Abaixo a ditadura

Juarez Fonseca recupera entrevista de 1979 em que Sivuca fala sobre seu combate aos estrangeirismos e sua defesa da música popular brasileira universal

Para ser lido ao som de Sivuca (1969)
Sivuca em foto publicada na revista Billboard de novembro de 1972 (Foto: Sounds of David/Domínio público/Wikimedia Commons)
Sivuca em foto publicada na revista Billboard de novembro de 1972 (Foto: Sounds of David/Domínio público/Wikimedia Commons)

Desde que voltou ao Brasil, em 1975, Sivuca não tem feito outra coisa senão combater a ditadura da música estrangeira, utilizando para isso a arma mais forte de que dispõe: a música popular brasileira, vista través de um espírito aberto, universal, e de seus teclados: acordeon, piano, órgão, sintetizador. Seu trabalho não tem sido em vão, afinal vem lotando os teatros onde se apresenta, entre eles o Leopoldina, em Porto Alegre. Ele nasceu Severino Dias Oliveira há 49 anos, em Itabaiana, interior da Paraíba, e iniciou em 1946 a sua carreira profissional e, em 1958, resolveu trabalhar no Exterior – primeiro Europa, depois Estados Unidos. Nos 18 anos em que esteve fora, raras vezes voltou ao Brasil. Agora, ele está aqui para ficar, com o seu talento, criatividade e experiência. E também para falar, como nesta entrevista a Juarez Fonseca.

Mesmo depois de tanto tempo fora, você ainda é uma figura familiar a muita gente. Não como compositor mas como sanfoneiro, músico acompanhante…
Exato. Mas eu divido a minha vida artística em duas fases, antes e depois do Exterior. A primeira foi quando eu comecei, em 1945, lá no Recife, até 1958 quando saí do Brasil. Foi um período bom, cheio de sucesso, mas também de altos e baixos, tanto pela minha falta de estrutura e de senso de organização, como também – cá entre nós – por causa de um pouco de boemia. Como diz o carioca, eu deixei a peteca cair naquela época e a coisa ficou ruim, agravada pela falta de infraestrutura do País.

Ao voltar, você notou alguma diferença na infraestrutura do showbusiness brasileiro?
Notei. Quando saí do Brasil, o músico não tinha acesso ao teatro, precisava se contentar com estação de rádio ou vida noturna, boates, essas coisas. Agora, na minha volta, já encontrei as portas bem mais abertas, quer dizer, ainda sofremos falta de teatros, mas entre sofrer carência pela própria infraestrutura e não ter acesso, a diferença é grande, e por isso mesmo eu acho que o pessoal já começou a se organizar. Sinto mais forte o senso de profissionalismo na classe dos músicos e cantores, de maneira geral. Antigamente, a gente fazia tudo na base da improvisação, eram poucos os artistas que saíam viajando com seu próprio sistema de som, por exemplo. Hoje já é quase comum o artista fazer excursão pelo Brasil com luz e sistema de som próprios, o que é muito bom.

Você sempre foi compositor?
Sempre, mas nunca levei isso muito a sério. Antes de tudo fui um intérprete, tocando as músicas de todo mundo, até pela timidez natural que nós, músicos, temos, principalmente no Brasil. Eu tinha vergonha de mostrar as minhas músicas pras outras pessoas e tudo o que eu fazia ficava no esquecimento. Quer ver um exemplo? João e Maria, essa parceria minha com Chico Buarque: a melodia eu fiz em 1947! Mostrei-a para o Chico que fez essa letra maravilhosa.

Nesse esquema de músicas feitas-há-não-sei-quanto-tempo, quartas você tem?
Ah, bastante… O Paulinho Tapajós tá botando letra numas três ou quatro, todas antigas. Afora a minha participação no gênero choro, não é? Você sabe que na época em que eu comecei a tocar, o que caracterizava um bom músico, no Nordeste, era saber tocar bem um choro. Daí uma das razões de minha não-participação no cenário musical como compositor. Mas, ultimamente, como estou me organizando em todos os aspectos, peguei minhas músicas e inclusive escrevi todas, estão prontas para entrar no consumo a qualquer momento.

