O jazz salvou a minha vida

Roberto Muggiati conta como foi resgatado de uma fossa existencial pelo sax de Barney Willen e de como seu projeto de se suicidar em Paris aos 23 anos foi adiado – com relativo sucesso – até hoje

Para ser lido ao som de Barney Wilen em Round About Midnight

Foto: Benh LIEU SONG/CC BY-SA 4.0/Wikicommons
Foto: Benh LIEU SONG/CC BY-SA 4.0/Wikicommons

Eu tinha 23 anos, não vou dizer que é a mais bela idade da vida, mas se você teve a sorte de morar em Paris quando jovem, aonde quer que vá, para o resto da vida, ela o acompanhará. De repente, o inverno do nosso descontentamento se fez verão glorioso e ensolarado por causa do amor. Entre tantas francesas, eu tinha de escolher uma brasileira. Troquei Curitiba por Paris com a cabeça cheia daquele amor romântico-existencialista dos filmes em preto-e-branco da nouvelle vague. Essa baiana desarraigada, alguns anos mais velha do que eu, era para mim uma Jeanne Moreau, esperta nos jogos galantes que a atriz encenara em filmes como Os Amantes e As Ligações Amorosas. Funcionária do nosso acolhedor serviço diplomático, tinha um relacionamento complicado com um francês muito rico e me usou como peça no tabuleiro amoroso para provocar ciúmes no amante. Sua estratégia surtiu efeito. Um dia depois de assistirmos a um concerto maravilhoso de Thelonious Monk no Olympia, tocando April in Paris – e era mesmo abril em Paris –, a baiana me largou e pegou um avião para a Índia. Viciado naquela doce rotina de sexo, vinho e jazz, eu desmantelei. Para piorar as coisas, por falta de opção e dinheiro, morava num hotel decrépito na rue de Nesle, um pequeno quarto eternamente escuro – à uma da tarde tinha de acender a luz se quisesse ler o jornal ou ver minha cara no espelho (opções totalmente descartáveis naquela conjuntura). Era uma região de vibrações sinistras, quase à margem esquerda do Sena. Ali existira a Torre de Nesle e, segundo a lenda, as irmãs princesas de Borgonha – Blanche, Marguerite e Jeanne de Navarra, esta casada com Felipe, o Belo – costumavam atrair para lá homens da sua escolha e, depois de se entregarem a todo tipo de prazer com eles, os jogavam do alto da torre para morrerem afogados no rio.

A Torre de Nesle foi demolida em 1663: eu teria de me jogar no Sena de outra maneira, sem o consolo de passear antes pelos lençóis das irmãs de Navarra. Atirar-me nas águas frias do Sena foi o plano final que se formou na minha cabeça, depois de dois dias bebendo vinho barato e remoendo a perda da minha baiana – era como se tivessem amputado parte do meu corpo. Certa noite, desci os degraus de madeira do hotel, desgastados pelos pés de milhares de infelizes que haviam se arrastado por ali ao longo das décadas. Tomei a direção do rio – la Seine, feminino em francês – lembrando também le sein, o seio em que iria afogar para sempre a minha dor. Ao sair do hotel, parei de repente. Ouvi um som que se projetava da janela fracamente iluminada de um prédio na vizinhança. Lento e suave, um sax-tenor tocava Round About Midnight, de Thelonious Monk, a mais bonita melodia do Jazz. Fiquei petrificado na rua de paralelepípedos, escutando aquele saxofone solitário que se insinuava no silêncio da noite parisiense. Aos poucos, com a música se perdendo ao longe, tomei o rumo oposto e caminhei para as luzes do boulevard Saint-Germain, onde fui repensar minha vida sentado num restaurante de calçada diante de uma travessa de ostras frescas e de uma taça de vinho branco gelado. O francês é sábio: não há chagrin d’amour que resista ao instinto do bon gouter. O projeto de suicídio foi adiado – com relativo sucesso – até hoje. A propósito, o anjo salvador foi o saxofonista Barney Wilen, que morava por ali e havia tocado até com Miles Davis.

