Sim, eu posso

Ao fazer de tudo para mostrar que podia tudo, Sammy Davis Jr. transformou-se num talento disperso, de difícil catalogação e subestimado para aqueles que cobravam dedicação exclusiva a pelo menos uma das suas múltiplas atividades

Para ser lido ao som de Yes I Can – The Sammy Davis Jr. Story
Ilustração: Daniel Kondo
Ilustração: Daniel Kondo

Não por acaso Yes I Can foi o nome escolhido para batizar a caixa de quatro CDs que mapeia as mais de seis décadas de carreira musical de Sammy Davis Jr. É o mesmo nome da biografia lançada por ele há mais de 50 anos. É também o nome de uma das faixas (a sétima do disco 3) da coletânea. Mas é sobretudo a profissão de fé de um artista que passou toda a vida provando que podia alcançar qualquer coisa a que se dispusesse. Pioneiro da afirmação negra, líder na luta pelos direitos raciais, Sammy Davis Jr. foi também o primeiro artista negro a ter uma dimensão nacional no showbiz norte-americano, abrindo caminho para uma infinidade de talentos, de Stevie Wonder a Michael Jackson, de Richard Pryor a Eddie Murphy, de Lena Horne a Oprah Winfrey, de Miles Davis (nenhum parentesco) a Wynton Marsalis, de Bill Cosby a Gregory Hines. Não por acaso também quase todos esses artistas estiveram no Madison Square Garden em fevereiro de 1990 para homenagear Sammy Davis Jr. pelos 60 anos de carreira (sim, 60 anos de carreira em 64 anos de vida). Estavam lá não só os que deviam boa arte de suas trajetórias a Sammy Davis Jr., mas também parceiros de outras jornadas (Frank Sinatra e Dean Martin), astros do esporte (Mike Tyson e Magic Johnson) e até uma seguidora filha de uma das primeiras pessoas com quem Sammy dividiu o palco (Liza Minnelli, filha de Judy Garland). Na época, Sammy já estava debilitado pelo câncer na garganta que viria a matá-lo três meses depois. Não podia mais cantar, falava com dificuldade e subiu ao palco apenas para agradecer a presença dos amigos e para fazer um derradeiro espetáculo de sapateado ao lado do discípulo Gregory Hines – que no final da performance se ajoelhou e lhe beijou os pés.

Yes I Can – The Sammy Davis Jr. Story, a caixa, é a mais completa e abrangente coletânea já feita em homenagem a Sammy Davis Jr. Lançada pelo selo Rhino em parceria com a Warner Archives, com produção executiva de Altovise Gore Davis (terceira e última mulher de Sammy), a caixa traz mais de cinco horas de músicas, divididas em 91 faixas. O período é relativamente curto se comparado com a extensa carreira dele, englobando 29 anos que vão de 1949 a 1978 e que são extraídas de seus mais de 50 discos. Estão lá registro importantes de Sammy Davis Jr. feitos para as principais gravadoras para as quais trabalhou – a Decca e a Reprise – e também para selos onde teve curtas passagens como a Capitol, a Verve, a United Artists e a MGM. A lista de parceiros um who’s who do showbiz americano do século passado, desde Frank Sinatra, Count Basie, Carmen McRae e o guitarrista brasileiro Laurindo de Almeida (com quem Sammy fez um disco em conjunto) até os arranjadores responsáveis em dar a característica refinada do som do cantor, incluindo a de Sy Oliver, Marty Paich, Quincy Jones, Billy May, Claus Ogerman, Don Costa e Nelson Riddle.

Sammy se destacou em uma época em que os concorrentes eram Sinatra, Mel Torme, Nat King Cole, Bing Crosby, Billy Eckstine, Tony Bennett, Johnny Hartman, enfileirando hits como Hey ThereWhat Kind of Fool Am I?The Birth of the BluesThat Old Black Magic e a semi autobiográfica Mr Bojangles. Fez sucesso ainda com trilhas para seriado de TV (Keep you Eye on the Sparrow, em Baretta) e até em brincadeiras sonoras como Candy Man, do filme a fantastica fabrica de chocolate.