Depois desse tempo todo, como você vê o fato de estar se transformando atualmente em personagem de cena principal, lotando teatros, fazendo sucesso, enfim podendo levar seu próprio trabalho, sem ressentimento, seu coração para o público?
Eu vejo isso de uma maneira muito boa e sinto que finalmente estou sendo reconhecido. Estou sempre querendo aprender, estou sempre ouvindo, porque entendo que arte é nada mais, nada menos, do que troca de ideias entre as pessoas que trabalham, afinal ninguém faz nada sozinho. Bem, o fato de meu trabalho ser reconhecido hoje é uma compensação que chegou, chegou numa hora em que eu estava preparado para receber, e aceito com muito carinho e naturalidade. Como eu disse antes, o que nos falta é estrutura para receber o impacto de um sucesso assim, como foi o meu caso nos anos 50, quando me tornei imediatamente conhecido em todo o Brasil sem estar preparado para isso: foi tudo muito bom, muito fácil, mas por várias razões deixei passar a grande oportunidade. As coisas chegam na hora certa e vêm agora para mim, um homem de quase 50 anos, num momento em que estou preparado e ainda tenho muito a dar para o público, que precisa nos ver mais. Eu também devo seguir a linha pela qual venho me batendo radicalmente, que é executar, e nesse caso radicalmente, a música popular brasileira.

Críticos cariocas escreveram que neste show você está fazendo “música popular brasileira universal”, porque tem no palco uma liberdade de execução que não é própria do músico brasileiro médio.
Esse talvez seja o único fruto que colhi nos 18 anos que passei fora. Aprendi a me organizar dentro de um trabalho que tem um fundo musical intensamente brasileiro, mas que tem, vamos dizer assim, a parte internacional no negócio, que é minha presença no palco, olhando e fazendo as coisas de maneira a demonstrar uma experiência daquilo que aprendi no Exterior, de pegar os ingredientes e botá-los nos lugares certos. Mas acho que, para se fazer um bom show, não é preciso lançar mão de artifícios. Uma iluminação sóbria, um bom roteiro e um bom repertório, em seus devidos lugares, são o suficiente para se manter uma plateia contente por uma noitada. Minha proposição é essa.

Quando esteve aqui, recentemente, Baby Consuelo comentou que toda uma geração jovem, principalmente na período mais ou menos entre 1965 e 1975, perdeu o contato com a música brasileira feita antes dessa época – o chorinho, por exemplo – e com manifestações musicais mais, digamos, elaboradas, porque os músicos não tocavam, as gravadoras não lançavam…
Gravadoras brasileiras… Nós temos isso?

Já vamos chegar a essa questão. O fato é que a agora juventude já tem um pouco dessas opções, como o próprio trabalho que você faz, o da Baby e de outros grupos…
Felizmente, tem muita gente se conscientizando de que a nossa música tem raízes e é feita no continente sul-americano, não no norte-americano. Por conseguinte, acho que há um caminho a seguir. Tivemos um Pixinguinha e não foi em vão, porque ele foi, sem dúvida, um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Claro que não vamos regredir no tempo e tocar exatamente como ele tocava, mas pegar uma direção do Pixinguinha e adaptá-la aos nossos tempos é a coisa mais necessária que se tem a fazer. Inclusive usando instrumentos eletrônicos, não importa, porque a minha música brasileira é sem rótulos. Só tem um: “Música de origem afroeuropeia que teve lugar num país que se chama Brasil”.

Instrumentos eletrônicos?
O que representa a música é o homem. Eu posso pegar um sintetizador e tocar forró, xaxado, choro ou frevo, não importa. É disso que os críticos do Rio de Janeiro falam, aliás, com bastante carinho: a universalização da minha música, ou seja, da nossa música. Não podemos é criar barreiras, dizermos que só temos que tocar música brasileira de bandolim, dois violões, cavaquinho e flauta. Não: temos que ter os bandolins, os violões, as flautas e cavaquinhos, mas afora isso temos que adaptar a música ao processo universal. Não podemos fugir de uma guitarra, de um baixo elétrico, não podemos fugir de muita coisa. É preciso pegar esses instrumentos e sabermos que, com eles, podemos tocar também a música brasileira.