Meu pai e minha mãe se conheceram ainda jovens, quando trabalhavam numa grande loja da rua Quinze, em Curitiba, vendendo discos – aquelas bolachas pretas com rótulos redondos no meio que giravam em 78 rotações por minuto e tinham seus sulcos beliscados por agulhas de metal ou de bambu. A cada dez audições de um disco, a agulha gastava e tinha de ser trocada. O som saía com muito chiado, mas era o melhor que tínhamos na época. Um dia meu pai acordou com ímpetos de heroísmo e alistou-se para lutar na Revolução de 30. com as tropas getulistas, que amarraram seus cavalos no obelisco da avenida Rio Branco, ele chegou ao Rio de Janeiro. Outro dia encontrei um cartão-postal que ele mandara para minha mãe – uma foto colorida a mão da orla de Copacabana – em que perguntava: “Beatriz, lembras-te ainda de mim?” Folheando as cartas enviadas por ele para minha mãe nos anos seguintes, senti-me como o personagem de Michael J. Fox em De Volta para o Futuro, torcendo para que meu pai e minha mãe se casassem, o que só aconteceu, depois de muitas idas e vindas, seis longos anos depois – caso contrário não estaria aqui aborrecendo vocês com essas lamentações do passado.

Nasci numa casa em que o rádio e a vitrola ocupavam lugar de destaque e estavam quase sempre ligados. Um dia ouvi alguém dizer que Carmen Cavallaro era “o maior pianista do mundo”; eu não conseguia entender o superlativo em matéria de música. Pressupunha o quê? Um gigante de 3m de altura tocando num piano imenso? Tinha 12 anos, fiquei intrigado, mas acreditei que Cavallaro era mesmo o maior. Até o momento em que me caiu nas mãos um disco da Capitol, selo branco, dizeres em azul, uma canção de George Gershwin, Nice Work If You Can Get It, improvisada pelo pianista Art Tatum. Se Cavallaro era um gigante da música melosa, Tatum era “Deus”, como o chamavam os demais jazzistas. Para mim aquilo não era apenas música, era uma abertura total de ouvidos e de cabeça. A partir daí, já nos primeiros LPs de dez polegadas, passei por uma série de revelações: o trompete de Louis Armstrong, a clarineta e o sax-soprano de Sidney Bechet, a corneta de Joe King Oliver, a clarineta de Johnny Dodds.

Em 1950 fui estudar no novo campus do Colégio Estadual do Paraná, tão moderno que – incorporando a paranoia norte-americana da Guerra Fria – tinha até um abrigo subterrâneo para bombardeios nucleares. No início de 1954, aos 16 anos, comecei a trabalhar num jornal de Curitiba, a Gazeta do Povo. Lia muito, já escrevia no jornal do colégio, a vocação se desenhava. Mas a paixão pelo jazz seguia firme. Por essa época, num sebo de discos de São Paulo, comprei um LP da Jazz At The Philarmonic, a capa de papelão não correspondia ao disco que comportava, em que Lester Young ao sax-tenor e Charlie Parker ao sax-alto improvisavam sobre um dos standards preferidos dos jazzistas: l Can’t Get Started. O encadeamento de ideias do solo de Lester (três minutos) ao de Parker (um minuto e meio) é admirável, como se fossem o mesmo músico tocando. Experimente tocar o alto de Parker em rotação reduzida e você ouvirá Lester… A genialidade de Parker me assustava, como a todos os demais aspirantes do sax-alto. Identifiquei-me mais com o tenor de Lester e sua “malemolência cool”.

No dia em que comemorava meus 18 anos na boate La Ronde, depois do fechamento do jornal, decidi estudar saxofone. Indicaram-me um trompetista no mesmo prédio da boate, o Altevir, um mulato elegante com ternos escuros de riscas-de-giz que parecia pertencer ao naipe de metais da orquestra de Duke Eüington. Encomendei um sax-tenor para um fabricante de São Paulo, Ubaldo T. Abreu, uma verdadeira “carroça”, que recebi quatro meses depois pelo reembolso postal. Enquanto o instrumento não chegava, eu aprendia a ler música estudando solfejo com Altevir pelo bom velho Método Bona de divisão musical. Uma coisa deve ser dita em favor do Colégio Estadual do Paraná: tínhamos aulas com o maestro Bento Mossurunga – o Villa-Lobos das Araucárias – e trabalhávamos o ano inteiro com um caderno de pautas rabiscando notas e tentando aprender um pouco de música. Depois de alguns meses, o Altevir achou que eu já estava pronto para a minha primeira gig e lá fomos nós – uma noite em que tive de fazer gazeta na Gazeta – tocar no baile anual do Sindicato dos Garçons. Trêmulo, suando frio, mal podendo enxergar a partitura, soprei penosamente, enquanto evoluíam à minha frente – muitos acenando para mim – os garçons que o ano inteiro me serviam em bares, bailes e boates. No fim da noite, Altevir me chamou a um canto e me passou um punhado de notas dobradas – o primeiro e único cachê que ganhei na vida fazendo música. Experimentei também um momento de satisfação jazzística tocando na casa de um amigo num natimorto trio – saxofone, violoncelo e bateria – o tema de Miles Davis Boplicity, o supra-sumo da sofisticação cool. Tudo isso aconteceu entre a segunda metade dos anos 1950 e o ano de 1962, quando deixei Curitiba definitivamente.