A onipotência da frase preferida de Sammy Davis Jr. acabou prejudicando uma avaliação melhor de sua trajetória. Ao fazer de tudo para mostrar que podia tudo, Sammy Davis Jr. transformou-se num talento disperso, de difícil catalogação e subestimado para aqueles que cobravam dedicação exclusiva a pelo menos uma das suas múltiplas atividades. Gênio precoce que aos quatro anos (nasceu no Harlem, em dezembro de 1925) já acompanhava o pai no Will Mastin Trio em espetáculos de vaudeville, apresentando-se em hotéis e casas noturnas que não podia frequentar, Sammy Davis Jr. foi cantor, ator, dançarino, imitador, one man show, musico (tocava trompete, bateria, piano e guitarra) e interpretava todos esses papéis com uma sofreguidão de quem necessitava provar a si mesmo e aos outros) que podia tudo.

Brincava com as vicissitudes próprias – afinal era negro num pais racista, feio (tinha uma boca de caixa registradora) numa sociedade que valoriza a beleza, baixinho (tinha apenas 1m59cm) numa terra de gigantes – e dissimulava as amarguras, como o fato de ter sido hostilizado por soldados brancos quando servia na II Guerra e ter o nariz quebrado, ou quando perdeu a visão de um olho num acidente automobilístico em que era culpado. No período de internação surpreendeu a todos ao se converter ao judaísmo – justificaria dizendo que buscava a paz a tranquilidade através da religião – mas continuaria sabendo rir da própria desgraça, ao se apresentar de tapa olho e dizer que o novo visual o deixava parecido com um pirata. Gostava de provocar ao desfilar ao lado de lindas mulheres como a atriz Kim Novak, mas sabia que estava provocando a ira de brancos e negros ao se casar com uma loura, a também atriz May Britt, mas aí a decepção viria dos próprios amigos: depois de fazer shows que ajudaram na campanha presidencial de John Kennedy, receberia um aviso de que não seria de bom tom comparecer a festa de posse na Casa Branca acompanhado pela mulher. Vingou-se da desfeita de forma equivocada, atingindo não a Kennedy (que já estava morto na época), mas aos diversos amigos democratas que nunca entenderam seu apoio a Richard Nixon no final dos anos 60 e a Reagan nos anos 80. Nunca rompeu com Sinatra, com quem convivia desde a década de 40 e com quem formaria o rat pack (o clube dos cafajestes que reunia ainda Dean Martin e Peter Lawford), mas se afastou dele durante os anos 60, quando passou a ter problemas com drogas e com dívidas. Recuperaria o prestigio musical no final de 1968, com o lançamento de I’ve Gotta be me e voltaria a viver na roda viva de arrecadações fantásticas e gastos mais fantásticos ainda. Sempre foi perdulário, torrando tudo o que ganhava em rolls royces, rolex, além de cavalos de corrida, roupas de grife e imóveis em Beverly Hills, Las Vegas e Nova York.

Tentou se explicar na biografia lançada em 1965 e também na versão revista e ampliada publicada um ano antes de morrer (Why Me?), mas nunca teve clareza do imenso papel que desempenhava na cultura e na sociedade norte-americana. Personalidade controversa e multifacetada, Sammy Davis Jr. também não pode ser compreendido pelo repertório extenso e variado selecionado na caixa, o que só confirma o seu ecletismo e sua capacidade de transitar com igual destreza tanto na releitura de standards da canção americana, quanto na formatação jazzística que emprestava a maior parte de suas intepretações. O completo libreto com 98 páginas, repleto de belíssimas fotos, boa parte retirada do arquivo de 5 mil fotos de Milton H. Greene, o fotografo oficial de Sammy Davis Jr., traz dois textos que ajudam a decifrar o enigma. Um de Arthur Levy, outro de Gerald Early. Levy é judeu, Early é negro. Há ainda o relato do inglês Leslie Bricuse, que lembra da primeira vez que ouviu Ele, da primeira vez que viu Ele, da primeira vez que esteve com Ele e diz que Ele, Sammy Davis Jr., é exatamente aquilo que Liza Minnelli falou dele: Sammy foi tudo aquilo que todos nos aspiramos ser um dia. Early reconhece em seu hipster hero a figura imersa em agudas contradições, mas que se firmou como a mais completa tradução do homem negro norte americano. Talvez só Muhammad Ali e Martin Luther King possam rivalizar com ele. E o que Sammy Davis Jr. ensinou a gerações e gerações tinha uma base, o também sapateador Bill “Bojangles” Robinson, que morreu na miséria, destruído pelo alcoolismo, e a que Sammy homenagearia em Mr. Bojangles.

O que Sammy Davis Jr. deixou de herança artística ainda não foi suficientemente compreendido e obviamente náo foi sequer igualado. O que qualquer artista tenta, só Sammy Davis Jr podia alcançar.

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