As teclas abertas da América Latina

Gonzalo Rubalcaba estrutura seu trabalho de tal forma que se tem a impressão de que tudo faz parte de uma imensa suíte, unindo tendências musicais que se praticam em distintos lugares do continente

Para ser lido ao som de Gonzalo Rubalcaba em Besame Mucho
Gonzalo Rubalcaba em ação no parque do Ibirapuera, em São Paulo, na semana passada (Foto: Norberto Flach)
Gonzalo Rubalcaba em ação no parque do Ibirapuera, em São Paulo, na semana passada (Foto: Norberto Flach)

Dedos ágeis, uma poderosa mão esquerda – talvez a mais forte desde Art Tatum e Bud Powell – e ideias jorrando em profusão sobre o teclado do piano. Dizzy Gillespie disse que ele era um dos melhores pianista que havia escutado nos últimos anos. Herbie Hancock brincou que adoraria “quebrar as suas mãos”. E quem lhe ouve pinçando notas e acordes no piano pode compreender tudo o que se fala dele. Nome de primeira linha do moderno jazz cubano, Gonzalo Rubalcaba é também um profundo conhecedor da música feita abaixo do Caribe, além de sempre ter demonstrado uma grande proximidade com a música brasileira.

O pianista Gonzalo Rubalcaba, 55 anos, que se apresentou no último fim de semana em São Paulo, ao lado do conterrâneo Chucho Valdés, é um músico com pleno domínio de seu instrumento e de seu repertório. Seu trabalho é estruturado de tal forma que se tem a impressão de que tudo faz parte de uma imensa suíte, unindo tendências musicais que se praticam em distintos lugares da América – algumas vezes com o nome de balada, de mambo ou de rumba, em outros de bachata (como no caso da República Dominicana e bolero (como em Cuba).

Neste mojito musical feito por Rubalcaba ainda sobra espaço para a bossa nova de Tom Jobim (de quem já se declarou fã e lhe prestou homenagem no Tributo a Tom Jobim, no Free Jazz Festival de 1993), para o samba-canção de Antonio Maria (como na versão cool de Ninguém me Ama), para as experimentações estilísticas de Herbie Hancock e Chick Corea (dois revolucionários do moderno piano do jazz) e também para a imensa herança musical de Cuba, que vai dos pioneiros Beny Moré e Matamoros, passa pelo erudito Leo Brouwer, pelos reis do mambo Machito e Mongo Santamaria, pelos vanguardistas Juan Formell e Chucho Valdés e deságua nos expatriados Arturo Sandoval e Paquito D’Rivera.

Essas influências, Rubalcaba já traz no código genético, afinal é neto do trombonista e compositor Don Jacobo Rubalcaba e filho de Guillermo Rubalcaba, pianista e diretor musical da Charanga Típica Nacional. O conhecimento da música afro-cubana somado a horas de estudo de piano fez com que Rubalcaba, com apenas 23 anos, fosse a principal atração do Festival de Jazz de Havana, em 1986. O contrabaixista Charlie Haden – presente ao local à frente da Liberation Music Orchestra – ficou encantado com a técnica musical de Rubalcaba tornando-se parceiro nos dois primeiros discos do pianista: The Blessing Discovery.

Nos últimos anos, desde 2010, Rubalcaba é sócio da 5Passion Records, gravadora que não apenas lançou seus trabalhos mais recentes – Fe(2011), XXI Century (2012), Live Faith (2014) e Charlie (2016) – mas também álbuns de artistas como Yosvany Terry, John Daversa e Ignacio Berroa, José Armando Gola, Will Vinson, Seamus Blake e Volcan.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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