Você costuma dizer que nossa música só será tocada no exterior quando for tocada bastante no interior. Li entrevistas em que você resume com bastante propriedade esses temas, por exemplo, a invasão “natural” da música estrangeira no Brasil.
É o seguinte: geralmente, nos países onde a música popular local existe, é preservada e divulgada naturalmente, há muito cuidado. Na Suécia, por exemplo, que tem uma música popular bem pouco conhecida por aqui, você liga o rádio e ouve a produção local 24 horas por dia e há programas especializados em música internacional. No Brasil é o contrário, escutamos música internacional o dia todo e temos alguns programas especializados em música brasileira. O que é um contrassenso. Existe no Rio de Janeiro uma emissora chamada Rádio Nacional, que toca – e é considerado um ato de heroísmo – só música brasileira. Eu acho que deveria ser obrigação de todas as emissoras tocarem pelo menos 60% de música brasileira, sem fechar as portas para a música estrangeira, pois se a gente fecha a porta quebra a comunicação. Outra coisa que acho é que nós, além de tocarmos música estrangeira, não discriminamos: tocamos todos os bagulhos que vêm do Exterior. Alguns diretores de rádio, com quem falei, põem a culpa nas gravadoras, dizem que não tocam música brasileira porque elas não mandam. Ora, então alguém tem que parar a programação e dizer: “Lamentamos não poder tocar música brasileira, porque as gravadoras não nos fornecem discos”.

Então, chegou a vez de eu falar das multinacionais… Somos o quarto ou quinto mercado de discos do mundo e só quem vende discos mesmo é Roberto Carlos. Ora, alguma coisa está errada. Por que o artista local não tem acesso a esse mercado? Porque estamos sendo explorados, indevidamente, pelas multinacionais. Você acha que a culpa está só com as gravadoras?
Não, não só com elas. Está também no descaso que as autoridades veem essa coisa acontecendo, e fazem vistas-grossas.

E o papel dos programadores de rádio?
Naturalmente, eles também têm a sua parcela de culpa, pois os programadores que só tocam música estrangeira são como jogadores de futebol que só fazem gol contra. Eu acho que deveria ter um órgão que disciplinasse as programações das gravadoras. Elas deveriam ter um pouco mais de respeito e carinho com o artista brasileiro.

Um dos argumentos que muita gente usa é o de que a música brasileira “não dá ibope”, que o público não quer ouvir, só quer o sucesso fácil…
Mas é claro que o público não vai querer, porque não ouve outra coisa a não ser música estrangeira. Ele vai, é levado… Se o público brasileiro tivesse música brasileira 24 horas por dia, como o norte-americano tem música de lá, garanto que ele não iria querer só ouvir música estrangeira. A lavagem de cérebros foi tão grande que a juventude de hoje ouve música estrangeira como se fosse local, o que provoca uma desinformação total a respeito de nossa cultura. Se tivéssemos melhores informações, se os meios de comunicação olhassem com mais carinho para isso, talvez não tivéssemos chegando a esse ponto. Do jeito que a coisa vai, falar português dentro do Brasil vai ser pejorativo daqui a alguns anos. As multinacionais não estão interessadas em transmitir cultura para nós, e prova disso são as músicas que lançam aqui. Para elas, a despesa de produzir discos no Brasil é muito maior do que mandar a fita pronta de qualquer jeito e lançar aqui para ser consumida por um público desavisado que sempre comprou gato por lebre em todos os setores, tanto no setor musical como no farmacológico e muitos outros. Temos o mau hábito de pensar que as coisas estrangeiras são melhores. Penso que devemos intensificar a divulgação da música brasileira dentro do País. Ary Barroso já dizia: “Para ser internacional, música tem que ser bem nacional”. Quando o estrangeiro procura a nossa música, não quer a mistificada, mas a autêntica, a que nasceu aqui.

Mesmo assim, me parece que algumas coisas já estão melhorando, e prova disso é o modo como começamos esta entrevista.
Está começando a soprar um ventinho de esperança, a coisa tem melhorado, já está havendo consciência da gravidade do problema. A própria sociedade de arrecadação de direitos já sente na pele a bobagem que estamos fazendo em relação à música estrangeira, que também envolve criação, então tem que pagar direito de autor no Exterior. É um negócio afeito inclusive ao Ministério da Fazenda, que faz força contra a importação mas deixa a produção de fora tomar conta do mercado. Na hora de pegar os direitos autorais, três ou quatro compositores brasileiros recebem uma bolada grande, enquanto o resto tem que ser economizado pra poder pagar as coisas estrangeiras tocadas aqui. Por conseguinte, até do ponto-de-vista econômico, seria salutar se a música brasileira ganhasse terreno em nosso mercado interno.