Um dia chegou à cidade a banda de Woody Herman e tocou numa noite de sábado no Guairinha. O sax-tenor Jay Migliori, que tinha tocado com Miles Davis e depois faria parte do famoso Supersax, quis dar uma canja em algum lugar. Fomos para o Moulin Rouge, uma mistura de boate e bordel que ficava em cima de um posto de gasolina. Jay tirou o saxofone do estojo, começou a tocar Bluebird, mas os músicos não conseguiam acompanhá-lo e ele desistiu antes mesmo de terminar o tema, botou a sacola debaixo do braço e se mandou.

Eu seguia trabalhando toda noite no jornal, ouvindo jazz e soprando meu saxofone, entrelaçando palavras e notas musicais – o que acabaria fazendo para o resto da vida. Conheci e fiquei amigo de um trombonista genial, Raul de Souza, o Raulzinho, que servia na Base Aérea do Bacacheri. com seu ouvido privilegiado, bastou escutar alguns discos de jazz moderno para sair tocando como se estivesse na rua 52 de Nova York. Tinha mais som de J. J. Johnson do que o próprio J. J.

Amigo de Raul, o trombonista Maciel aterrissou também em Curitiba. Eram poucos os lugares onde se podia tocar jazz na cidade. Na verdade, nenhum. Raul, com o seu trombone de pisto, fazia dueto com Maciel, ao trombone de vara, tocando para as estátuas, os bustos e as paredes vazias da noite. Lembro de uma noite em que Raul tocou para o busto do velho Suplicy, o reitor, diante da universidade. Curiosamente, em 2007, ele teve a chance de tocar do lado de dentro, na Reitoria, durante a Oficina de Música que agita a cidade em janeiro.

Nos anos 1950, havia um taxi-dancing chamado Caverna, no subsolo do Clube Curitibano, onde o italiano Beppi fazia a música com o seu trompete. Raul e Maciel iam dar umas canjas lá, mas logo partiam para o bebop e eram expulsos. Não era música para dançar. Acompanhei Raul em suas noites solitárias dialogando com um búfalo no Passeio Público –, episódio detalhado anteriormente neste livro.

Em 1962, nos seis meses mais loucos da minha vida-que quase teve fim num choque frontal do meu DKW com um bonde no Juvevê, do qual consegui desviar a tempo –, o quinteto do saxofonista Paul Winter passava por Curitiba e o convenci a apresentar Raulzinho como convidado especial no seu show no esqueleto do Guairão. Foi um sucesso.

Jazz e jornalismo entrelaçados: em 14 de outubro de 1960 eu chegava a Paris para estudar no Centre de Formation dês Journalistes. Depois de vinte horas de trem de Madri à Gare de Lyon, me vi às oito da manhã no café da estação, tomando um café-au-lait com croissant e folheando um dos jornais do dia. Uma pequena nota me chamou atenção: naquela tarde de sexta-feira haveria um concerto em homenagem ao baixista recém-falecido Oscar Pettiford, no Théâtre des Champs-Elysées. Peguei um táxi para a Cité Universitaire, descobri na Maison du Brésil – uma “máquina-de-morar” projetada pelo arquiteto Le Corbusier – que meu quarto ainda não estava disponível e eu teria de dormir num pequeno espaço atrás do palco da Maison. Larguei minhas malas e rumei para o local do concerto.

