Todos os sentidos dos sons

Roberto Muggiati mostra como Rahsaan Roland Kirk – usando três instrumentos que lhe cobriam o peito como uma couraça, óculos escuros e uma cartola amassada – tornou-se uma figura excêntrica e causou grande sensação no mundo do jazz

Para ser lido ao som de Roland Kirk Quartet em Why Don’t They Know

Foto: Kentrethewey/CC BY-SA 4.0/Wikicommons
Foto: Kentrethewey/CC BY-SA 4.0/Wikicommons

Ele nasceu Ronald Kirk (1936-77), mudou o nome para Roland  e acrescentou o Rahsaan depois de “uma visitação de espíritos num sonho”, que o mandaram adotar aquele nome. Cegado por um acidente aos dois anos, voltou-se para a música. Aos nove anos, ao ouvir o corneteiro da colônia de férias onde seus pais eram conselheiros, começou a estudar trompete. Tocou na banda da escola, mas o médico desaconselhou o instrumento, pelo esforço que causava aos olhos. Na Escola Estadual para Cegos de Ohio, Kirk optou pelo saxofone e pela clarineta por volta dos 12 anos. Aos 15, já era conhecido e liderava sua orquestra de dança na região de Columbus. Um dia, sonhou que tocava vários saxofones simultaneamente.

Pouco tempo depois, remexendo na sucata do porão de uma loja de Música, ele encontrou dois instrumentos de sopro híbridos, usados em bandas marciais espanholas do século 19. O strich parecia um sax-soprano grotescamente maior; e o manzello era uma espécie de sax-alto com uma campana acintosamente grande e gorda. Com sua imaginação privilegiada, Roland Kirk encontrou um meio de acoplar mecanicamente o strich e o manzello ao sax-tenor e criou uma técnica de tocar simultaneamente os três instrumentos e solar separadamente nos três, às vezes acrescidos do som de uma espécie de apito ou sirene, que soprava com a narina.

Com os três instrumentos que lhe cobriam o peito como uma couraça, óculos escuros e uma cartola amassada, Kirk era uma figura excêntrica e causou grande sensação no mundo do jazz. O risco de parecer apenas uma bizarrice a mais num cenário tão competitivo foi imediatamente superado pela qualidade excepcional de sua música. Rahsaan era exímio também em outros instrumentos, como as flautas e as clarinetas, a escaleta e híbridos de sua própria criação: um trompete com boquilha de saxofone e uma mistura de saxofone e trombone de vara. com um apetite sonoro descomunal, cobria estilos que iam do bebop à vanguarda, mas adorava aplicar o virtuosismo dos seus sopros a material mais básico: a música soul de Stevie Wonder e Marvin Caye, o rhythm & blues, os standards tradicionais de Cole Porter e George Gershwin, os novos standards de Bacharach e dos Beatles e os clássicos do jazz de Duke Ellington, Charles Mingus e John Coltrane, aos quais acrescentou composições próprias, como The Inflated Tear No Tonic Pres.

Mesmo privado da visão, Roland Kirk tinha outros sentidos para apreender as mudanças culturais e sociais dos anos 1960, e aderiu ao Jazz de protesto, um som “engajado” em política e religião, na linha de Coltrane, Pharoah Sanders e Albert Ayler. No início dos anos 70 liderou o Jazz and People’s Movement, tentando abrir espaço para a música negra, interrompendo inúmeras gravações de shows de tevê e rádio para denunciar que os estúdios não contratavam músicos negros. Viajou pelo mundo com sua banda, a Vibration Society, até sofrer um primeiro derrame, em 1975, que paralisou seu lado direito.

Batalhador como sempre, Rahsaan não se entregou e conseguiu reeducar seu corpo para tocar apenas com a mão esquerda, reiniciando suas turnês, até sofrer um segundo derrame, fatal, em 1977. Tinha apenas 41 anos, mas deixou uma rica contribuição, imortalizada em dezenas de álbuns. Um dos segredos de Roland Kirk era sua capacidade respiratória. Como salientou o crítico Robert Palmer: “A técnica de respiração circular que Kirk usa – suas bochechas expiram e inspiram e ele circula o ar regularmente para dentro e para fora do nariz e dos seus saxofones, produzindo um som contínuo sem ter de pausar para respirar – era razoável e amplamente conhecida por jazzistas mais antigos, mas ele colocou a técnica a serviço da arte. Bechet, Bird, Bud, Billie – Kirk sempre demonstrou notável apego às raízes do jazz negro e grande orgulho por seu legado cultural. A última coisa que fez antes de morrer foi fundar a Vibration School of Music, para ensinar a saxofonistas o que ele chamava de “música clássica negra, termo que preferia ao jazz”.

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