Jazz cheio de bossa

Cristiano Bastos estreia na AmaJazz com uma entrevista feita com Sergio Mendes à beira da piscina do Copacabana Palace em 2008

Para ser lido ao som de Sergio Mendes & Bossa Rio em Você Ainda Não Ouviu Nada!

image (9)Começo de noite no Copacabana Palace, Rio de Janeiro. Quando Sergio Mendes desce para conceder a entrevista, pontualmente às 18h, os hóspedes do hotel ainda aproveitam a piscina do restaurante Pérgula. O pianista chega com os cabelos impecavelmente penteados para trás, úmidos do banho. Veste a combinação camisa branca e jeans. O perfume é uma fragrância masculina cítrica. Mendes trocou o Rio por Los Angeles há muito tempo. Em 1961, estreou com o Sexteto Bossa Rio, com o qual gravou o disco Dance Moderno, antes de se mudar para os Estados Unidos em 1964, onde produziu dois álbuns. Lá também começou o grupo Sérgio Mendes & Brazil ’66, sucesso mundial com a versão deMas que Nada, de Jorge Ben.

Relaxado no hall do Copacabana Palace, o homem que tocou na Casa Branca para os presidentes Lyndon Johnson e Richard Nixon e ganhou o Grammy de melhor álbum de World Music faz um pedido simples: água com gás e pedras de gelo. Há quatro décadas, o disco Herb Alpert Presents Sergio Mendes & Brazil 66 vendeu milhões de cópias conquistando o mundo. Mendes, que, conforme suas palavras, teve a “sorte” de ter tocado ao lado de astros mundiais da música, como Burt Bacharach, Fred Astaire e Frank Sinatra, nunca perdeu a brasilidade e tampouco a fé na música brasileira. “O Brasil é uma usina de novas energias!”.

Quando começou desconfiava que seria assim?
Sergio Mendes –
 No início da carreira a gente nem pensa. É difícil prever o que vai acontecer – sempre é o elemento surpresa. O mais importante, nesse tempo todo, e até hoje, sempre foi a curiosidade, a vontade de fazer coisas diferentes e de trabalhar com músicos e cantores de várias partes do mundo. A disponibilidade de aprender e de trocar ideias musicais com outras pessoas sempre foi um traço de minha personalidade. No Brasil, tive vários grupos e acompanhei muitos cantores e cantoras. Fiz bailes em Niterói e toquei em boates do Rio. Foram experiências muito importantes para minha carreira internacional.

Qual o momento mais marcante do seu início nos Estados Unidos?
Sergio Mendes –
 Quando cheguei, em 1962, fui ao Birdland escutar o saxofonista Cannonball Adderley, meu ídolo. Cannonball me convidou para tocar com ele e eu, nervosíssimo, aceitei. No dia seguinte, me chamou para fazer um disco. A partir daí outros encontros aconteceram: Herb Alpert, Frank Sinatra, Fred Astaire. Há quatro anos, will.i.am aparece em minha casa com meus discos, dizendo-se fã e que adorava minha música. É sempre renovador conhecer novos músicos e ter essa troca. Sempre me surpreendo quando Beck e bandas como Metallica, por exemplo, vem me dizer influenciados pelo “Sergio Mendes Sound”.

Você foi um dos responsáveis pela popularização da música brasileira no mundo. Dá pra explicar a atração exercida pela musicalidade do Brasil?
Sergio Mendes –
 É uma atração do mundo, não só dos Estados Unidos. O encontro de Stan Getz com Tom Jobim, Astrud e João Gilberto foi um momento único da nossa música. O interesse sempre existiu e continuou. O fenômeno Brasil 66 foi um caso disso. A atração aconteceu justamente por conta da originalidade, da sensualidade e, especialmente, pela força das grandes melodias que as canções têm.

Jorge Mautner escreveu, na edição “pirata” da revista Rolling Stone brasileira, em 1972, que Roberto Carlos foi o “primeiro ídolo pop pan-americano”, pois transitava por Cuba, México e países sul-americanos. Concorda, visto que, à época, você também alcançava sucesso internacional?
Sergio Mendes –
 Concordo plenamente com o Jorge Mautner – ele está certíssimo: Roberto Carlos é um artista da maior importância não só no Brasil, mas no mundo.

Como Herb Alpert ajudou em sua carreira?
Sergio Mendes –
 Ele foi muito importante. O Brasil 66 começou na sua gravadora, a A & M Records, que muita gente pensava ser Alpert & Mendes. Infelizmente não era verdade [risos]. Alpert me convidou para fazer parte do cast da gravadora, produziu meu primeiro disco e acabou casando com uma das minhas cantoras, Lannie Hall. É uma amizade de mais de 40 anos.

Ainda lembra a sensação de tocar no concerto da bossa nova no Carnegie Hall, em 1962?
Sergio Mendes –
 Foi uma experiência maravilhosa. Na época, eu tinha o grupo Bossa Rio. A ideia de chegar aos Estados Unidos, pela primeira vez, e tocar no Carnegie Hall. Era o sonho que se concretizava. Toquei com Tom Jobim e João Gilberto e depois conheci Stan Getz e Dizzy Gillespie. No dia seguinte fui ao Birdland conhecer Cannonball Adderley.

Qual a melhor recordação que guarda de sua carreira?
Sergio Mendes –
 Fiz duas turnês com Frank Sinatra: uma em 1968, outra em 1980. Rodamos o mundo todo e ficamos muito amigos. Eu abri os espetáculos de Sinatra com o meu grupo. Também trabalhei com Fred Astaire. Astaire dançou The Look of Love na entrega do Oscar de melhor canção, em 1968. Não levou o prêmio, mas só vê-lo dançar enquanto tocávamos foi incrível. São esses percursos maravilhosos que tive a sorte de ter.

(Entrevista cedida pelo autor e publicada originalmente na na revista franco-brasileira Magazine Brazuca, em 2008)

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