O Théâtre des Champs-Elysées tinha um peso histórico formidável. Ali nasceu a arte moderna, em 1913, com a apresentação do balé A Sagração da Primavera, com música de Stravinsky, coreografia de Nijinski e encenação pelos Balés Russos de Diaghilev. Achei a sala meio sombria e deprê, a platéia ocupava, em menos da metade, as cadeiras. O concerto fora organizado às pressas. De qualquer maneira, pude ouvir pela primeira vez ao vivo Bud Powell e o saxofonista Lucky Thompson, um veterano tenor que também adotara o soprano. Anos depois, com capa de papelão fino em preto-e-branco, típica do selo Vogue, foi lançado o disco gravado ao vivo naquela ocasião. Vibrei ao identificar minhas palmas ao fim de cada música, sentia que também fazia parte daquele vinil. com o tempo, ouvi outros discos gravados ao vivo aos quais havia assistido, entre eles o de Monk no Olympia – aquele de abril seguinte em Paris. Para minha decepção, tomei conhecimento de que as gravadoras usavam sempre as mesmas palmas; tratava-se de palmas clonadas fabricadas pela sonoplastia.

O ano e meio passado em Paris foi pródigo em jazz, principalmente os shows regulares da temporada na sala do Olympia e, quando sobrava algum dinheiro, em clubes como o Caméléon, o Chat-qui-Pêche e o Blue Note, onde tocava o trio da casa – The Three Bosses –, deixando claro tratar-se de um grupo em que os três mandavam; os geniais americanos exilados: Bud Powell (piano), Kenny Clarke (bateria) e o baixista francês Pierre Michelot. Certa noite, no Blue Note, tive a oportunidade de sentar-me a uma mesa próxima à de Bud Powell e Thelonious Monk,que visitava o colega. Era aquela situação do “bafo-na-nuca”, os dois, poucos centímetros à minha frente, sem trocar uma só palavra, olhando um para o outro de soslaio e rolando de rir.

O curso de jornalismo era intenso, me obrigava a escrever exclusivamente em francês, mas sobrava tempo para explorar a cidade. Paris ainda era uma aldeia, lembro de flanar de manhã pelo boulevard Saint Germain quase deserto, e ver com frequência Bud Powell tomando café na terrasse do Aux Deux Magots com seu amigo e protetor Francis Paudras (Bud, metamorfoseado num saxofonista que tem tudo a ver com Lester Young, é o tema do belo filme Por Volta da Meia-Noite. O papel coube ao saxofonista Dexter Gordon: indicado para o Oscar de melhor ator, que perdeu injustamente para Paul Newman).

Cruzei caminho também, naquela primavera de Paris, com os poetas beats Allen Ginsberg e Gregory Corso (moravam no chamado “Beat Hotel”, um pardieiro sem nome na viela medieval Grégoire-de-Tours, transversal ao Sena). William Burroughs também vivia no mesmo local, mas quase não saía do hotel. Ginsberg não quis ser entrevistado, mas Corso foi simpático e conversamos durante horas num café em Saint Germain. Menciono esses escritores porque faziam parte de um movimento fortemente influenciado pelo jazz, até no seu nome: beat. Queriam escrever do jeito que os músicos de jazz tocavam, seguindo o fluxo e os ritmos do inconsciente, improvisando frases como as de Charlie Parker e de Miles Davis. O grande romancista dos beats, Jack Kerouac, escreveu: “Quero ser considerado um poeta-de-jazz, tocando um longo blues numa jam session de domingo à tarde”. Comecei a acompanhar o que os beats faziam e a tentar escrever como eles, absorvendo na página escrita as pulsões do jazz.

O prazer de ouvir John Coltrane pela primeira (e única) vez em novembro de 1961 foi acrescido pela presença de Eric Dolphy. A emoção de vê-los tocando juntos, durante meia hora, My Favorite Things ficou na minha lembrança para sempre. Naquela noite, tive a sorte de assistir a um episódio pitoresco. No intervalo entre os dois shows, fui atraído por uma pequena aglomeração na estreita rua ao lado do Olympia. Dentro de uma dessas pequenas épiceries tipicamente parisienses, John Coltrane comia um ovo duro, sob os olhares curiosos dos fãs, do outro lado da porta de madeira e vidro. Envergando um smoking (na época, os jazzistas se apresentavam quase sempre de black tie), o profeta do jazz cumpria um rito banal do cotidiano, mas a solenidade da cena era tamanha que rivalizava com seus melhores desempenhos ao saxofone.

