Billie & Louis

Eduardo Osório Rodrigues avalia como Billie Holiday e Louis Armstrong foram, acima de tudo, exemplos de superação e transformaram uma deformação vocal em poderosa virtude

Para ser lido ao som de Billie Holiday em Lady Sings the BluesLouis Armstrong em The Great Summit

Vozes marcantes precisam ter algumas qualidades. Afinação, primeiramente. Potência e técnica. Se forem versáteis, capazes de transitar, com a mesma competência, por regiões graves, médias e agudas tanto melhor.

Numa arte de extremos, cujo arco pode ir da voz fina, de timbre quase infantil, de Blossom Dearie, ao baixo profundo de Melvin Franklin, dos Temptations, fiquemos com as excepcionais – aquelas que transmitem emoção e expressividade –, mesmo sendo fora do padrão, como as de Billie Holiday e Louis Arsmstrong, duas vozes singulares na história da música de qualquer gênero, estilo, época ou lugar.

Billie e Louis injetaram uma aspereza sem igual no jazz, mas puseram um pouco de bossa no negócio, vestindo as músicas com a fantasia certa. Às vezes, elas soam incompreensíveis. Que importa? É um prazer puramente sensorial. Basta ouvi-las para percebermos o quanto aqueles grunhidos podem ser agradáveis e belos, ainda que estranhos.

A extensão vocal de Billie era limitada. O timbre, cortante como um punhal. E mesmo com tessitura vocal restrita, ela obtinha o máximo efeito com o mínimo esforço. Em Strange Fruit, canção-protesto de 1939, cuspiu versos lancinantes na cara da América racista. Mas também flexionou, como poucas de sua geração, sílabas que formavam palavras de extrema doçura e apelo romântico.

Ouça a interpretação discreta e elegante da cantora em Autumn in New York e April in Paris, dois standards que reinventa a seu modo, arrastando a voz, mastigando as palavras. Temperadas pela promessa de um novo amor, as letras exaltam a estação de clima ameno e o mês em que a paisagem se transforma nessas metrópoles, mas o tom é agridoce, típico de cantoras que dão profundidade emocional às canções.

As gravações que fez para a Columbia (1933-1944 /1958) e para a Decca (1944-1950) são históricas. Mas o período que passou na Verve, do visionário Norman Granz, entre 1945 e 1959, foi extraordinário. Acompanhada por ótimos músicos, Billie enfileirou uma série de grandes discos, como Music For TorchingLady Sings The Blues e Songs For Distingué Lovers. Juntos, eles formam a trilha sonora de uma época ruidosa, agitada e excitante.

Em 2015, ano do centenário de Lady Day, a Columbia deu um mimo para os fãs. Reeditou o clássico Lady in Satin (1958. Melancólico mas bonito, o disco foi inflado de versões que induzem os fracos ao salto no escuro. Ouça I’m a Fool To Want You e sinta o desespero batendo à porta. Last Recordings, o canto de cisne da cantora, saiu pela MGM/Verve no ano de sua morte.

Se a dor aguça a criatividade para abortá-la, Billie faltou a esta aula. E durou até demais. Com sorriso melancólico e resignada amargura, foi louca, irreverente e transgressora até o fim. O álcool destruiu seu fígado e as drogas deformaram sua personalidade. Junkie enquanto teve veias e mucosas intocadas para oferecer às agulhas, Billie antecipou a partida. Aos 44 anos, despediu-se da música, dos amores e das seringas, mas deixou notável testamento para a posteridade.

Louis Armstrong era solar. No canto do trompetista, até as sílabas saíam com suingue. Sua voz sugere um barril rolando numa rua de pedras, na feliz definição de seu melhor biógrafo, Terry Teachout. Única metáfora capaz de explicar o canto desse artista. Em I’m Just A Lucky So And So, o trompete silencia e a voz surge, rouca e escura, dos pântanos da garganta.

Ouça sua obra com atenção e prazer, mas evite canções como What a Wonderful WorldMack The Knife Hello, Dolly! – a música que desbancou os Beatles das paradas norte-americanas em 1964. Seu equipamento vocal atinge a plenitude nas gravações com Ella Fitzerald, com o trio do pianista Oscar Peterson e nas homenagens que fez a Fats Waller e W. C. Handy, autor de St. Louis Bluescomposta em 1914.

A voz de Louis lustra com verniz melodias menos conhecidas. O timbre rouco e grave, o canto rude e vigoroso, também estão presentes no álbum I’ve Got The World On A String, gravado com orquestra, e em The Great Summit, que marca o encontro do trompetista com o pianista Duke Ellington, outra lenda do Jazz. Esse disco traz algumas das melhores interpretações do cantor. SolitudeI Got It Bad (And That Ain’t Good) e Azalea têm lugar garantido em qualquer antologia das grandes vozes do século 20.

Billie Holiday e Louis Armstrong foram, acima de tudo, exemplos de superação. Transformaram uma deformação vocal em poderosa virtude. Se, na arte, suas vozes eram sujas e granuladas, na vida apresentavam modulações diferentes. Em Billie, a voz foi o grito da alma que sofre. Em Louis, o rosnado jubiloso da alegria de viver.

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