Sim, sou um negro de cor

Wilson Simonal fez a síntese de quase todas as vertentes musicais e foi quem mais se aproximou da figura do entertainer, o artista completo que canta, dança, conta piadas, faz imitações e se divide entre vários instrumentos

Para ser lido ao som de Wilson Simonal em Vou Deixar Cair
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons

Na faixa 11 de Show em Si…Monal – disco que registra ao vivo uma das centenas da apresentações de Wilson Simonal em 1967 – o artista entre conversas e brincadeiras com a plateia finge ler uma edição do Jornal da Tarde que lhe foi entregue por um marciano futurista. A edição é de 24 de junho de 2000 que – coincidentemente ou profeticamente – é a véspera do último dia de vida de Simonal. O dia lento e arrastado da segunda morte do cantor. A primeira foi 29 anos antes, em agosto de 1971, quando as denúncias de torturas sofridas pelo ex-contador de Simonal, colocaram o intérprete num furacão de boatos e intrigas encerrando com uma rapidez impressionante a carreira do maior cantor brasileiro de todos os tempos.

É, a afirmação de Miéle no documentário Ninguém Sabe o Duro que Dei não é fácil mas é possível de ser comprovada. Simonal foi o maior cantor brasileiro. E isso não é pouco num país que já formou João Gilberto e Roberto Carlos, Lucio Alves e Dick Farney, Orlando Silva e Silvio Caldas, Milton Nascimento e qualquer outro que você queira citar. Nos dez discos que gravou para a EMI-Odeon na década de 60, Simonal fez a síntese de quase todas as vertentes musicais brasileiras. Foi ainda o que mais se aproximou da figura do entertainer, o artista completo capaz de cantar, dançar, contar piadas, fazer imitações e se dividir entre vários instrumentos. No planeta, só havia um exemplo a ser imitado: Sammy Davis Jr.

Se mais não fez – além da maneira abrupta pela qual sua carreira foi encerrada – deve-se ao fato de Simonal não ter a exata noção de sua grandeza. O marrento e mascarado, que tinha um ego maior do que o Maracanãzinho, musicalmente deixava transparecer sua fragilidade, dedicando tempo e energia demais a brincadeiras e pilantragens como Meu Limão, Meu Limoeiro e Mamãe Passou Açúcar ni Mim. O verdadeiro Simonal, da voz poderosa, da divisão rítmica perfeita (ou de onde você pensa que Elis tirou os jogos vocais de Águas de Março?), do suingue imbatível, do acesso ao falsete e a um scat jazzístico de entortar se traduz melhor em outras interpretações, muitas delas pouco conhecidas. Exemplos: o Simonal bossanovista (de Sabe Você), o da dor-de-cotovelo (de Sozinha, de Lupicinio), o dos standards americanos (de The Shadow of Your Smile, num impecável dueto com Sarah Vaughan), o dos afrossambas (de Consolação ou então Nanã), o do sambalanço (em País Tropical) e até o Simonal engajado (de Tributo a Martin Luther King, composição de sua autoria lançada um ano antes da morte do líder do movimento negro americano). Vale lembrar ainda a toada moderna (de Sá Marina) e a pré-discotheque nativa com palmas derivada do gênero “a-go-go” de artistas “chicanos” como Chris Montez e Trini Lopez.

Depois de uma vida artística relativamente curta e de duas mortes, Simonal – no ano em que completaria 80 anos e que é homenageado com um filme que leva o seu nome – pode estar ganhando uma nova vida, que deixaria de lado os preconceitos, os folclores e as caricaturas. Assim, a obra genial de um artista inovador ficaria em destaque. Pois, paradoxalmente, o que impediu Simonal de ser considerado por muitos o maior cantor do país teria sido o excesso, não a falta. Como se fosse preciso jogar luz sobre o que estava visível – mas que ele viu antes – burilar, tirando de uma obra imensa tudo o que fosse supérfluo e deixando em destaque apenas o essencial – obtendo da simplicidade o máximo do refinamento.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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