Bombons suculentos e absurdos

A pressa e a proximidade com o fim fizeram com que Frank Zappa organizasse seu testamento musical com uma coletânea abrangente e inovadora

Para ser lido ao som de The Lost Episodes, de Frank Zappa 

Reprodução

Se não teve uma vida convencional, era óbvio que o testamento musical de Frank Zappa deveria fugir do lugar-comum. Ameaçado por um câncer de próstata e sabendo que o tempo conspirava contra, Zappa fez dos seus últimos dois anos de vida um dos períodos mais prolíficos que um compositor pode ter.

O resultado mais abrangente  completo desta fase é The Lost Episodes, compilação coordenada pelo próprio Zappa e que vai de 1958 (época em que Zappa nem gravava profissionalmente e apenas fazia experimentos no Studio Z) até 1972, com rápidas passagens em Jazz from Hell, de 1992.

Autoexilado no Utility Muffin Research Kitchen – seu último estúdio montado no sótão de sua casa em Hollywood Hills – Zappa traçou The Lost Episodes nas horas vagas das gravações de The Yellow Shark e Ahead of Their Time (ambos lançados em 1993, ano que Zappa morreu) e Civilization Phaze III (lançado postumamente em 1994).

Os arquivos de Zappa são um rastreamento de todas as fases e vertentes do inventor greco-americano. Abrindo com o blues primal no estilo Robert Johnson – na pioneira The Blackouts, quando Zappa liderava um grupo de mesmo nome – e indo até às grandes orquestrações, como emMount St. Mary Concert Excert, influência dos ensinamentos de Igor Stravinsky e Edgard Varese. Zappa passa também pelo épico minimalista de Run Home Slow Theme, pelo free jazz de Take Your Clothes Off When You Dance, pelo rock escatológico de Tiger Roach e pelo rockabilly de Run Home Cues.

O disco, escreveu o crítico Josef Woodward, em março de 1996, é um tesouro de relíquias de Frank Zappa, principalmente a partir dos anos 60 e 70. “São como bombons suculentos e absurdos.” The Lost Episodes é ainda a prova de que os 18 incessantes meses de sua feitura foram um dos raros casos em que a pressa foi amiga da perfeição.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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