Vou ser livre como livre vai correndo o Amazonas

João Donato demonstra sua sabedoria sonora e de como sua música traz aos ouvidos mais perguntas do que respostas

Para ser lido ao som de João Donato em Quem é Quem
Juarez Fonseca e Márcio Pinheiro entrevistam João Donato
Juarez Fonseca e eu entrevistando Donato em 2011, em Porto Alegre (Foto: Arquivo pessoal)

João Donato hoje completa 84 anos. Esta entrevista, uma das mais completas e abrangentes que já vi com ele, foi feita por mim e por Juarez Fonseca em maio de 2011 num bar na Cidade Baixa. Durante quase duas horas, Donato – acompanhado da mulher, a gaúcha Ivone Belém – lembrou histórias da infância no Acre, das primeiras inspirações musicais, do início no acordeão, das primeiras letras colocadas em suas músicas e, obviamente, falou muito de jazz, recordando a importância na sua carreira de nomes como Stan Kenton, Mongo Santamaría, Tito Puente, Machito e Perez Prado. A razão daquela vinda a Porto Alegre era um concerto de piano-solo no Theatro São Pedro. Artista de espírito gregário e constantemente aberto a parcerias – como podem comprovar as composições feitas ao lado de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila e Eumir Deodato entre tantos outros, inclusive numa rara obra conjunta com João Gilberto (Minha Saudade) –, João Donato provou na prática naquela fria noite de outono a grandeza de seu repertório.

Gênio desligado que conseguiu dar uma nova dimensão à carreira nos últimos anos, Donato demonstra nessa entrevista sua sabedoria sonora e de como sua música traz aos ouvidos mais perguntas do que respostas.

O que de Acre há dentro de você, já que saiu de lá com apenas 11 anos?
Tudo, tudo, toda a informação que tive parece gravada numa fita, são impressões muito fortes, não se apagam com o tempo. Não recordo bem o que acontecia entre os 20 e os 40 anos de idade, lembranças que somem um pouco. Mas a partir de seis, sete anos, até os 11, você grava muita coisa que não será esquecida. Lembro da primeira música que me tocou, vendo um cara passar numa canoa, na beira do rio, assobiando uma melodia. Fiquei ali, um pouco melancólico, e pensei: mas que coisa estranha. Era uma melancolia provocada por aquela melodiazinha. E a primeira composição foi para Nini, minha namoradinha, eu tinha sete e ela oito anos. Essas coisas a gente não esquece.

Tinha contato com a mata? Tinha parentes?

Sim, minhas lembranças têm a mata, o rio, os animais da floresta, os pássaros, isso tudo está em mim como uma espécie de centro de informações. Fecho os olhos e vejo aquela selva verde em volta, os banhos de rio, eu aprendendo a nadar com uma melancia na barriga, para flutuar. E ainda tenho muitos parentes lá, primos, tios, sobrinhos.

Mas ficou muito tempo sem visitar sua terra. Não te convidavam para se apresentar lá?
Depois que fui convidado pelo Jorge Vianna, quando ele era governador, passei a ir com mais frequência. Sempre achei estranho eu nunca ir ao Acre; o tempo passava e eu nunca ia, já tinha ido ao Japão várias vezes, Moscou, muitas cidades do mundo e brasileiras, e ao Acre não. Pensava: que coisa mais estranha, como é que não faço shows no Acre? Aí um dia o Jorge me convidou para inaugurar um centro de artes que fizeram lá e botaram o meu nome. Perguntei a ele: “Por que eu nunca vim ao Acre?”.  E ele: “Porque sou o primeiro acreano a governar o Acre, os outros eram de fora, não tinham o envolvimento que eu tenho com as pessoas da terra”. Contou que quando era pequeno seu pai lhe deu um disco meu e disse: “Esse camarada é acreano”. Isso o motivou a me convidar. Aí passei a ir diversas vezes.

