O grande grito

Roberto Muggiati explica como, com o sopro vital que adquiriu para escapar às sequelas da poliomielite, Sanborn transformou o sax em sua voz única, pessoal e intransferível

Para ser lido ao som de David Sanborn em Straight to the Heart
Foto: Facebook @davidsanbornofficial
Foto: Facebook @davidsanbornofficial

Um dos mais representativos saxofonistas da fusion – a fusão do jazz com o rock – David William Sanborn nasceu em Tampa, na Flórida, em 1945. Ainda na infância, por problemas respiratórios decorrentes da poliomielite, David passou uma longa temporada atrelado a um pulmão artificial. A escolha da música e dos instrumento foi meramente casual: seu médico recomendou-lhe que se exercitasse num saxofone como terapia física. Sanborn não só superou a doença mas se tornou também um dos mais requisitados saxofonistas, tocando na área pop (Linda Ronstadt, Burt Bacharach), do rock (Rolling Stones, David Bowie, Paul Simon) e do jazz (Miles Davis, Gil Evans). Com Gil Evans – o grande orquestrador das gravações épicas de Miles Davis – participou de álbuns históricos, um deles todo dedicado à música de Jimi Hendrix. Diz Evans: “Sanborn tem a técnica, mas também um som emocional, ‘o grande grito’”. Com o sopro vital que adquiriu para escapar às sequelas da poliomielite, Sanborn arranca um grito primal do saxofone, sua voz única, pessoal e instransferível: “Eu toco o instrumento por suas qualidades vocais. Saio em busca da melodia e procuro explorar todas as possibilidades do sax – seu calor de madeira e sua mordacidade metálica – por motivos artísticos, em vez de aderir a considerações estilísticas e a um certo padrão de interpretação”.

Poucos conhecem os poderes terapêuticos do saxofone. É curioso lembrar que o inventor do instrumento, o belga Adolphe Sax (1814-1894), patenteou outros inventos além de uma quantidade de instrumentos musicais. Em 1867, ganhou um prêmio na Exposição Universal por seu aparelho vaporizador de alcatrão, destinado a aliviar as doenças do peito e das vias respiratórias, a combater as febres e epidemias e a purificar o ambiente de hospitais, açougues e matadouros. Sax aplicou este conceito a outro invento, um híbrido: o saxofone-inalador-higiênico, graças ao qual os saxofonistas de brônquios frágeis podiam purificar os pulmões e ao mesmo praticar o instrumento. Nos últimos vinte anos, em Marselha, na França, num dos raros centros médicos do mundo especializados em coma, existem enferemeiros-saxofonistas que recuperam pacientes comatosos usando as notas mágicas do sax para, através da memória sonora, resgatá-los do mundo vegetativo em que estão aprisionados.

 

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