Jazz na gafieira (universal)

Mais de quatro décadas depois de seu surgimento, a Banda Black Rio continua na ativa com sua criativa mistura de soul, funk, jazz e samba

Para ser lido ao som de Banda Black Rio no Programa Instrumental Sesc Brasil*

Na refavela sonora que o Gilberto Gil pré-Realce começou a mapear na metade dos anos 70, a Banda Black Rio era a síntese perfeita do que seria o funk/samba/soul carioca. Era o som que chegava à Zona Sul vindo dos subúrbios do Rio – Leblon via Vaz Lobo – antecipando e resumindo a atmosfera do mundo funk. Já estava tudo lá – de Tim Maia e Cassiano às ideias embrionárias da Banda Brylho (de onde surgiu Claudio Zoli). Das maravilhas contemporâneas de Luiz Melodia às negras melodias de Jards Macalé. A Banda Black Rio era uma usina rítmica que juntava o trompete de Barrosinho, o trombone de Lucio da Silva, o piano de Cristóvão Bastos, a guitarra de Claudio Stevenson e o baixo de Jamil Joanes. Tudo alinhavado pelo sax de Oberdan Magalhães. Com sua formação (quase) original, a banda  deixou três discos – os derradeiros Gafieira Universal, de 1978, e Saci Pererê, de 1980 – que  que ao lado do pioneiro trabalho (o antológico Maria Fumaça) traçam um painel detalhado do que há de melhor no soul brasileiro e que tangencia a black music da Stax e da Motown, duas pioneiras do soul americano. A Banda Black Rio foi a estrada musical que ligou Madureira a Detroit.

A maioria dos fundadores já morreu, inclusive aquele que exercia o protagonismo e a liderança: Oberdan Magalhães, morto em janeiro de 1984 vítima de um acidente automobilístico na Lagoa Rodrigo de Freitas (tragicamente semelhante ao acidente que tiraria a vida do filho de Gil, Pedro, poucos anos depois). Arranjador, compositor e saxofonista, Oberdan estava na gênse da Grupo Abolição, liderado por Dom Salvador, no começo dos anos 70. Antes e também em paralelo com a Banda Black Rio, emprestaria seu talento a gravações de Raul de Souza, Tim Maia, Luiz Melodia, Caetano Veloso e Gil. A morte lhe pegou precocemente e em plena atividade (aos 38 anos) mas seus ensinamentos e sua herança musical ficaram com seu filho, William, 53 anos recém completos.

Com formação em piano clássico, William é músico profissional desde os 16 anos, tocando com Gil, Tim Maia, Ed Motta, Gal Costa, Marina, Milton Nascimento e George Benson (no álbum Don’t Let Me Be Lonely Tonight, de 2000). Na mesma época, no começo do milênio, retomou a liderança da Banda Black Rio e lançou o disco Movimento.

Atualmente, William se divide entre os trabalhos voltados à Banda Black Rio e as produções de outros artistas. Em 2019, pretende lançar um novo disco, já batizado como Som da Américas além de realizar uma turnê de oito shows pela Europa.

William não desanima com a herança. “Comandar um grupo com tanta história como a Banda Black Rio é uma tarefa difícil, principalmente no Brasil. A Banda Black Rio é uma fonte musical muito rica mas pouco palatável aos ouvidos nacionais”, explica. A dificuldade surgiu desde o (re)começo. Recriar a Banda Black Rio depois de um tempo foi, segundo William, um processo árduo que envolveu muita pesquisa. “Por exemplo, a banda original tinha um sistema de composição coletiva no qual cada um memorizava sua parte e ninguém escrevia. Assim, não ficaram partituras”. E acrescenta: “Essa proposta de fusão que meu pai junto com os outros músicos deixou como exemplo, é o que mais me inspira. A possibilidade de fundir ritmos, de criar até uma certa subversão na música, ir até os mais profundos acordes e passear na simplicidade do funk, soul, samba e outros ritmos, sempre criando uma condição única de expressão, de liberdade estética”.

No período de recriação da Banda Black Rio, William chegou a manter contato com velhos integrantes. “Chamei todos os que ainda eram vivos mas eles diziam que a banda havia morrido com a morte do meu pai em 1984”. Porém, William reconhece que eles foram essenciais nas pesquisas realizadas em busca do som, da fórmula. Atualmente, explica William, a Banda Black Rio não tem uma formação fixa, sendo montada de acordo com compromissos musicais assumidos no Rio, em São Paulo ou na Europa.

“Meu pai tinha algo de Wayne Shorter”, lembra William. “E o Barrosinho era meio Miles Davis”, acrescenta, recordando que os dois tocaram em bailes, orquestras, gafieiras e shows. Tudo isso era jazz.


* Nesta gravação, a formação da Banda Black Rio é: William Magalhães (teclado), Robson da Silva Couto (baixo), Rodrigo Ferreira Coelho (percussão), Paulo José Otaviano Camelo (saxofone), Douglas Antunes da Silva (trombone), Marcus Vinicius Manfredi (trompete), Bruno de Miranda Silveira (bateria) e Isaac Ferreira Negrene (guitarra).

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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