Som e silêncio

Reverenciar João Gilberto é ouvir o som que o silêncio ensina

Para ser lido ao som de Valsa (Como são Lindos os Youguis)

Arte: Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

Em 1958, o Brasil apresentava ao mundo dois gênios: Pelé e João Gilberto. Eram parecidos numa série de pontos: traziam influências anteriores mas eram claramente originais. Cercavam-se dos melhores e ainda assim se destacavam. E, principalmente, faziam da simplicidade o suprassumo do requinte. Tinham um objetivo parecido que podia ser resumido em três letras. O primeiro, o gol. O outro, o som. E até para alcançar este objetivo eram semelhantes. Sabiam fazer o elaborado, o superlativo, os dribles vocais e atléticos, aquelas coisas que facilmente enchem os olhos (e os ouvidos) da plateia. Mas optaram por outro caminho, mais direto e objetivo, despojado. Pelé, pelo futebol agudo. João Gilberto, pelo canto minimalista. Os dois tiveram alcance planetário.

O João Gilberto que morreu aos 88 anos no sábado, 6 de julho, já havia pendurado as chuteiras havia horas. Não gravava, não tinha energia para encarar uma maratona de shows e nem mesmo se tem notícia de qualquer contato dele recente com a música. O que se sabia dele geralmente era causado por parentes que insistiam em colocar o nome dele em polêmicas das quais ele quase sempre quis se manter afastado.

Retirado e isolado, João Gilberto vivia num mundo particular que ajudou a criar nessas mais de seis décadas de, digamos assim, vida pública. Acumulou nesse período uma série de lendas, anedotas, histórias fantásticas. Mas permanecia alheio a tudo. Falando era ainda mais econômico nas palavras. Não se sabe quase nada de algum posicionamento seu com relação à política, à cultura, ao comportamento. Em nada colaborou para dividir mais um país que adora se dividir. Nunca polemizou diretamente – exceto quando estava reivindicando algo que melhorasse a qualidade do seu trabalho: o respeito da plateia, a ausências de ruídos, os aparelhos desligados. Seu mundo se restringia à esta busca que sempre perseguiu: pelo som perfeito, sem arestas. A outra coisa que perseguia era o silêncio – que finalmente alcançou.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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