanhada pelo mais inventivo e igualmente inusitado piano da atualidade, André Mehmari.

Outro tema em que o feminino é, não manifesto, mas natural ponto de vista é a bossa nova Cantiga da Procura, cuja letra delicada tanto encantou Vinicius e arrancou do poeta uma espécie de salvo conduto para Joyce adentrar o primeiro time da música brasileira: “(ela) tem em alto grau o sentido das palavras e conhece o mistério de seu casamento com as notas” (veja bem, é Vinicius, o compositor que inventou a forma moderna desse casamento, falando isso de uma menina de 20 anos, adivinhando o seu futuro). Na nova gravação, Joyce conta com a participação de seu “padrinho” Roberto Menescal na guitarra, ele que foi responsável por suas primeiras gravações ainda adolescente, cantando jingles.

Como seus colegas de geração Sidney Miller e Chico Buarque, Joyce também compunha choros-canções, uma certa novidade na época. Em parceria com Macalé, Choro Chorado inova também pelo ponto de vista feminino. Sempre atenta à renovação da música brasileira, Joyce divide esta faixa com o cantor Pedro Miranda, uma das revelações do samba carioca nos últimos anos, e traz, no violão de 7 cordas que foi tocado originalmente pelo mítico Dino em 68 outra revelação recente da música brasileira, o também cantor e compositor Alfredo Del-Penho. O outro chorinho do disco, letra e música de Joyce, Improvisado, ganhou na época elogios do exigentíssimo e muitas vezes refratário Jacob do Bandolim. Por isso, numa versão quase jazzy do choro, Joyce convidou o bandolinista Fabio Peron para a nova gravação, para mostrar a exuberância que este instrumento ganhou no Brasil depois da revolução de Jacob e que continua nas novas gerações.

Em diálogo permanente com o tempo, não poderia ser outra a canção que encerra o espírito de 50Com o Tempo, música que Joyce fez sobre letra de Zélia Duncan, encontramos em um versinho só a razão de por que só agora, 50 anos depois, aquele projeto artístico iniciado pela impetuosa garota de 20 enfim se realizou: “Com o tempo fui ficando mais moça”. É o jeito da moça Joyce Moreno olhar para aquela bela e antiga Joyce, a morena, cuja poderosa intuição de Vinicius adivinhou até no nome que adotaria.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.