Uma música que se perdeu no tempo e no vento

Ou como ninguém nunca ouviu o misterioso registro de Bebeto Alves na trilha composta por Tom Jobim para a minissérie baseada no clássico de Erico Verissimo

Para ser lido ao som de Tom Jobim em O Tempo e o Vento

Esta história começa com um recorte publicado há 34 anos.

Juarez Fonseca – jornalista, conselheiro da AmaJazz e dono de um amplo e variado arquivo que costuma dividir com seus leitores – recuperou ontem uma nota lembrando a gravação da trilha sonora da minissérie O Tempo e o Vento. No texto – com menos de 20 linhas e publicado em 13 de abril de 1985 – Juarez narrava como o trabalho, que vinha sendo produzido por Tom Jobim, poderia ter contado com a participação de Bebeto Alves. O autor de Pegadas chegou a fazer parte de um elenco que incluía inicialmente ainda o Quarteto em Cy, Nana Caymmi e o recentemente falecido maestro francês Michel Legrand. Esse cast acabou sendo bem alterado, novos nomes foram acrescentado e os dois últimos não se confirmaram. Tampouco Bebeto, que chegou a ir ao estúdio, ser apresentado a Tom, gravar e não ter sido aproveitado.

Bebeto conta melhor: “Entrei no estúdio e Tom estava ao piano, com seu indefectível charuto e um copo de uísque ao lado. Também estavam o violoncelista Jaques Morelenbaum, o baixista Tião Neto e o violonista Paulo Jobim, filho de Tom”. Bebeto havia parado lá meio por acaso. “Eu estava gravando o disco Novo País no estúdio de cima, na Som Livre, em Botafogo. No mesmo local, o Tom estava começando a gravar a trilha no estúdio que ficava no andar inferior. Carlos Alberto Sion, produtor do meu primeiro disco, soube que o Tom queria entender algumas ‘levadas gaúchas’, e me indicou”.

Fala mais, Bebeto: “Quando cheguei lá, o Tom, muito alegre e simpático, me recebeu superbem. Peguei o violão do filho dele e logo estávamos tocando uma música, acho que era o Tema do Capitão Rodrigo. Ele ficou entusiasmado comigo e falou para o produtor do disco: ‘Ô, Guto (Graça Mello), temos que colocar o Bebeto no disco para cantar uma’”.

A gravação durou alguns minutos. O tema era todo instrumental, sem ninguém cantando. Depois todos foram ouvir o resultado na técnica. Bebeto lembra que Tom estava eufórico. “Parece Piazzolla”, dizia ele. E acrescentava criando imagens. “Estou vendo bugres nas coxilhas.” O clima de camaradagem fez até com que Tom se interessasse em saber onde Bebeto havia nascido. Ao descobrir que era Uruguaiana, acrescentou: “vinte minutos de teco-teco de São Gabriel”, lembrando que sua família era de lá. A gravação e o papo chegaram ao fim e Bebeto retornou ao seu estúdio para continuar sua gravação, ao lado do produtor Sérgio Carvalho.

Na manhã do dia seguinte, Bebeto foi à sala de Guto, saber como havia evoluído a sugestão dada por Tom. Meio sem jeito, Guto explicou que os artistas já estavam confirmados, que não havia espaço…

Bebeto lembra que não ficou tão abalado, que estava mais focado mesmo em Novo País e que só recentemente voltou a pensar no assunto e no que isso poderia ter representado em sua carreira.

E qual seria a explicação para o veto? Juarez, na nota, especula que teria partido de Paulo Jobim. Bebeto acredita em parte nesta versão. “Não falei com o Paulo e às vezes fico pensando se não fui meio grosso com ele, se poderia ter trocado uma ideia… Mas às vezes também acho que não teve nada a ver com o Paulo. Apesar dele não ter sido muito simpático, eu também não fui. Mas outros fatores devem ter influenciado”.

Juarez finaliza a nota dizendo não querer se pronunciar a respeito de uma trilha que ainda não havia ouvido porém lamentava a ausência de Bebeto e estranhava que um trabalho musical baseado e ambientado num clássico gaúcho não tivesse participação de músicos locais. O temor de Juarez acabou não se confirmando e o disco contou com as participações de Renato Borghetti, da dupla Kleiton & Kledir e do Conjunto Farroupilha.

Bebeto concluiria e lançaria Novo País, viajaria pouco depois para morar por um tempo nos Estados Unidos e nunca mais veria Tom Jobim, que morreria nove anos depois em Nova York. Também jamais ouviria novamente qualquer registro da gravação feita naquela tarde de verão de 1985 – uma música que se perdeu no tempo e no vento.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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