Feliz reunião

Eduardo Osório Rodrigues escreve sobre Paul Gonsalves, o saxofonista de sopro quente e melódico que brilhou por 24 anos na orquestra de Duke Ellington

Para ser lido ao som de Paul Gonsalves em Happy Reunion

Sabemos identificar o som de um sax-tenor e gostar dele, mas como explicá-lo? Sabemos até o nome do saxofonista que emite aquele tipo de som, mas como transmitir com palavras o sentimento que aquelas notas provocam? Cada solista tem seu próprio timbre, mas qual dentre todos soa melhor aos nossos ouvidos e fala direto ao nosso coração?

Pensei nisso enquanto ouvia novamente o sopro quente e melódico do saxofonista que brilhou por 24 anos como um dos spots mais potentes da orquestra de Duke Ellington. Ao final da interpretação de Happy Reunion, composta por Duke, encontrei as respostas. Na linhagem de gigantes desse instrumento, especialmente na interpretação de baladas, o anjo de anunciação da pureza e da graça no jazz chama-se Paul Gonsalves.

Paul desenvolveu um estilo de balada elegíaca e exuberante capaz de mesmerizar as moças da primeira fila sem dizer uma única palavra, apenas transmitindo pela campana de seu instrumento uma sensação de vulnerabilidade profundamente comovente.

Veja o vídeo no YouTube, são 3’46” de um recital amoroso. Seu tom é frágil como o de Lester Young, mas sua “voz” é distinta e marcante. A música é lenta e reflexiva e Paul soa melancólico, mas sua interpretação evoca um tipo de recolhimento que, estranhamente, não remete à tristeza ou à depressão, mas à contemplação de alguma coisa bela, bonita e desejável.

Repare no modo como ele se curva em direção ao microfone, fazendo um movimento pendular que a câmera enquadra e eterniza. Duke, ao piano, conduz a cena brilhantemente.

Happy Reunion é um exemplo bem-acabado desse tipo de abordagem musical, complexo em sua aparente simplicidade e cheio de nuanças que também foram exploradas por outros músicos. Três saxofonistas tenores e dois expoentes do sax-alto de períodos diferentes da história do jazz tinham sonoridades parecidas com a de Paul Gonsalves, principalmente nas baladas.

Além do vibrato, Ben Webster, Stan Getz e Benny Golson, no sax tenor, e Johnny Hodges e Paul Desmond, no sax alto, produziam efeito semelhante no som de seus instrumentos emitindo grande quantidade de ar nos finais das notas. É um soprar que vai se acabando até atingir o vazio do som. Os músicos chamam essa técnica de subtones. Ao colocar ar no som ele fica aveludado e um pouco rarefeito. Preste atenção nas notas graves. Eles subtonam toda hora.

Paul Gonçalves nasceu em Brockton, Massachusetts (EUA), em 12 de julho de 1920 e, embora tenha tocado violão por um tempo, acabou optando pelo sax-tenor. Passou por várias bandas antes de se juntar a Duke Ellington em 1950, parceria que durou até 1974, ano da morte de ambos com diferença de dez dias. Paul em 15 de maio, aos 53 anos. Duke no dia 24, aos 75.

Duke adorava seu pupilo, e ele retribuía à altura fazendo o chefe esquecer-se de Ben Webster, a quem substituíra. Paul tinha uma personalidade calorosa e gentil que se abria ao infinito, inclusive para o álcool e as drogas que o mataram. Mas, antes de virar um anjo caído, ele deu às baladas intensidade poética raramente alcançada por seus pares, um lirismo requintado difícil de igualar.

A beleza do som em 10 baladas

  • Impeccable (Cookin’, 1957)
  • The Girl I Call Baby (Cookin’, 1957)
  • I Surrender, Dear (Gettin’ Together, 1961)
  • I Cover the Waterfront (Gettin’ Together, 1961)
  • Body and Soul (Tell It The Way It Is, 1963)
  • Antony and Cleopatra Theme (Tell It The Way It Is, 1963)
  • Cleopatra’s Lament (Tell It The Way It Is, 1963)
  • Second Chance (Tell It The Way It Is, 1963)
  • Day Dream (Ellingtonia Moods and Blues, 1960)
  • Over the Rainbow (Paul Gonsalves meets Earl Hines, 1970)
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