Memórias do jazz

Olivio Petit lembra histórias de quando o Brasil começou a entrar na era dos festivais

Para ser lido ao som de Dizzy Gillespie ao vivo em São Paulo em 1978

Rio de Janeiro, junho de 2019!

Após longo e tenebroso inverno um grande festival de jazz promete sacudir a poeira carioca, apontando para a vocação cultural cosmopolita da atualmente tão maltratada Cidade Maravilhosa. Graças ao esforço pessoal de um dos mais importantes produtores musicais do país, Marco Mazzolla, acontece esta semana o Rio Montreux Jazz Festival, que vai ocupar, entre os dias 6 e 9 de junho, três palcos montados nos armazéns 2 e 3 do Pier Mauá, Zona Portuária da cidade.

Desde que o tradicional festival suíço inaugurou uma Noite Brasileira, artistas populares brasileiros – como Elis Regina, Simone e Hermeto Paschoal – começaram a flertar com o jazz, popularizando o estilo musical na terra do samba. Esse namoro abriu caminho para que os festivais de Montreux e Monterey aportassem por aqui em 1978 e 1980 e nos brindassem com as visitas ilustres de Dizzy Gillespie, Astor Piazzolla, George Duke, Weather Report, Stan Getz, Stanley Clark, Larry Corryell, John Mclaughlin e Al Jarreau.

O carioca David Hadjes acabara de chegar de Boston e foi logo incluído no projeto, trabalhando nas três edições dos festivais como um coringa, fazendo de direção artística a reconciliação de gênios da música instrumental. Ele tem muitas histórias boas pra contar sobre aqueles primeiros festivais no hemisfério sul do planeta Terra. Vamos com ele:   

Como se organizaram aqueles festivais?

O festival de São Paulo era ligados ao de Montreux e o do Rio, ao de Monterey. As edições de Sampa aconteceram no Anhembi e o no Rio rolou no Maracanãzinho. As equipes das três edições eram praticamente as mesmas. Em São Paulo havia uma forte influência do Claude Nobs, o dono do festival na Suíça, e do Zuza Homem de Mello, o diretor artístico. O Jimmy Lions, dono do Monterey, deixou a coisa mais solta nas mãos do Roberto Muylaert e do Walter Longo, que era craque em marketing e relações públicas. Em Sampa a coisa tinha uma pegada mais clássica com Stan Getz, Dexter Gordon. No Rio incluímos o pessoal do “fusion”: Pat Metheny, George Duke, Stanley Clarke, Weather Report.

O que você fazia nos festivais ?

Eu havia acabado de chegar de Boston, onde tinha cursado Arranjo e Composição na Berklee e peguei uma vaga no Receptivo. Dias depois já estava coordenando a área. Logo fiquei responsável pelo que chamávamos de eventos especiais. Eram shows com a nova geração da música instrumental brasileira, que aconteciam em salas para 200, 300 pessoas, durante os intervalos dos shows do palco principal. Lá se apresentaram artistas da nova geração, como Ricardo Silveira, Victor Biglione, Grupo Garage, Arrigo Barnabé. A ideia era formar novos artistas brasileiros para as próximas edições. Era um evento que praticamente tinha vida própria. Uma espécie de festival dentro do festival. No Rio Monterey eu já era uma espécie de diretor-musical. Escolhi convidados, montei bandas como a BR1 com Marcio Montarroyos, Nivaldo Ornellas, Robertinho Silva, Ricardo Silveira, Jamil Joanes e Marcos Rezende.

E o que emperrou esse processo?

No final da década de 70, o mundo estava no meio de mais uma crise. Tinha a questão do petróleo lá fora, e aqui dentro o milagre econômico estava fazendo água e o governo costurava a transição lenta e gradual para a democracia. Foi nesse embalo libertário que surgiu a ideia dos festivais de jazz. O Festival de São Paulo era demanda da Secretaria de Cultura de São Paulo e o Maluf não queria botar azeitona na empada do governo anterior. Como sempre, cortaram a verba da Cultura. No Rio houve um erro de target. Quem patrocinava era a US Top, marca de jeans. A garotada não deu o retorno esperado, segundo eles, e acabou o patrocínio. Anos depois, crise contida, surgiram o Rock in Rio e o Free Jazz e o Brasil entrou definitivamente no mapa do showbiz.

Como foi o convívio com as estrelas ?

Quase me quebrei quando dei uma entrevista dizendo: “Quando eu chamo para o de Sampa, os caras perguntavam quanto. Quando chamo para o do Rio, a pergunta era quando”. Pegou mal à beça e tive que dar nó em pingo d’água pra continuar na tarefa. O primeiro a chegar em 1978  foi o Dizzy Gillespie. Naquele tempo não tinha limusine, então fui buscá-lo de Galaxie, uma banheira de luxo da Ford. Mal entrou no carro ele tirou um cachimbo do bolso, meteu fogo e…  era bagulho. E o motorista, caretão, teve que ser convencido a aceitar a situação. Assim como o pessoal do hotel. No Eldorado, as janelas não abriam e foi difícil esconder a “maresia”. A mulher do Stan Getz também deu trabalho e criamos uma expressão pro casal: “Whatever Stan wants, Monica gets!” Mas o melhor foi ver a reconciliação entre o John McLaughlin e o Jaco Pastorius, que tinham brigado no ano anterior no Havana Jam, festival cubano com farta participação de músicos americanos. Eles formavam um trio – The Trio of Doom – com o Tony Williams na bateria. O Jaco meio que surtou e resolveu assumir um show solo. O Tony passou uma longa etapa sem falar com ele. Mas ajudamos a resolver a parada entre os outros dois.

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