A melodia à noite, com você

Roberto Muggiati lembra como, há 20 anos, Keith Jarrett, com uma doença e incapacitado de sair à rua, gravou em sua própria casa uma série de canções como presente de Natal para a mulher

Para ser lido ao som de Keith Jarrett em The Melody at Night, With You

Keith Jarrett nasceu em 1945, ano em que Charlie Parker gravou Koko, no apogeu do bebop. Cresceu nos anos do rock’n’roll de Elvis e começou a trabalhar como jazzista nos anos da beatlemania. Filho de escocês/irlandês com húngara, passou por negro durante algum tempo graças à sua cabeleira afro. Ao mesmo tempo, muitos o criticaram de não tocar jazz, mas “música branca”. Menino-prodígio, superdotado para a música, já falava aos seis meses; aos dois anos, escutava discos clássicos numa velha vitrola e tentava tocar o que ouvia num piano, “mas também batucava na mesa com talos de aipo”. Aos três anos, a mãe o levou a um professor de piano; aos sete, ele já elaborava melodias originais e improvisava, exibindo-se em recitais – uma espécie de Mozart da cidade de Allentown, na Pensilvânia. Aos 15, Jarrett iniciou estudos formais de composição e, pouco depois, mudou-se para Boston, com uma bolsa de estudos na Berklee School of Music, uma autêntica “fábrica de jazzistas”, a única em todo o mundo. “Eu tinha de pagar minhas despesas pessoais” lembra, “e encarei todo tipo de biscates. Dei sorte tocando em coquetéis”.

Keith Jarrett começou sua carreira para valer em 1966, no grupo do saxofonista Charles Lloyd, fazendo suas primeiras gravações e excursionando seis vezes pela Europa. Mas faz uma ponderação: “Na verdade, aprendi mais tocando piano em bares do que depois, com Lloyd”. A partir daí, seria uma série ininterrupta de sucessos: a fase do piano elétrico na banda de Miles Davis, uma experiência que Jarrett, defensor da música acústica, considerava passageira; os quartetos “americano”, com o saxofonista Dewey Redman, e “europeu”, com o saxofonista norueguês Jan Garbarek; a incursão na música erudita, não só como intérprete, mas também como compositor; finalmente, a grande contribuição de Keith Jarrett ao azz: o recital de piano solo, iniciado com os concertos de Bremen-Lausanne (1973, três LPs), o de Koln/Colônia (1975, dois LPs), os Sun Bear Concerts, da temporada japonesa de 1978 (caixa com dez LPs) e, mais recentemente, os CDs Paris Concert (1988) e La Scala (1995). O crítico Whitney Baüiett, da revista New Yorker, conhecido por seu estilo que é uma mistura notável de pop e neobarroco, tentou descrever: “Uma apresentação de Jarrett pode refletir e refratar Bill Evans, ragas indianas, Ray Bryant, Stephen Foster, Chopin, Dave Brubeck, Cecil Taylor, Beethoven, Art Tatum, Debussy, Bud Powell, Brahms, os blues, Rachmaninov, música gospel, Bach, Horace Silver, Lennie Tristano, flamenco, canções folclóricas, oConcerto de Varsóvia, McCoy Tyner, o Bolero de Ravel, boogie-woogie e Liszt”.

Balliett pode até exagerar, mas um pouco de tudo isso se encontra no piano solo de Jarrett – e, é claro, principalmente Jarrett. O próprio pianista explicou que o primeiro desses “transes” pianísticos aconteceu no Festival de Jazz de Heildeberg: “Comecei a tocar canções e de repente a interligá-las de certa forma, com partes de transição que conectavam tudo, e, então, aquilo evoluiu para o concerto solo expandido em que não há mais canções e tudo é improvisado no momento”.

Ávido por desafios, Jarrett não se restringiu a esse tipo de apresentação e diversificou seu trabalho. Compôs e gravou peças eruditas, como concertos para oboé, violino, violino e piano, viola; gravou sonatas de Bach e Handel ao cravo em duo com a flauta-doce de Michala Petri; e, a partir de 1985, com o baixista Gary Peacocke o baterista Jack DeJohnette, iniciou a série de apresentações e gravações batizada de Standards – um mergulho entusiasmado na improvisação jazzística, centrado não só em temas da canção popular americana mas também em composições originais do próprio jazz.