A primeira vez que vi Chet Baker não foi num palco, tocando trompete ou cantando, mas calado, de terno e gravata, num tribunal de Florença. Cumpria pena de prisão na vizinha cidade de Lucca, por ter sido flagrado na posse de anfetaminas – comprimidos vendidos normalmente em farmácia mediante receita médica. Os advogados de Chet pediam a abreviação da sentença, mas os sinistros juízes togados de Florença votaram contra. Dias depois, num domingo, percorri o caminho em cima da muralha que cerca Lucca por inteiro, a cidade lá embaixo, com suas igrejas românicas e prédios antigos, suas vielas estreitas contrastando com amplas praças, e pensei muito no velho Chet – ainda jovem, com 31 anos – na solidão do seu cárcere.

Os anos passaram, ouvi finalmente Chet tocando trompete e cantando. Traduzi, já nos anos 2000, sua biografia por James Gavin e um romance policial escrito pelo baterista Bill Moody, No Rastro de Chet Baker. Mais do que isso, tive o privilégio de entrevistar Baker durante quase uma hora ao lado da piscina do Hotel Nacional do Rio, quando ele se apresentou no primeiro festival Free Jazz, em 1985.

Como jornalista e crítico de jazz, entrei no circuito dos festivais a partir de 1979, viajando no mesmo avião com Hermeto Pascoal e toda a sua banda do aeroporto do Galeão – com escalas em Dacar e Paris – até Genebra, e dali para Montreux. Hermeto transportando, desde sua casa no bairro Jabour – para espanto da alfândega suíça –, um imenso travessão de madeira do qual pendia uma bateria de panelas, que faria parte da percussão. Em sua primeira apresentação na Europa, O Bruxo arrasou. Aquela rodada dupla da Noite Brasileira em Montreux tinha também a apresentação de Elis Regina com um grupo allstar que incluía o marido pianista César Camargo Mariano e o guitarrista Hélio Delmiro. No final da noite, Elis e Hermeto se apresentaram juntos, ele ao piano, jogando uns acordes marotos para provocar Elis, ela encarando e entrando na brincadeira do Bruxo, em três belas interpretações – Corcovado, Asa Branca e Garota de Ipanema. Depois do show, fui escolhido para uma conversa exclusiva com Elis no Bar des Musiciens, local de jams entre os músicos, onde César Camargo era muito solicitado. Elis, que nos seus shows aparecera em estilo vamp à Billie Holiday, com uma orquídea nos cabelos, usava o mesmo vestidinho estampado, em fundo claro, da sua apresentação com Hermeto. Ainda dividido entre a palavra e a música, despejei sobre Elis todas as minhas dúvidas existenciais, ajudado pelas borbulhas do champanhe. Ela me pareceu uma figura muito zen e equilibrada, esbanjando sabedoria de vida – apesar de ser oito anos mais jovem que eu. Ainda vi Elis no voo de Genebra para Paris – ela e Hermeto seguiam para o Festival de Tóquio, enquanto eu voltava para o Brasil. Sua morte, dois anos e meio depois, me surpreendeu e chocou. Quanto a Hermeto, fui convidado para as famosas feijoadas de dona Ilsa no bairro Jabour, e passei a acompanhar seu trabalho. No álbum Só não Toca Quem não Quer, ele dedicou-me uma faixa, sugestivamente intitulada Viagem.

Cobri os festivais de Montreux de 1985 a 1988 – eu escrevendo e minha mulher, Lena, fotografando. Cobrimos também todos os festivais da série Free Jazz, até suas mutações mais recentes.

Acreditando no que Hermeto dizia, que só não toca quem não quer, comprei um sax-tenor Selmer e em 1980 voltei a estudar; desta vez com um professor genial, o Mauro Senise. Uma aula por semana, durante dez anos, não rendeu bons frutos. Eu deixava a Manchete às pressas, pegava o saxofone em casa e rumava para o apartamento do Senise – tudo isso às seis da tarde, com um trânsito infernal. Chegava à aula estressado, em geral sem ter estudado a lição. Fazer música exige dedicação integral. Sem isso, você vira um diletante. Mesmo assim, foi um prazer enorme estudar saxofone.

Uma lembrança que guardo com carinho foi a minha ousadia, num dos festivais no Museu de Arte Moderna do Rio, de pedir para “dar uma voltinha” no sax-barítono do meu amigo Carlos Malta. Encontrava-se no camarim o baterista Roy Haynes, que tocara com Charlie Parker e todas as feras do bop. Enxuto, nos seus 73 anos, de peito nu, fazia suas cem flexões habituais antes de subir ao palco. Empunhei o barítono e toquei, sem vacilar, Goodbye Pork Pie Hat, o belo tema que Mingus dedicara a Lester Young. Acho que não fui de todo ruim. O saxofone alargou meus horizontes como crítico e historiador musical e, de certa forma, influenciou minha maneira de fazer jornalismo e, principalmente, de escrever.

