Cuba, Jazz e Fake Stars

Olivio Petit* recupera uma fascinante história musical envolvendo falsas big bands e falsos cubanos em Nova York. E é tudo verdade

Para ser lido ao som de Rita Lee em Caso Sério

Você e eu somos um
caso sério
Ao som de um bolero
dose dupla
Românticos de Cuba Libre!
(Rita Lee)

Como muito pouca gente se lembra, antes da web o pessoal fazia sucesso na TV e, antes disso, no rádio. Percebendo a importância da – como se diz hoje em dia – plataforma de comunicação, o presidente-ditador Getúlio Vargas criou a Rádio Nacional, lá pelos anos 30.

A Nacional dominava o dial do Oiapoque ao Chuí, com seus programas de humor, jornalismo, transmissões esportivas e, principalmente, com seus programas de auditório onde desfilavam os grandes ídolos daquela época: Luiz Gonzaga, Silvio Caldas, Emilinha Borba, Marlene, Jorge Goulart e Cauby Peixoto praticamente moravam naquele prédio da Praça Mauá, no Rio de Janeiro.

Foto: Divulgação
Cantando na Rádio Nacional

O cantor Nilo Sergio surgiu lá, num programa de calouros. Logo virou crooner da orquestra da emissora e começou a fazer sucesso como cantor de músicas românticas norte-americanas. Seu inglês perfeito o levou para Los Angeles, como correspondente da rádio. Lá, ele conheceu astros do cinema e da canção e aprendeu os segredos do show business. Estávamos no ápice da Era do Swing. Reinavam as big-bands, orquestras baseadas em arranjos e improvisos de naipes de sopro, garantidos por uma cozinha de ritmistas com guitarra, baixo, piano e bateria. Essas orquestras, que levaram o jazz para o mundo, eram lideradas por gente como Dizzy Gillespie, Glenn Miller, Count Basie, Duke Ellington e Benny Goodman.

Com Frank Sinatra em Los Angeles (Foto: Divulgação)
Com Frank Sinatra em Los Angeles (Foto: Divulgação)

Voltando ao Brasil com equipamentos de última geração na bagagem, Nilo Sergio não perdeu tempo e abriu uma gravadora chamada MUSIDISC. E teve uma sacada genial. Como não tinha dinheiro para concorrer com o cast das  principais gravadores e rádios da época, inventou os Fake Stars. A estratégia era simples: ele criava um nome fictício, normalmente com pegada americana, e convidava músicos talentosos e que não faziam muito sucesso, para usar a identidade secreta criada por ele. Um dos mais famosos foi o sax tenor Bob Fleming, que era interpretado por Moacyr Silva e Zito Riggy, que gravaram nove discos no total.

Com o sucesso de Bob Fleming, Nilo Sergio partiu para o que se tornaria o carro-chefe dos 25 anos de sucesso de sua gravadora: a orquestra de ritmos latinos Românticos de Cuba, que lançou 27 discos entre 1959 e 1981, ano do falecimento do dono da gravadora. A orquestra nunca teve a mesma formação e nunca teve um único cubano tocando em seu grupo de artistas. A garantia da personalidade incomparável da big-band latina estava no ouvido sensível de Nilo – que nunca tocou nenhum instrumento, mas compunha como poucos – no talento do Maestro Henrique Niremberg e no equipamento importado a preço de ouro, para a gravação das faixas de cada disco.

Mas a melhor história dos Românticos de Cuba aconteceu quando Nilo Sergio resolveu, abrir a Musidisc Internacional em Nova York, onde colocou headphones em todas as lojas de discos de Manhattan e começou a vender música cubana em plena crise dos mísseis russos de Fidel. Com o fracasso na Baía dos Porcos, o FBI acirrou a caça às bruxas dentro do próprio país. Invadiu a sede local da Musidisc por três vezes, em busca da orquestra cubana que não existia. Cansado de provar que não fazia parte de uma rede de espionagem comunista, Nilo voltou ao Brasil e só voltou aos Estados Unidos para receber o prêmio de Homem do Ano da revista Billboard, pela invenção do Mini Disc: um long play com a mesma quantidade de vinil que era usada num compacto duplo, em plena crise do petróleo.

Nilo Sergio foi um gênio do mercado fonográfico brasileiro. E a Musidisc continua viva. Seu filho Nilo Sergio Pinto está invadindo o spotify, como o pai invadiu Nova York: com os Românticos de Cuba, relembrados por Rita Lee em seu clássico Caso Sério.

Mudam as plataformas, mas a luta continua


* Olivio Petit é documentarista e prepara, com Nilo Sergio Pinto, um projeto que reúne um filme e um livro sobre a história da gravadora MUSIDISC.

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