Mudando de saco pra mala: Hermeto Pascoal. Sei que a pergunta é indefectível, mas vocês se encontraram pela primeira vez em Recife, não foi? Você vindo da Paraíba e ele de Alagoas…
Exatamente, o ponto de encontro foi Recife, pra ser preciso, na Rua do Imperador, em frente à Rádio Jornal do Comercio…

Você pensou que ele fosse você e ele pensou que você fosse ele…
Foi mais ou menos isso… só que ele é bem mais novo do que eu. Quando o Hermeto encontrou comigo, ele ainda era um menino de calças curtas e eu já um homem de 21, 22 anos. Mas chegaram o Hermeto e o irmão dele, Zé Neto, albinos como eu. Nessa época Hermeto tocava sanfona, e Zé Neto também, éramos três sanfoneiros. Inclusive pensamos imediatamente em formar um grupo que se chamaria O Mundo Pegando Fogo, mas ficou só na ideia, não se concretizou. (risos)

Mesmo diferentes, o seu trabalho e o de Hermeto se aproximam em muitos pontos.
Ah, sim, temos a mesma raiz, viemos da mesma cultura. O Hermeto e eu somos meio irmãos, de vez em quando a gente se junta: “O que cê tá fazendo, meu irmão?”. Então tocamos a noite toda, sem parar. Mas ele tem a sua maneira de trabalhar e eu tenho a minha, infelizmente não podemos nos juntar num palco. Para que isso aconteça, é preciso que haja, de parte a parte, uma espécie de concessão, como dois irmãos para poderem conviver. O Hermeto gosta de tocar à vontade, e o à vontade dele é demais. Talvez por diferença de idade, ou temperamento, não sei, o meu negócio é um pouco mais organizado, quer dizer, eu penso no temo. Eu penso que uma plateia sentada no teatro, por melhor que seja a música, depois de três horas, começa a ficar cansada. E o Hermeto, quando chega pra tocar, não toma conhecimento se tem ou não tem gente, o ele quer é tocar e acabou. Ele vive a música 24 horas por dia. Já eu tomo um pouquinho de tempo, às vezes, para respirar. Do ponto de vista musical, sou um pouquinho preguiçoso e o Hermeto não, ele é uma loucura, não fala de outra coisa e quando a gente chega pra conversar qualquer assunto, não dá, tem que ser música e música…

Nesses dois anos desde a sua volta para o Brasil, já deu pra ver como anda a música brasileira?
Nós temos uma bandeira, por enquanto, o Chico Buarque, que sustentou uma barra violentíssima. Do ponto de vista da música brasileira urbana, e também da autenticidade, ninguém fez mais do que ele. Agora, eu acho que a música brasileira vai se sustentar porque vem mais gente aí, uma juventude que está se conscientizando. Do Rio de Janeiro, por exemplo, já tive contato com várias pessoas, gente nova, e no Nordeste a reação é a mesma. A coisa chegou a um ponto em que eu estive na cidade de Souza, no interior da Paraíba, e em vez de encontrar violeiros, bandas de pífanos, aquelas coisas lindas, encontrei gente com o carro ligado e fita cassete de música estrangeira. Para eles, tocar Frenéticas já era careta porque elas cantam em português. A música popular brasileira chegou perto da derrocada, mas não vai deixar de existir. Eu acho que ela caminha paralelamente à situação econômica de cada país. Estamos passando por uma fase muito difícil, do ponto de vista econômico, político e social, e a música não foge à regra. O Brasil está vivendo aquela parte do Credo que diz: “Foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos”. Mas ele está ressurgindo e, por conseguinte, a música brasileira vai acompanhar o progresso social – porque ao industrial eu tenho restrições, desde que ele começou a arranhar a ecologia e também a nossa cultura popular. Estão fazendo verdadeiras chacinas nesse sentido, mas tudo bem, vamos segurar a barra e a música brasileira terá um lugar digno no cenário internacional, se Deus quiser!

(Entrevista cedida pelo autor e publicada em Zero Hora em 10 de junho de 1979)

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