Em um texto publicado pela revista Piauí você conta que desde cedo seu pai queria que você fosse músico. Começou por lhe dar um acordeom de brinquedo, depois deu um de verdade. Normalmente se espera que militares, como seu pai, sejam conservadores, e naquela época, anos 40, a música não tinha o charme que adquiriria mais tarde…

Era coisa de vagabundo, de boêmio, de ébrio, mais ou menos por aí. Mas meu pai gostava que eu fosse musical e me incentivava. Quando viemos do Acre para o Rio de Janeiro, em um navio que ia fazendo aquelas paradas nos portos, Fortaleza, Recife etc., ele me levava nas rádios para me fazerem entrevistas, queria mostrar meu talento precoce para os outros.

Por que o acordeom?
O acordeom andou muito em voga naquela época em todo o Brasil, tinha o Luiz Gonzaga, o Pedro Raimundo, aqueles métodos, todo mundo tocava. Era moda, como mais tarde seria tocar violão. Mas também tinha um piano na minha casa, lá no Acre, em que minha irmã estudava. Era três anos mais velha, e eu acordava de manhã cedo com ela fazendo aquelas pequenas peças. Quando ela deixava o piano eu ia para lá e ficava “perturbando”… Mas chamava a atenção dos meus pais porque não bagunçava, ia lá e procurava tirar uma melodia. Aí foram me dando corda.

Viramos a página. Lá pelos 15/16 anos, bom acordeonista, você fica sócio do Sinatra-Farney Fã Club, um dos, digamos, espermatozóides da bossa nova. Como foi isso?
Conheci Johnny Alf, um pouco mais velho, e ele que me falou de um lugar em que os jovens se reuniam para ouvir discos. Lá conheci Dick Farney e outras pessoas que gostavam do jazz. Um dia ouvi um disco do Stan Kenton e me perguntei “que negócio é esse, essa música tão boa?”. Cheguei em casa e não conseguia dormir com a impressão daquela sonoridade na cabeça. Na época não tínhamos como gravar um disco.

É por aí que você assume o piano?
É, tinha 15 anos, meu pai me levou numa loja de instrumentos e mandou escolher um piano. Depois o acordeom foi sumindo da minha vista. Ainda o levei pros Estados Unidos em 1959, quando fui encontrar os remanescentes do grupo da Carmen Miranda, o Banda da Lua. Mas não nos demos bem, não me adaptei a eles, tocavam Tico-Tico no Fubá e não sei que mais, e o que eu queria tocar essas músicas influenciadas pelo Tom Jobim. Fiquei sozinho, sem referências, procurando meu destino…

Que num primeiro momento foi a música latina…
Fui tocar com as orquestras latinas, que era onde os músicos de jazz também achavam ocupação na época. Quando toquei com Mongo Santamaria ele me mostrou vários discos de música de candomblé, que tem em Cuba e é igualzinho ao brasileiro, parece que você está na Bahia. São iguais, os mesmos cantos e ritmos que vieram da África. Até aí não era novidade para mim. O que eu não sabia era o estilo de tocar, não conhecia a tradição musical de Cuba. Disse a Mongo que eu não sabia tocar aquele estilo e ele respondeu que eu era o pianista e que com o tempo iria me acostumar. Também toquei com a orquestra de Johnny Martinez, que me aconselhava a ouvir discos de Tito Puente, Perez Prado, Machito, pra ver como os pianistas tocavam.

E a Califórnia foi ficando melhor quando começaram a chegar mais brasileiros, Airto Moreira, Dom Um Romão, Eumir Deodato, Oscar Castro Neves…
Claro, aí a bossa nova começou a chegar lá, depois daquele show no Carneggie Hall, em Nova York. A bossa começou a pegar e os músicos americanos ficaram felizes, porque o jazz não era muito popular nos Estados Unidos; na verdade em lugar nenhum do mundo. O jazz sempre foi um negócio que meia dúzia gosta, mas a maioria prefere outra coisa, e então os músicos de jazz gostaram da chegada da bossa nova porque ela permitia que eles improvisassem, e se tornassem populares. Você vê o Stan Getz, virou um…

Um popstar.
É, entrou nas paradas de sucesso, coisa que o jazz nunca conseguiu. O disco de jazz que chegava mais alto era em 100º lugar, por aí. Com a bossa, em termos de vendagem, eles conseguiram chegaram lá em cima.

