Um verão que nunca acaba

Daniel Soares escreve sobre Summertime, um dos mais absolutos e longevos clássicos da história da música

Para ser lido ao som de Nina Simone em Summertime

Ela é uma senhora que já passou dos 80 anos e que não pensa em aposentadoria. Frequenta há décadas clubes noturnos: dos de reputação duvidosa e outros já alçados ao mainstream, festivais, estúdios de gravação, programas de rádio, especiais de TV e muitos, muitos set lists. Summertime, a canção, completará 85 anos no ano que vem e está entre as músicas mais regravadas do mundo, com cerca de 40 mil registros.

Nasceu como abertura da ópera Porgy and Bess, de George Gershwin, em 1935. A ária tem letra baseada no romance Porgy (1924), de DuBose Hewyward, mas a canção também é creditada a Ira Gershwin, irmão de George. A ópera não obteve um sucesso imediato, como Gershwin desejava, mas os naturais elementos jazzísticos e pitadas de spiritual da canção logo caíram no gosto popular, saindo dos palcos e ganhando os clubes. Gershwin chegou a declarar que a música foi baseada em uma canção ucraniana de ninar, que ele ouviu em Nova York por ocasião da passagem Coral Nacional Ucraniano, o que nunca chegou a se confirmar. A cena em que a canção está inserida na ópera reforça essa possibilidade, já que ela embala o sono de uma criança, com uma letra que fala de peixes saltitantes e plantações de algodão.

Judeu com ascendência russa, Gershwin foi um visionário na música norte-americana. Conseguiu unir elementos da música erudita contemporânea com o blues rural e as raízes da música negra, representadas pelo spiritual e pelo gospel. Algo semelhante ao feito por Heitor Villa-Lobos no Brasil, com a música erudita, o choro e manifestações populares.

A ópera de Gershwin, mesmo sem sucesso imediato, não passou despercebida. Alguns críticos achavam ousadia demais essa fusão com uma música das ruas, dos campos e igrejas. Outros, que era uma apropriação cultural desnecessária.

Para alguns pesquisadores e críticos, como Alex Ross, o encanto de Summertime, que a faz ser eterna em sua essência, é o fato de que a canção, desde os primeiros acordes, permite que o intérprete vislumbre o improviso, a liberdade de criação em cima do tema, ponto inflexível do jazz. Ross, crítico musical da revista New Yorker, escreveu, em 2009, uma obra seminal para se entender a música contemporânea, O Resto é Ruído – Escutando o século 20.

Em pouco menos de um ano após a estreia nos palcos (Porgy & Bess chegou a Broadway em outubro de 1935), a cançãoSummertime ganhava a inigualável versão na voz de Billie Holiday no álbum Lady Day, de 1936. Mas a primeira gravação, com o próprio Gershwin ao piano, foi feita em julho de 1935, tendo Abbie Mitchel na voz.

Sarah Vaughan levou a canção a outro patamar em 1949, acompanhada pela orquestra de Joe Lipmann. Lena Horne, em 1956, teve a companhia de nomes como Kenny Burrell na guitarra para o registro no álbum Stormy Weather. Um ano depois,  Charles Mingus, numa de suas raras gravações em trio, traz Summertime com irreverência e muito suingue no disco Mingus Three. No mesmo ano, uma dupla que fez a canção pegar fogo: Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, no disco totalmente dedicado à ópera de Gershwin. A pianista Nina Simone deixou dois registros ao vivo de Summertime em 1959 para o disco At Town Hall, gravado em Nova York.

John Coltrane não poderia ficar de fora. No outono de 1960, após ter deixado o quinteto de Miles Davis, ele começou a montar seu quarteto e gravou o clássico no disco My Favorite Things. O maestro Duke Ellington, com uma rara formação em trio, gravouSummertime para o disco Piano in the Foreground. Miles Davis, Freddie Hubbard, Stan Getz, Ray Charles, Dinah Washington, Chet Baker, Clifford Brown e Charlie Parker são alguns dos nomes que gravaram ou tocaram ao vivo a imortal canção de Gershwin.

Uma das versões mais conhecidas de Summertime é da cantora de blues Janis Joplin. Branca, texana, com uma voz rasgada e de longo alcance, Janis já incendiava a geração power flower quando gravou a canção em 1968 para o disco Cheap Thrills, acompanhada pela Big Brother and Holding Company.

No Brasil, Summertime ganhou as versões de Cida Moreira (que registrou a canção em dois discos), Victor Assis Brasil, Cazuza, Caetano Veloso, Mario Adnet e até uma com letra em português, com Erasmo Carlos, gravada em 2009.

Infelizmente, por força do destino, Gershwin não chegou a ver o estrondoso sucesso de Summertime. Dois anos após a estreia, em 11 de julho de 1937, o compositor morreu, vítima de um tumor cerebral. Tinha apenas 38 anos. Pouco antes, declarara que em sua ópera, havia apenas “arranhado” o gênero que gostaria de atingir.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.