Um furacão abrindo passagem

Olivio Petit escreve sobre Barbara Mendes, cantora visceral, capaz de entregar a alma em troca de uma possibilidade vocal interpretativa

Para ser lido ao som de Barbara Mendes em Recalques

A partir da esq: Pedro Braga (viola de aço e 10 cordas), Alexandre Catatau (baixo), Barbara, Flavio Guimarães (harmônica), Allen Pontes (bateria) e Andre Valle (violão de aço e direção musical). Cenário: Georgiana Asfora. Luz: Luciana Nunes.

Desde sempre acumulo fielmente uma paixão eterna para cada sentido: doce de leite, seda, chuva de verão, mulher e música. O melhor blend dos quesitos visão e audição são as cantoras viscerais. Aquelas que parecem estar entregando a alma em troca de uma possibilidade vocal interpretativa. As que fazem do silencio uma nota significativa e do palco um altar ateu em festa sem fim. Se tornar amigo de uma mulher dessas é ter a certeza de que  a surpresa jamais faltará.

Fui casado uma única vez, com um tipo de mulher dessas que te fazem entender porque os americanos nomeiam seus furacões no feminino. Findado o relacionamento de décadas, eu estava dominado por um desejo de solidão que só um filho único pode entender. Foi quando um amigo músico me recomendou um point perto de casa, na Barra da Tijuca, uma espécie de cidade-satélite do Rio de Janeiro: O Bangalô. “Estou tocando lá. Aposto que você  vai gostar do tipo de músico que habita o lugar. Garanto que conhece alguns e logo vai ficar amigo de outros”. E lá fui eu, porque conselho de amigo já larga com dois copos de vantagem.

Ele tinha razão. Logo viciei no combo local: drinks, petiscos, bom papo, ótima música. E conheci a dona do pico. Uma morena agitada, corajosa, decidida. Dessas que, se faltar garçom, desfila de bandeja cheia, tipo pulando amarelinha, enquanto anota o pedido da mesa com seis sedentos  esfomeados, saídos da praia. Quando tinha um tempinho, pegava o microfone e soltava a voz num clássico de Ray Charles, ou num Caetano improvável. E ainda arrumava  tempo pra conversar com os frequentadores e memória para decorar os nomes de todos.

Foto: Tavinho Ribeiro/Divulgação

Barbara Mendes (esse é o nome da moça) é filha de Marisa Rossi, cantora de carreira conhecida nacionalmente nos anos 60, após vencer o programa A Grande Chance, apresentado por Flavio Cavalcanti. Passou a infância no Mato Grosso do Sul, dirigindo trator, ouvindo histórias de onça no colo do avô e cantando modas de viola caipira de 10 cordas em festas de adultos, junto com a mãe e os amigos dela. Logo a família partiu para o Rio de Janeiro. Alguns anos depois, Barbara entregou o canudo carimbado pela OAB para o pai e partiu para Nova Iorque. Foi estudar canto. 

Nos dez anos que passou fora do Brasil, ela fez a banca. Apresentou-se em bares e teatros da Big Apple; foi adotada por Eumir Deodato e gravou com ele a trilha sonora do filme Bossa Nova, de Bruno Barreto; aprendeu a cantar para grandes multidões em raves pilotadas pelo DJ François Kevorkian, nos EUA, Europa e Ásia; participou do Ocean Blue Festival, no Japão, onde também se apresentavam Wayne Shorter, Tito Puente e Herbie Hancock; gravou o primeiro disco, ao vivo, no Half Note Jazz Club de Atenas, onde voltou a cantar por mais 11 anos seguidos; gravou trilhas para o Pilobolus Balet e para o filme Be Cool. Aprendeu a ganhar grana e tirar onda na medida certa.

De volta ao Rio, gravou com Roberto Menescal, pilotou discos próprios de MPB e lounge music. Abriu o Bangalô, onde a alma carioca – aquele Fênix maravilhoso! – aconchega gringos e goianos, paulistas e pernambucanos. Recentemente, para não perder o hábito, foi convidada pra arrepiar a plateia do Blue Note de Pequim, onde descansou como gosta: trabalhando.

Dez anos se passaram desde aquele debut no Bangalô. Ele já não toca mais por lá e eu arranjei mais uns 20 amigos músicos. O restaurante, então meio vazio, bota gente pelo ladrão. E a dona do restaurante entendeu que estava na hora de atacar com a música que quer fazer, do jeito que ela, a música, merece ser retribuída, por tanto prazer que já deu a ela, Barbara.

E para isso acontecer,  nada melhor do que um disco com músicas do novo amor, com quem reparte problemas materiais, questionamentos existenciais e gargalhadas diárias. Tito Marcelo compõe músicas simples com harmonias elaboradas e é um poeta de versos intensos com metáforas pouco comuns. Orgânico (esse é o nome do CD) surgiu para ser degustado como quem observa o rodopiar da cereja incrustada pelas  bolhas da champanhe na flute.

De repente, numa dessas noites necessárias por descompromissadas, ela me fuzila: “Preciso de um clipe, pra esquentar o show de lançamento do disco. Você quer dirigir e roteirizar os dois ?” Descompromissadamente como a noite que corria, aceitei de cara. E parece que a coisa está funcionando. O show foi lindo, o disco está em todas as plataformas digitais e o clipe, que também já está na web, vai pra TV.

Enquanto você lê esse texto, euzinho aqui estou tentando “boquifechar” depois desse presentão que o Divino me deu. No compasso da boa amizade, que sempre nos leva longe e pela sombra. Afinal, o caminho é, na maioria das vezes, bem mais divertido do que a chegada ao próximo destino.

Nenhum pensamento

  1. Petit,
    geminiano de primeiríssima linha, você se supera a cada nova empreitada, seja ela a reconstrução de Constantinopla ou uma pequena crônica: gênio!!!

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