Que criança é essa, Charlie Brown?

Daniel Rodrigues* estreia na AmaJazz recordando um clássico natalino, o disco que o pianista Vince Guaraldi fez inspirado nos desenhos da turma do Snoopy

Para ser lido ao som de Vince Guaraldi Trio em The Charlie Brown Christmas Songs

No Natal, quando eu ainda era criança, um dos desenhos que não me cansava de rever era o filme de Natal de uma das séries que mais me encantava: a turma do Snoopy. Era Feliz Natal, Charlie Brown. Além de adorar a série – desde lá, já gostava dos personagens, do traço simples e expressivo do cartunista Charles Schulz, da coloração pastel da fotografia, dos longos diálogos, do ritmo narrativo e todo aquele universo da turma do Minduim –, um dos elementos que mais me atraíam era a trilha sonora. Aquilo me arrebatava, embora fosse enigmático para uma criança como eu.

O responsável por me fazer gostar assim, ainda pequeno, de um estilo de música que ainda nem sabia que se chamava jazz é Vince Guaraldi. Pianista, maestro e compositor, dono de um estilo de tocar e de compor de rara sensibilidade, ele é o autor de todas as trilhas dos Peanuts desde a estreia da série na CBS, em 1964.

Oriundo da cena jazz da Costa Oeste, o “Dr. Funk”, como era apelidado, ostentava um bigode pontiagudo tão caricato quanto o de um HQ. Dizia-se, modestamente, ser um mero “reformado pianista de boogie-woogie”, porém, mais que isso, dominava o cool, o jazz contemporâneo, o soul e o latin jazz, tornando-se influência para nomes como George Winston, Dave Brubeck, Wynton Marsalis e Ellis Marsalis.

A Charlie Brown Christimas, de Vince Guaraldi Trio, de 1965, é o primeiro disco (além das coletâneas e homenagens póstumas) dos três que produziu para a série ao longo de aproximadamente 10 anos, até sua morte prematura em 1976, aos 47 anos, vítima de um ataque cardíaco.

O disco é, assim como os desenhos do cachorrinho Snoopy, apaixonante. A beleza começa na faixa inicial: O Tannenbaum. A banda, composta por Guaraldi, Jerry Granelli, na bateria, e Fred Marshall, no baixo acústico – a clássica e charmosa formação em trio do jazz –, toca esta canção tradicional germânica de Natal datada do século 19. Claro, num clima jazz-erudito ao modo de Gershwin. Nela, o piano de Guaraldi desliza uma melodia suave e mágica, dando o tom que dominará o que vem a seguir. What Child is This?, outra adaptação do cancioneiro folk, este, da Inglaterra romanesca, vem numa arrojada versão em que os três passeiam com elegância pela melodia, situando-a entre o lúdico e o misterioso. O clima se mantém em My Little Drum, composição do próprio Guaraldi, na qual o arranjo se vale, pela primeira, do coral infantil, único tipo de voz usado em todo o disco, o qual mantém, nesta, um vocalise constante enquanto o piano desenha acordes que aludem a O Tannenbaum.

Quebrando o clima introspectivo – equilíbrio que, aliás, é característico das próprias histórias do seriado –, vem a clássica Linus & Lucy, a mais conhecida canção da série, curiosamente mais marcante do que os temas dos personagens principais, Snoopy e seu dono, o garotinho Charlie Brown. Guaraldi, como bom admirador de Herbie Hancock e Thelonious Monk, colore a melodia com uma linha de piano swingada e moderna. A tocante Christmas Time Is Here (que conta também com uma igualmente bela versão cantada pelo coral infantil), melancólica e sonhadora como o personagem Charlie Brown, traz um trio inspirado. Guaraldi, delicado e preciso no dedilhar, moderando intensidades, volumes, ataques e sustenidos; Granelli, raspando a escovinha sobre a caixa, atacando-a levemente para marcar o tempo; e Marshall, no baixo, passeando pelas escalas com liberdade e firmeza.

Skating mais uma vez levanta o astral, musicando a brincadeira de esqui no gelo praticada pelos personagens no episódio. Bluesy e cheia de swing, tem na bateria um dos destaques, seja na parte que Granelli esfrega as escovinhas ou na mais agitada, em que dá intensidade à música. O riff, fantasioso, traduz em sons a complexidade/simplicidade do ato de brincar para o mundo da criança. O espírito natalino retorna com a versão da cantata de Charles Wesley, adaptada por Felix Mendelssohn em 1840, Hark! The Herald Angels Sing, apenas com coral e órgão.

Na bossa-nova Christmas Is Coming, Guaraldi homenageia dois de seus ídolos, Tom Jobim e Luis Bonfá, e, de novo, seu toque remete aos mestres Hancock e Monk e ainda Ahmad Jamal, Red Garland e Sonny Clark pelo fraseado de mão esquerda solto e inteligente. Ele faz o mesmo em The Christmas Song, solando por cerca de 1 minuto e 45 segundos (dos 3 minutos e 20 de toda a faixa), criando um jazz lírico e de cadência arrastada.

Em Für Elise, de Beethoven, escrita no início do século 19, dá a impressão de que Guaraldi cede lugar ao piano para o menino Schröeder, o alemãozinho superdotado e amante do compositor da Nona, personagem dos Peanuts. O tema de What Child Is This? é retomado com seu nome original no folclore inglês, Greensleeves. A trilha finaliza com a saltitante Thanksgiving Theme, não sem antes executar a minha preferida de todos os temas inventados por Guaraldi para os personagens de Snoopy: Great Pumpkin Waltz. Usada em outro episódio da série, o da Grande Abóbora, é um tema que conta, além do trio, com a guitarra de John Gray e a flauta de Tom Harrell. A melhor tradução do universo lúdico, enigmático e fantástico do seriado, que não se abstinha de mostrar as aflições, emoções, incertezas, amores e fragilidades das crianças. Pois a vida não é assim, repleta dessas belezas?

Não se transmite mais Snoopy e Cia. na tevê brasileira há muito tempo, quanto menos o episódio de Natal. Mas a chama se manteve acesa em pessoas da minha geração, que cresceram com a magia dos Peanuts no coração. E mais do que isso: conhecemos jazz e aprendemos a gostar o estilo desde cedo por causa da série. Depois, adultos, bastou apenas refinarmos o gosto musical. E a grande responsável por essa magia é a música de Guaraldi, que, ainda hoje, me faz voltar no tempo e lançar a mim mesmo a pergunta: “que criança é essa?”.


*Daniel Rodrigues é jornalista, produz e apresenta o programa Música da Cabeça na Rádio Elétrica. É autor do livro Anarquia na Passarela, pelo qual recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura 2013 na categoria Ensaio e Humanidades

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.