Em Paris, um amigo me perguntara: “Por que não volta para o Brasil e vai trabalhar numa grande revista? Veja só que bela vida a do Justino Martins, o diretor da Manchete. Todo ano passa um mês de férias na Europa”. Voltei ao Brasil em 1965 e, por coincidência, fui trabalhar na Manchete. Dez anos depois, passava a dirigir a revista, no lugar de Justino. Antes, passei dois anos em São Paulo, no lançamento da revista Veja, como um dos quatro editores assistentes do diretor Mino Carta. Coube-me a fatia mais apetecível: a editoria de Artes e Espetáculos. Eram tempos agitados e inquietos: maio de 1968, a Primavera de Praga, a ascensão do Black Power, a expansão dos hippies e do psicodelismo, o Homem na Lua, o Festival de Woodstock. Assinei a reportagem de capa da Veja quando Glauber Rocha ganhou a Palma de Ouro em Cannes por Antônio das Mortes. Em 1968, lancei em São Paulo meu primeiro livro, Mao e a China, uma defesa inflamada do comunismo chinês. Uma semana depois da tarde de autógrafos, foi assinado o AI-5 e começaram os Anos de Chumbo. Quando o capitão Lamarca morreu, encurralado pelas forças da repressão no interior da Bahia, os jornais publicaram trechos das cartas que trocara com a companheira Iara, em que fazia comentários elogiosos sobre Mao e a China, um dos últimos livros que leu. Nada me aconteceu. Eu me sentia um homem invisível.

Voltei ao Rio no final de 1969 para dirigir a revista Fatos e Fotos, também da Bloch, que editava a Manchete. Nunca fiz uma reflexão mais profunda sobre as prováveis consequências da mudança de São Paulo para o Rio. Enquanto escrevia este livro, assisti a um filme sobre Vladimir Herzog.A história do Vlado me interessava porque ele tinha a minha idade e foi ocupar a minha vaga quando saí do Serviço Brasileiro da BBC de Londres, em 1965. Vi no filme depoimentos de antigos colegas da Editora Abril, esquerdistas light que foram presos e torturados nos porões do DOI-Codi de São Paulo, onde Vlado não resistiu às torturas e morreu, o que levou os torturadores a forjarem um inverossímil suicídio por enforcamento. Depois de todos esses anos, tive de repente a consciência aguda de que, tivesse me radicado em São Paulo – o melhor mercado de trabalho do país para jornalistas –, bastaria o meu Mao e a China como “carta de recomendação” para que eu me tornasse mais uma estatística fatal dos Anos de Chumbo. Salvou-me a índole on the road dos músicos de jazz que tanto me inspiravam.

Esse mesmo espírito desapegado do Jazz me ajudou nos quase 25 anos como editor da Manchete. O editor é uma figura maldita e solitária, pressionado por tudo e por todos: pelos donos da empresa, pelos “cartolas”, pelos chefiados, pelos editores de outras revistas e até pelos funcionários de outros setores. Era fácil, por exemplo, o editor indicar uma capa toda semana. O difícil era conseguir a aprovação. Às vezes, o comentário leviano de um contínuo derrubava uma capa, o que me obrigava a ter um verdadeiro arsenal de opções de capa. O dono da empresa, Adolpho Bloch, tinha sempre a palavra final, e acompanhava de perto o preparo da revista; mesmo quando se ausentava para cuidar de seus imensos problemas bancários, valia-se dos informantes. A Manchete foi, na verdade, o resultado do corpo a corpo implacável entre o jornalista que a dirigia e Adolpho Bloch, que tinha alma de gráfico (dizia que lhe corria nas veias não sangue, mas tinta de impressão).

No começo sofri para enfrentar este esquema, depois aprendi a improvisar minhas soluções e a assumir uma postura zen. Conseguia encontrar brechas, além da revista, para cultivar outros interesses: tocar saxofone, escrever sobre música e outros temas, publicar mais de uma dezena de livros. Escapei assim de ser, prematuramente, vítima de infarto, de câncer ou do álcool – os três grandes inimigos do jornalista que se envolve demais com o seu trabalho. Já Justino, sem dúvida um dos maiores “revisteiros” do país, parecia ter por lema “Manchete c’est moi”.A tal ponto que teve uma morte simbólica: em 1983, dias depois de ter ido ao ar a TV Manchete – o que relegaria a revista para segundo plano –, sentiu os primeiros sintomas de um câncer que o levaria em menos de um mês.

