falaJazz | Joyce Moreno

“A música vai me levando, e eu vou indo atrás”

MÁRCIO PINHEIRO

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Joyce: sucesso no Exterior (Foto: Divulgação)

Joyce Moreno é uma das inspirações da AmaJazz. Uma das minhas grandes admirações musicais, Joyce, artista múltipla e cantora sensível, é autora de pelo menos dois clássicos que eu levaria para qualquer ilha deserta (“Mistérios” e “Revendo Amigos”). É ainda um dos maiores exemplos de sucesso brasileiro que atravessa fronteiras. E ela é a primeira reconhecer isso. “No Exterior conquistei algo que jamais consegui no Brasil: liberdade. Lá tenho completa autonomia sobre o meu trabalho”, me disse numa entrevista há pouco mais de uma década.

Em tempos globalizados, sua música transita por vários estilos e propostas sem abandonar a matriz nacional e até lhe rende histórias pitorescas e engraçadas. Uma delas: “Samba do Joyce”, composição incluída no disco “Joyce & Banda Maluca” foi feita quando ela esteve em Dublin pela primeira vez, em 2001, para uma série de shows no Vicar’s Street, um dos templos do jazz da terra natal de James Joyce. Passeando pela cidade, ela viu um cartaz na fachada de um pub com os dizeres “Songs of Joyce” (“Canções de Joyce”) e se espantou por não ser aquele o local com o qual ela havia assinado o contrato. Depois de se dar conta do engano, Joyce (a cantora) resolveu homenagear Joyce (o escritor) partindo da premissa de que James Joyce teria sido infinitamente mais feliz se, em vez de se mandar para Trieste, Zurique ou Paris, tivesse vindo para o Brasil, num périplo modernista que começaria em Lisboa (onde tomaria cerveja com Fernando Pessoa) e se completaria com encontros com o pessoal da Semana de Arte Moderna e também com Noel Rosa, Lamartine Babo e uns bambas da Lapa.

Cultuada no Exterior e infelizmente pouco ouvida em seu próprio território, a cantora, compositora e instrumentista – que neste ano completa cinco décadas de carreira – trata sua situação profissional atual como se fosse uma simples relação trabalhista, como alguém que se levanta todo dia para ir ao escritório – só que o escritório fica do outro lado do Atlântico.

E é essa familiaridade com músicos, festivais e clubes (americanos, europeus e japoneses) um dos eixos dessa curta conversa que tivemos. Fala aí, Joyce:

O que tem de jazz na tua música?
Basicamente, a liberdade e a improvisação.

Violão e bateria, você e Tutty. Isso é jazz? O jeito de você tocar ao lado dele tem muito de improviso?
Quando a gente se conheceu, há 41 anos, ambos sentimos que iríamos nos completar musicalmente. Nós dois somos improvisadores, então quem vem tocar com a gente já sabe que às vezes é trapézio sem rede mesmo. Claro que eu sempre preparo um guia, um mapa, para a coisa não virar qualquer nota. Eu organizo a parte harmônica, e os grooves eu e Tutty construímos juntos. Mas a partir daí, cada um se expressa como quiser. Meu violão segura a onda, para que a bateria dele e a minha voz (e outros ocasionais solistas) possam voar. Temos trabalhado sempre com músicos excepcionais, o que só faz a música crescer. Agora, se isso é jazz, não sei. Se for, é um jazz brasileiro. Mas o pessoal deve achar que sim, pois a gente trabalha muito nesse universo de clubes e festivais de jazz pelo mundo. E interagimos direto com jazzistas do mundo todo.

Algum jazzista em especial te influencia? E te emociona?
Gosto dos de sempre, Mingus, Miles, Monk, Coltrane, isso pra mim foi música de formação. Bill Evans adoro! No Brasil, Hermeto, Léa Freire, Guinga (isso é jazz? E o que é jazz?). E me emociono sempre com Shirley Horn.

Me fale de alguma passagem jazzística que tenha te tocado: um show, um músico, um teatro, um clube de jazz, uma cidade…
Não vou saber por onde começar… São muitos anos interagindo nesse universo. Posso citar o trabalho que fiz com Claus Ogerman em 1977 – foi uma experiência incrível ver como ele trabalhava, e como respeitava nossa criação original. Uma cidade que adorei, e que tem uma cena de jazz muito pulsante, é Trömso, na Noruega – um dos lugares mais lindos onde a música me levou, e que eu certamente não teria conhecido de outra forma (é o lugar da aurora boreal, pertinho do Polo Norte). A primeira vez no Japão, em 1985, também não posso esquecer, pois foi o começo de uma relação estável, que dura até hoje. Teatros, tenho tocado em muitos incríveis, e o mais lindo de todos foi a Ópera de Praga, onde fiz um concerto solo. Também recentemente me marcou a experiência na Berklee School of Music, em 2015, quando fui artista residente e vi aqueles músicos jovens todos tocando a minha música lindamente, no concerto deles de final de ano.
Enfim, a música vai me levando, e eu vou indo atrás. Tenho tido muita sorte.

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Joyce e seus colegas: mandando ver nos workshops na Summer Session Clinic em Vrå, na Dinamarca. Ela ao violão, ao lado, meio escondido, o trompetista e vocalista norueguês Per Jørgensen; no contrabaixo um dos fundadores do Weather Report, o tcheco Miroslav Vitous; e na bateria, Jeff “Tain” Watts
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Na sequência da foto de cima: o flautista e saxofonista Yusef Lateef (na época com 87 anos e que viria a morrer cinco anos depois) e o percussionista Adam Rudolph

Como foi atuar como professora, da Summer Session Clinic em Vrå, na Dinamarca, com alunos músicos profissionais e como colegas como Jeff “Tain” Watts, Yusef Lateef e Miroslav Vitous?
Foi uma experiência muito interessante. Eu já tinha feito workshops na Dinamarca várias outras vezes, sempre em Copenhagen, e para alunos do Conservatório. Dessa vez foi para músicos profissionais, o que já trazia uma responsabilidade maior. E eu era única pessoa do Brasil ali, sem contar que era a única mulher, né… Além destes que você falou, havia ainda o organista americano Sam Yahel e o trompetista e vocalista norueguês Per Jorgensen. No começo houve um pequeno estranhamento – os dois europeus, Jorgensen e Miroslav (que é tcheco), foram superbacanas comigo desde o inicio. Mas com os americanos, era um clima meio esquisito, eu sendo brasileira e tal, acho que o pessoal não levava muita fé… Até que tocamos juntos no concerto dos professores. Daí para a frente, mudou tudo – “wow, respect!”, foi o que eu mais ouvi dali em diante…

 

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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