Colosso do saxofone

Sonny Rollins é o último sobrevivente de uma geração que surgiu à sombra do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e que modificou os rumos do jazz a partir dos anos 50

Para ser lido ao som de Sonny Rollins em Without a Song – The 9/11 Concert
Foto: Tom Beetz/CC BY 2.0/Wikimedia Commons
Foto: Tom Beetz/CC BY 2.0/Wikimedia Commons

Sonny Rollins ainda estava sob o impacto da tragédia quando subiu ao palco na noite de 15 de setembro de 2001 para apresentar o show Without a Song – The 9/11 Concert no Berklee Performance Center de Boston. As Torres Gêmeas faziam parte da paisagem urbana do músico. Ele morava no 40º andar de um edifício a apenas seis quarteirões do World Trade Center. Sonny Rollins foi um dos milhares de nova-iorquinos que, logo após a tragédia, teve o prédio interditado e precisou deixar a casa. O saxofonista decidiu enfrentar o estado de choque em que se encontrava partindo para Boston – “Exatamente a cidade onde embarcaram os sequestradores dos aviões, e onde muitos passageiros/ vítimas viviam”, como explica o jornalista Bob Blumenthal no encarte do disco.

No palco, Sonny Rollins estava à frente de um grupo que incluía seu sobrinho Clifton Anderson, no trombone, o pianista Stephen Scott, o baixista Bob Cranshaw, o baterista Perry Wilson e o percussionista Kimati Dinizulu. São cinco faixas – todas longas, a menor tem 11 minutos de duração –, que misturam standards da canção norte-americana (A Nightingale Sang in Berkeley SquareWhy Was I Born?Without a Song e Where or When) com uma composição de autoria do saxofonista, Global Warming.
Na época da gravação, Sonny Rollins declarou que algumas pessoas o aconselharam a não se apresentar. Ele preferiu não aceitar o conselho e insistiu em fazer o concerto. “Precisamos manter a música viva”, disse.

Aos 87 anos – na época do concerto ele havia completado 71 quatro dias antes do atentado –, Sonny Rollins é o último sobrevivente de uma geração que surgiu à sombra do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e que modificou os rumos do jazz a partir dos anos 50. Ao lado de Miles Davis, John Coltrane, Clifford Brown, Don Cherry e Charles Mingus, Rollins esteve à frente de todas as revoluções musicais acontecidas no jazz nas últimas seis décadas.

Desde que surgiu, tocando nos bares nova-iorquinos, Rollins equilibrou-se entre a tradição e a vanguarda. Era um músico que reverenciava os saxofonistas dos anos 30, principalmente o mestre Coleman Hawkins, mas que também estava com os ouvidos abertos para as novas tendências. Foi um dos primeiros a aproximar o jazz dos ritmos latinos e ainda ajudou a revelar músicos africanos e orientais.

Antes dos 30 anos, já estava na história do jazz, apresentando um currículo que incluía cinco LPs gravados em pouco mais de um ano – entre maio de 1956 e novembro de 1957. ComTenor MadnessSaxophone Colossus (Prestige), Way out West (Contemporary), Newk’s Time e os dois volumes de Night at the Village Vanguard (Blue Note), Rollins se firmou como um dos mais originais improvisadores do jazz e ainda antecipou elementos do free jazz.

Inexplicavelmente, quando estava no auge, partiu para um misterioso retiro. Não saiu de Nova York – cidade onde nasceu, cresceu e sempre morou – mas afastou-se dos shows e das gravações. Quando queria tocar, ia para a ponte Williamsburg e ficava lá, envolvido com longos solos de saxofone. Da mesma forma que saiu de cena – sem alarde – voltou à música, compondo e gravando de maneira ainda mais intensa.

Atravessou os anos 70 e 80 fazendo shows por todo o mundo. No Brasil, esteve por duas vezes, na primeira edição do Free Jazz em 1985 e no segundo semestre de 2008. Chegou ao novo milênio ainda na ativa, preocupado não apenas com as ideias sonoras mas também com outros temas como ecologia, globalização e a vida nas grandes cidades. O ataque terrorista contra Nova York, deixou Rollins impactado mas não deixou que ele perdesse a capacidade de se indignar e de protestar.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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