No auge do sucesso e da criatividade, tendo ultrapassado a marca do meio século de vida, Keith Jarrett foi acometido, em 1996, por uma doença misteriosa chamada Síndrome da Fadiga Crônica (SFC). Interrompeu de repente todo o trabalho e passou a viver em função da enfermidade, tentando encontrar uma maneira de combatê-la. O efeito da SFC foi particularmente devastador sobre Jarrett, que tocava piano desde os três anos de idade e era um perfeccionista, preocupando-se com os mínimos detalhes. Em três anos de terapia, sem saber se voltaria a tocar piano e incapaz até de ouvir música, ele passou por uma experiência adversa que lhe traria uma nova maneira de se relacionar com sua arte e com seu instrumento. “Eu não pude ouvir música durante dois anos. Quando uma pessoa tem essa doença, ela não pode fazer as coisas de que gosta. Não é como se fosse uma simples dor de cabeça. E é uma coisa terrível para um músico ou apreciador da música. Subitamente, a música não significa absolutamente nada. Lembro de me perguntar, um tanto filosoficamente, e até a outros músicos: ‘O que é realmente a música? Ou seja, ela é importante? Significa algo?’ A doença alterou tudo em relação a como eu sinto a música e como sinto sua importância. Eu nunca chegaria a esta percepção não fosse a doença, estaria ocupado demais em tocar piano”.

No final de 1998, incapacitado de sair à rua, gravou em sua própria casa – equipada com um belo estúdio – uma série de canções como presente de Natal para a mulher. (As canções acabariam saindo em 1999 num CD intitulado The Melody at Night, With You). A tarefa envolveu detalhes técnicos como a escolha e a colocação de microfones e a modificação do próprio piano. “Eu tinha um Steinway alemão, meu favorito, eu o preferia aos Steinways americanos. Mas comecei a mudar de ideia e a desgostar do som vítreo do piano alemão. Então, mantive o piano alemão, mas troquei todos os martelos por aqueles usados nos instrumentos americanos”.

Um episódio interessante ocorreu, uma interferência do acaso que seria vital tanto na gravação das músicas como no processo de cura de Jarrett “Eu procurava um microfone especial e telefonei para um homem que vendia microfones e ele perguntou sobre minha saúde e me falou de uma amiga que tinha a mesma doença e encontrara uma terapia que estava dando resultados. Eu liguei para ela e soube que segundo estudos recentes a Síndrome da Fadiga Crônica tinha a ver com patogenia ambiental e uma bactéria parasita. Então liguei para o especialista que ela indicou e o coloquei em contato com meu médico, que ficou assombrado com o conhecimento do homem, e foi assim que iniciei o programa de recuperação. O interessante é que o microfone que eu procurava foi o que usei paraThe Melody at Night, With You. Assim, não só minha doença teve a ver com a música, mas teve algo a ver com minha recuperação”.

O CD reflete plenamente seu título, “a melodia à noite, com você”. No caso, “você” não é apenas a mulher, a quem foi dedicado, mas o ouvinte (“sempre existiu uma conversação entre mim e o público durante toda a minha carreira”, diz ele). Ao voltar ao piano para gravar essas baladas, Jarrett não tocava havia muito tempo e enfrentava uma situação totalmente nova: “Quando pude me sentar ao piano sem estar doente e tocar um pouco, houve um lance de encontrar uma economia de expressão que supera tudo o que eu podia imaginar quando estava com saúde. É difícil descrever. É quase como se a doença tornasse possível lidar com o esqueleto em vez da superfície, apenas o cerne das coisas, porque não havia energia para mais do que aquilo. Eu estava começando do zero e renascendo no teclado”.

Outro ponto interessante passa pela tese de Lester Young de que o instrumentista, quando toca uma canção, deve sempre ter em mente a letra. “Quando comecei a gravar, as canções vieram a mim por causa de suas letras. Ao tocar essas melodias, eu as estava, definitivamente, cantando por dentro”.

Mas a essência da improvisação do jazz nunca foi tão bem sintetizada quanto nesse depoimento de Keith Jarrett sobre o divórcio dos pais quando ele tinha apenas 11 anos de idade. “Acho que aquilo me tornou mais ferozmente enfocado na música. Uma coisa fenomenal no fato de ser músico e, em particular, tocar um instrumento que não precisa de outros instrumentos para ser tocado, como um piano, ou uma guitarra, é que você pode transformar qualquer estado mental ou estado emocional em que você se encontra em música. Aprendi isso muito cedo. Se estava com raiva, ia tocar piano, e não tocaria música raivosa. Tudo é energia, e você pode mudar a direção para onde essas flechas estão apontando. Tem que usar a energia, de certo modo. Esta é a melhor qualidade da música, para quem a toca. É uma maneira de saber quem você é e o que está sentindo”.

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