A Manchete chegou a seu fim numa espécie de morte anunciada. Por lá passaram escritores e jornalistas notáveis. Como assistente de Justino e depois editor, tive o prazer de coordenar a série literária As Obras-Primas que Poucos Leram (relançada pela Editora Record em uma antologia de quatro volumes) e receber em mãos as colaborações de gente como Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro, Joel Silveira, Josué Montello e do mais assíduo de todos, Otto Maria Carpeaux, que se sentia igualmente à vontade passeando pelo Castelo de Kafka como na companhia do rebelde Holden Caulfield de O Apanhador no Campo de Centeio. Antes de entregar o texto, de pé diante da mesa de edição, Carpeaux, com uma caneta esferográfica em punho, dava ainda os últimos retoques no texto caprichosamente datilografado.

Quando a Manchete pediu falência, em 1° de agosto de 2000, não posso dizer que fiquei desempregado. Ao contrário, passei a ser mais empregado do que nunca, na base do trabalho free lance, ou seja, como um verdadeiro improvisador das palavras. Depois de 46 anos vivendo no “inferno das redações”, passei a trabalhar em casa. De repente, tornei-me meu funcionário e patrão – um patrão exigente que me fazia trabalhar a toda hora do dia, todos os dias da semana, incluindo sábados e domingos.

Quem trabalha em casa sofre um certo grau de dispersão e precisa ter alguma disciplina para fazer o trabalho render. Mais uma vez o jazz me ajudou a improvisar minha vida, sabendo que cada nota tocada – cada tecla digitada – significava dinheiro entrando em minha conta, para pagar outras contas. Nestes últimos oito anos colaborei em várias revistas, desde a roqueira Bizz à intelectual Nossa História, para a qual escrevi praticamente sozinho uma edição especial – A construção do Brasil. Participei da bela aventura cultural que foi o site no.ponto, onde contei minhas histórias sobre o ovo de Coltrane, a viagem com Hermeto e Elis e sobre o cartão de Natal que recebi de Jack Kerouac, além de fazer incontáveis resenhas de livros e discos. Traduzi cerca de 50 romances dos autores que me são favoritos: de Scott Fitzgerald a Henry Miller, de John Steinbeck a John Le Carré, de E. L. Doctorow a John Fante. Organizei e traduzi duas antologias de contos: A Selva do Dinheiro e A Selva do Amor, e um volume sobre caminhada, incluindo o clássico texto de Thoreau, Walking (por coincidência título de um dos temas mais conhecidos do Jazz), com um perfil da fabulosa figura que foi o pai da “desobediência civil”, e um ensaio que amadureci ao longo de 15 anos – A Arte de Andar. Traduzi também a biografia de Chet Baker e as autobiografias de Billie Holiday e Charles Mingus, ambas acrescidas de posfácio, muitas vezes ouvindo jazz enquanto trabalhava.Em fevereiro de 2006, fui convidado para dar um curso sobre Cem Anos de Jazz, no Espaço Cultural Santander, em Porto Alegre. Foram três palestras de três horas cada, para uma plateia completa, constituída por pessoas interessadas – homens e mulheres entre 18 e 80 anos de idade, que me pareceram absorver tudo o que eu tinha a dizer e, principalmente, a tocar em CD. Comecei com uma série de ilustrações musicais mostrando a universalidade do jazz: Prenda Minha, o clássico do folclore gaúcho, por Miles Davis; Parabéns a Você, um solo de saxofone de Stan Getz dedicado ao pianista Bill Evans; Noite Feliz, uma divagação natalina pelo trompete de Chet Baker; um pássaro diferente, Tico-Tico no Fubá“, por Charlie Parker, Aquarela do Brasil, por Django Reinhardt; e um tema do Gonzagão, Pau de Arara, por Dizzy Gillespie. A receptividade que senti naqueIas pessoas em relação ao jazz levou-me à ideia de mostrar que o jazz não é apenas um estilo musical, mas uma forma de encarar a música. E, mais do que isso, um modo de encarar o mundo, capaz de oferecer a cada indivíduo não só soluções de sobrevivência, mas caminhos para aproveitar ao máximo todo o potencial de prazer e de liberdade que a vida nos reserva.

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