Você se ressente de não ter ficado no Brasil na época da bossa nova?
Não. Mesmo já com um disco gravado (Chá Dançante, 1956), aqui eu estava tendo problemas para me adaptar aos trabalhos que havia. Os pianistas que tocavam nas boates tinham que acompanhar cantores populares, tocar um gênero de música que não me agradava, esse samba de telecoteco, sei lá o que, (batuca na mesa, ironizando) “o samba-tem-que-ter-telecoteco-não-sei-que-teco-teco”… Eu tinha dificuldade de me entrosar naqueles conjuntos, eles não gostavam de mim nem eu deles. Eu botava um acorde aqui, e já discordavam, tinha que ser sempre a mesma coisa. Até que um dia resolvi procurar um lugar na América. Pensei que iria encontrar o jazz, mas não, encontrei foi uma moda de música latina, cha-cha-cha e tal. Eram famosas as mambo nigths no Palladium, de Nova York, freqüentadas por artistas de cinema.

Você ficou decepcionado?
No início fiquei um pouco, “ué, pensei que aqui era a terra do jazz”… É o mesmo que acontece aqui no Brasil. O cara vem de fora pensando “vou chegar na terra da bossa nova e do samba”, e chega aqui não tem bossa nova, nem samba, tem um rock e outros tipos de músicas populares tocando no rádio o tempo todo.

Como você conheceu Caetano e Gil, que seriam dois de seus primeiros parceiros?
Inicialmente conheci pelos discos que a turma da Varig levava. Quem tinha um disco daqueles telefonava pro outro: “Olha, recebi uns discos aqui em casa, vem ouvir”. Era assim, uma reunião de brasileiros para ouvir discos novos. Tinha Gil, tinha Gal, tinha Caetano, Bethânia, Chico, Edu, Milton. Enfim, tomei conhecimento deles lá, em gravações, eram novos pra mim. Em 1973, pouco depois da volta ao Brasil, fui convidado para fazer a direção musical do show da Gal Costa, Cantar, e aí conheci os outros baianos – eles andam em grupo né?, você encontra um baiano e tem três ou quatro (risos). Conheci a turma toda, o que resultou em letra pra cá, letra pra lá. Gil fez um monte de letras pra mim, Caetano fez outras tantas…

Suas primeiras músicas com letras não são dessa época? Você considera que as letras ajudaram a torná-lo mais conhecido?
Até voltar ao Brasil eu só fazia música instrumental. Na verdade, havia uma única letra perdida, Minha Saudade, que João Gilberto fez em 1950. Mas quando fui gravar meu disco depois da volta (Quem é Quem, 1973), o Agostinho dos Santos me aconselhou a colocar letras. Aí tive letras de Paulo César Pinheiro, Marcos Valle, meu irmão Lysias Ênio. Eram letras para músicas que já existiam, assim como nas parcerias com Caetano e Gil. Só assim passei a ser considerado um autor, antes não tinha a ideia de que a letra, digamos assim, fosse um bom negócio. Porque com a letra você consegue ficar popular.

