No princípio era o ritmo

Roberto Muggiati conta como Freddie Green foi o pulso infalível que fez da banda de Count Basie uma verdadeira máquina de suingue

Para ser lido ao som de Freddie Green em Mr. Rhythm

Arte: Gilmar Fraga

Frederick William Greene, mais conhecido como Freddie Green (1911-1987) podia ter sido um dos maiores solistas da guitarra no jazz, mas o destino assim não quis – o que não o impediu de ser o maior guitarrista rítmico na história do jazz. Tchumtchum-tchum-tchum, era ele a batida regular, o coração da orquestra, o pulso infalível que fez da banda de Count Basie uma verdadeira máquina de suingue. Foram 50 anos de tchum-tchumtchum-tchum, desde que entrou na orquestra de Basie, em 1937, até sua morte, cinco décadas depois.

Uma arte minimalista e subestimada, que só músicos e ouvintes com alma de músico seriam capazes de apreciar. “Está tudo ali, no seu pulso”, disse o trombonista Dennis Wilson, “como se a Bíblia tivesse decretado ‘No princípio era o ritmo’”. Count Basie costumava se referir a Freddie Green como “minha mão esquerda”. O trompetista Buck Clayton dizia que “Basie nunca tocou muito com a mão esquerda e Freddie preencheu esse papel”. O filho adotivo de Basie foi mais longe: “Ninguém falava nada, porque só papai falava, mas todo mundo sabia que a posição de Freddie era de igual importância à de papai”. Uma importância tão grande que conspirou contra a carreira de solista de Freddie.

Ao ingressar na banda, ele passou a integrar o que se chamou a All-American Rhythm Section – a melhor seção rítmica da América, integrada por ele na guitarra rítmica, Basie ao piano, Walter Page ao contrabaixo e Jo Jones na bateria. O trompetista Harry Edison deu a explicação definitiva por que Freddie Green não conseguiu se tornar um grande improvisador: “Freddie poderia ter sido um excelente solista, e era bom nisso quando começou a moda dos guitarristas também fazerem solos. Um dia, muniu-se de um amplificador, mas sempre que se destacava da banda para fazer o seu solo toda a seção rítmica se desintegrava. Chegou ao ponto em que tínhamos de tomar uma atitude. Então, uma noite, eu tirava a tomada do amplificador de Freddie e a coisa não funcionava. Na noite seguinte, o saxofonista Herschel Evans cortava um fio e o amplificador ficava mudo. Na noite seguinte, Pres escondia a tomada. Tínhamos um grupo na banda chamado de Os Vigilantes. Sem Freddie na guitarra rítmica, a banda perdia totalmente o suingue. Finalmente, arrancamos as entranhas do amplificador. Freddie aprontou-se para solar uma noite e não havia nada ali, apenas a caixa oca. Ficou tão furioso que sentenciou: ‘Vão todos para o Inferno. Eu não solo nunca mais!’” Para alegria geral.

Autêntico marca-passo da orquestra de Basie, Freddie não era uma máquina repetidora. Um colega guitarrista descreveu seu segredo: “Ele procurava não se repetir durante quatro ou oito batidas. Seguia sempre em movimento. Mudava e apoiava um belo tema com força e com um corpo de acordes”. John Lewis, pianista do Modern Jazz Quartet, dissecou o papel de Green: “Freddie desenvolve pequenas frases melódicas quando acompanha alguém, e você precisa ouvir atentamente ou não as notará. É o mesmo que faço, mas é mais difícil, porque ele tem a obrigação de manter aquelas quatro batidas. A maioria dos guitarristas fica sem ideias quando acorrentada a essas regras rígidas. Ele, nunca”.

Freddie compôs também alguns temas imortais do book da orquestra de Basie, como Down for DoubleCorner Pocket e Right On. A identificação de Green com o som de Basie foi tamanha que outros artistas, em gravações que evocavam Basie, recorreram à sua guitarra, como os grupos vocais Lambert, Hendricks & Ross e Manhattan Transfer.

Um episódio sintomático ocorreu em 1950, quando Basie, por questões de economia, teve de desfazer a orquestra e formar um grupo menor, um sexteto. Muita gente ficou surpresa ao ver Green excluído, mas uma guitarra rítmica seria um luxo num conjunto pequeno. Green interpelou Basie: “Eu lhe dei os melhores anos de minha vida e agora vai me deixar na mão?” O sexteto tornou-se septeto e, um ano depois, Basie refez a big band e Freddie continuou por mais 35 anos.

Com a morte de Basie, em 1984, a orquestra continuou, no ano seguinte, sob a direção do trompetista Thad Jones. E ele declarou: “Não acho possível falar da banda de Basie sem Freddie Green. É o elo que mantém a tradição viva. É o decano, no qual buscamos a força espiritual”. A guitarra Gretsch continuou por mais três anos pousada num angulo de 45 graus sobre as pernas cruzadas de Freddie Green, tchumtchum-tchum-tchum, até que o coração do genial guitarrista deixou de bater, em 1987, meio século depois de ter iniciado sua fascinante odisseia musical na orquestra de Count Basie.

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