Uma ponte Brasil-Portugal

Daisson Flach escreve sobre o encontro entre Hamilton de Holanda e Mario Laginha, um duo construído com delicada potência musical, repleto de sutilezas

Para ser lido ao som de Mario Laginha, Lenna Bahule e Hamilton de Holanda em Choro Feliz

Foto: Daisson Flach

Porto Alegre recebeu na semana que passou Hamilton de Holanda e Mario Laginha para um maravilhoso encontro Brasil-Portugal. Fundiram-se o brasileiríssimo bandolin de Hamilton com o piano rico e expressivo de Laginha, que carrega toda a complexidade da linguagem jazzística e o lirismo da música portuguesa. O resultado foi um show de sensibilidade e densidade musical de rara beleza que levou o público em um passeio pelas composições de Laginha e Hamilton e por clássicos da música brasileira e portuguesa. No repertório, além de composições de ambos, Hermeto Paschoal, a matadora Retrato em Branco e Preto, de Chico e Tom Jobim, Desde que o Samba é Samba, de Caetano, entre outras maravilhas. Não faltou nada. Tudo lindo.

Hamilton de Holanda é hoje um músico de grande reconhecimento internacional, com agenda lotada pelo mundo afora. Precoce, como muitos dos grandes, levou sua brasilidade a um nível de sofisticação e excelência técnica. É um dos expoentes de sua geração. A estrutura do bandolim ganhou complexidade e extensão nas mãos de Hamilton, que se apresenta normalmente com um instrumento de 10 cordas (a versão tradicional tem 8) e explora texturas harmônicas, percorrendo caminhos melódicos que são, ao mesmo tempo, essencialmente brasileiros e universais. Choros, sambas, maracatus, frevos, cirandas, fados, adágios, brotam do instrumento de Hamilton com modernidade e lirismo, na alquimia própria de um músico estudioso, maduro, que junta com maestria técnica e coração.

Embora nunca antes tivessem tocado juntos, o encontro entre Hamilton e Mário Laginha era algo quase óbvio. São de uma mesma cepa de artistas que entregam à sua música e a seu público doses fartas de sensibilidade, calor e densidade. Precisão e espontaneidade, rigor e criação balançam e fluem entre dois músicos raros. O adjetivo “mágico”, que Laginha dedicou a Hamilton, vale também para ele. São artistas livres, senhores de suas escolhas, generosos na partilha de seu talento. Mario Laginha já estivera em Porto Alegre ao lado de Maria João, com quem construiu e vem construindo, ao longo dos anos, obra maravilhosa, pessoal e profunda. Ver Laginha e Maria João juntos é coisa que não se esquece mais. Laginha é um artista aberto aos diálogos, como é também Hamilton. Nada neles é supérfluo, mesmo quando desfilam sua afiadíssima técnica. Um duo construído com delicada potência musical, repleto de sutilezas.

O espetáculo, entretanto, guardou ainda duas belíssimas surpresas: Lenna Bahue e Anna Setton. A primeira, uma cantora moçambicana radicada em São Paulo, desfilou seu estilo único, carismático e incrivelmente musical. Um talento tão espontâneo e evidente que a gente se põe a rir de tão belo e solto que é. Magrinha, energética, com uma voz doce, afinadíssima, por vezes percussiva, arrojada, cheia de personalidade, improvisou com Laginha e Hamilton sobre um tema do pianista com naturalidade tão surpreendente quanto encantadora. Já Anna Setton, talentosa cantora paulista, subiu ao palco para cantar à capela Maracangalha, de Dorival Caymmi, com Lenna Bahule e, em seguida, com o piano de Laginha, interpretar maravilhosamente Um Amor, parceria de Laginha e Maria João.

Noite de lavar a alma. Encontro de gigantes, irmãos de mar.

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