As letras representariam um “antes e depois” em sua carreira?
Acho que sim, pois apareceram canções que o povo começou a cantar, como Simples CarinhoA PazLugar ComumNaquela EstaçãoNasci para Bailar

Nasci para Bailar… Essa música, parceria com Paulo André Barata, tocou muito no rádio, gravada por Nara Leão. Dizem que tem uma história curiosa.
É de uma época em que a gente andava meio sem grana, e o Paulo André disse assim: “Tenho uma ideia. Vamos lá na editora. Tu não fala nada, deixa que eu falo”. Chegamos na Polygram e o cara nos saudou: “Vocês dois por aqui, que maravilha, vem coisa por aí”. E o Paulo André: “É, temos quatro músicas e queremos um adiantamento”. E o camarada: “Mostrem pra gente então, tem um violão e um gravador aqui”. Paulo André: “Não, agora não dá, temos um compromisso, só queremos um adiantamento das quatro músicas”. E o cara: “Mas então me dá pelo menos os títulos”. Diz o Paulo André: “Nasci para bailar. Outra: Pra que negar. Outra: Quando saio do trabalho. Outra: Quero sambar”. (risos) Isso é uma estrofe de um samba de carnaval (canta): “Nasci para bailar/ Prá que negar/ Quando saio do trabalho/ Quero sambar”. O camarada nos deu o adiantamento, saímos contentes da vida, cantando “nasci para bailar” no meio da rua e surgiu a música, com essa euforia do adiantamento sobre o nada.

E as outras três?
Nunca saíram (risos). Mas essa deu um bom resultado, virou nome do disco da Nara Leão, fez sucesso.

Então as letras, de certa forma, tiraram você do “gueto” instrumental. E depois de abrir a porta você tem parceiros por todos os lados, Adriana Calcanhotto, Martinho da Vila, Marcelo D2, Fernanda Takai entre os mais recentes. Como surge uma parceria? E como você se dá com os jovens?
A música instrumental é meio underground, quase não aparece. E os parceiros são mesmo muitos, mas como surge uma parceria é meio inexplicável. A de Bananeira, por exemplo, surgiu uma noite na casa da Gal, os baianos todos lá, e o Gil começa a brincar com o som que eu tocava. Ou então alguém traz uma letra de casa, como foi o caso de Caetano com A Rã. A música originalmente se chamava O Sapo, e ele veio com rã, porque seria cantada por Gal. Tenho feito muitas músicas novas com a Joyce, também. Gosto dessa variação, compor com pessoas de diferentes destinos. Música não tem idade. Sou muito procurado pelos jovens, que me convidam pra tocar e gravar com eles, Marcelo D2, Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Mariana Aidar… Devem achar em mim alguma coisa que interessa a eles. E vou com eles, como vou para os veteranos.

Neste ano você tem circulado pelo Brasil só com o piano…
Eu nunca tinha usado esse estilo de apresentação. A vantagem dos shows sem acompanhamento é que posso tocar peças que de outra forma não tocaria. Umas valsas minhas, trechos de Debussy e Ravel… Tenho o sonho de gravar um disco com esses arranjos de Ravel e Debussy com orquestra, mas adaptados por mim. Até já falei com Jaques Morelenbaum para colaborar e ele achou maravilhoso. Tenho as partituras deles lá e estou tentando adaptar, trazê-las mais pro lado de cá, o lado popular, que possa botar uma bateria, uma tumbadora, um contrabaixo.

E os Estados Unidos?

Voltei pouquíssimas vezes. E já se passaram 40 anos. Mas quando encontro por aí alguns músicas mais novos eles dizem que me conhecem. O pessoal da Diana Krall, por exemplo, veio me cumprimentar; o baterista, Hamilton, me cumprimentou e disse: ao conhecer você tenho a emoção que tive quando conheci Dizzy…

Ao contrário da maioria dos artistas, que começa a se repetir quando atinge um certo estágio, você parece estar sempre no auge da carreira, como mostram os discos.
Não é bem assim, nos shows tenho que repetir algumas músicas, se não o público fica dizendo “pô, o cara não tocou A Paz, ou não tocou A Rã, não tocou Bananeira”… Daí eu tenho que dar uma chegada lá; mas sempre jogo alguma coisa nova.

Tem uma música favorita?
Acho que é A Rã. Ou Lugar Comum, que fiz lembrando aquele assobio da canoa…

(Entrevista publicada na revista Aplauso em julho de 2011)

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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