O sopro supremo

Com Giant Steps, há 60 anos, John Coltrane dava o primeiro – e gigantesco – passo rumo à imortalidade

Para ser lido ao som de John Coltrane em Giant Steps

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

John Coltrane estava perto de completar 33 anos – uma idade provecta para os padrões do jazz – quando começou a engendrar uma das mais radicais revoluções na história da música americana. O nome, free jazz, era tão amplo quanto o conceito e previa conceder ao que era produzido musicalmente liberdades até então inimagináveis. O jazz misturava-se à música modal, aos sons africanos e orientais, ao flamenco espanhol, enveredando por caminhos sinuosos e irreversíveis.

Coltrane chegou a esse ponto trilhando uma trajetória lenta. Nascido em 1926, na Carolina do Norte, ele primeiro dedicou-se ao sax-alto, mudando no final do anos 40 para o sax-tenor. Passou por pequenas orquestras de rhythm’n’blues, tocou na orquestra de Dizzy Gillespie mas começou a formatar a sua revolução sonora no final dos anos 50, dividindo-se em experiências ao lado de Miles Davis e Thelonious Monk.

Harold Lovett, que gerenciava a carreira de Miles Davis, conseguiu um vantajoso contrato para Coltrane com a Atlantic: US$ 7 mil. E se em seus primeiros discos individuais, Coltrane ainda se colocava como um herdeiro do bebop, a partir de Giant Steps (1959), ele deixaria claro a sua concepção musical.  

As primeiras gravações começaram a ser feitas há 60 anos. Em 26 de  março, Coltrane entrou em estúdio para gravar as quatro primeiras faixas. Os resultados desta sessão com Cedar Walton e Lex Humphries não foram usados mas apareceram em compilações e reedições subsequentes. Coltrane voltaria a gravar outras três faixas no dia 4 de maio e, emendando, outras seis faixas no dia seguinte, ou seja, duas semanas depois de Coltrane ter participado da sessão final de Kind of Blue. Giants Steps estava quase totalmente pronto. Coltrane, então, daria uma longa pausa de quase sete meses e voltaria ao estúdio no começo de dezembro para gravar uma última faixa. Giant Steps seria oficialmente lançado nos primeiros meses do ano seguinte. A base formatada por Coltrane poderia ser resumida pelas sheets sounds (camadas de sons), longas sequências executadas em tempo rápido nas quais as notas se fundem numa vaga contínua. My Favorite Things (1960) reafirmaria essas ideias, mas até então tudo isso era apenas uma prévia para a revolução ainda maior.

A transição da gravadora Atlantic para a Impulse coincide com o aumento do interesse de Coltrane por temas místicos e espirituais. Se já era um paradoxo pelo fato de ser um grande improvisador que se interessava por estudar a teoria da música, Coltrane ampliou ainda mais os limites sonoros ao colocar suas composições no nível da superação, da busca pela iluminação. O manifesto musical seria A Love Supreme (1964) traduzido em faixas comoAcknowledgementResolutionPursuance e Psalm.

A música, pelos três anos seguintes, tornaria-se uma missão. Coltrane mudaria o seu quarteto, colocando como pianista sua nova mulher, Alice, faria turnês pela Europa e pelo Japão e suas composições (OmCosmic Music e Meditations) ficariam ainda mais impregnadas pelo caráter religioso.

Em 1966, debilitado por anos de drogas e bebidas, Coltrane começou a dar sinais de fraqueza. No dia 16 de julho de 1967, foi internado com uma crise hepática aguda. Não resistiu e morreu no dia seguinte. Tinha 40 anos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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