Um rio que deságua em outros rios

Maria Lucia Rangel* estreia na AmaJazz recuperando uma entrevista feita há exatos 40 anos com Dom Salvador, o músico que saiu de Rio Claro para o Rio de Janeiro e de lá para o East River**

Para ser lido ao som de My Family, de Dom Salvador 
Ilustração: Moa Gutterres
Ilustração: Moa Gutterres

O lugar chama-se The River Café e o pianista brasileiro está estrategicamente colocado diante da enorme janela envidraçada que dá para o East River e logo adiante o Brooklin. O restaurante é novo e Dom Salvador foi convidado por tocar músicas brasileiras. Pelos seus dedos passam Tom Jobim, Francis Hime, Chico Buarque, amigos que não vê há seis anos, tempo que está radicado nos Estados Unidos. Sua música, com muito de jazz, já ganhou um LP americano, The Family, e ele se prepara agora para gravar o segundo.

Foi em São Paulo, onde nasceu, que a música de Salvador da Silva Filho começou a definir-se, apresentada na boite Lancaster, na época ponto de encontro de músicos de jazz. Dali para o Rio, vivendo o auge da bossa nova, foi um pulo. O encontro com o baterista Dom Um e o baixista Gusmão formou o Copa Trio. No Beco das Garrafas, então reduto de shows de bossa nova e jazz. Dom Salvador foi-se tornando conhecido, acompanhando inclusive a cantora Elis Regina em seu primeiro espetáculo carioca e, depois, o Quarteto em Cy e Jorge Ben. Em 1965, ainda no Beco, formou o Rio-65 Trio, com o baterista Edson Machado e o baixista Sergio Barroso. Em 1967, já em novo trio com seu nome, gravou alguns discos. Em vista da invasão de trios – era moda na época a formação com pianista, baixista e baterista – resolveu parar. “Começaram as viagens”, conta ele no seu jeito suave, parecido com a maneira de tocar. “Estive nos Estados Unidos três vezes antes de me decidir a ficar de vez. A primeira, formando um quarteto com Copinha, Sergio Barroso e Chico Batera. Toquei no Waldorf Astoria durante oito dias. Foi somente na terceira viagem, com Elza Soares, quando fomos também ao México, em temporada de dois meses, que o Cecil Mac Bee, baixista do sexteto de Paul Winter, me aconselhou a vir definitivamente”.

Duas sobrinhas já moravam em Nova York há bastante tempo e Dom Salvador aproveitou as férias da gravadora Odeon para viajar. “Havia muitos grupos gravando música brasileira e depois de mostrar alguma coisa, assinei contrato com a CBS para gravar um disco”.

Dom Salvador começou então a fazer uns bicos com alguns músicos, como Ron Carter, Buster Williams, Eddie Gomez e Marty Morell. Este dois últimos trabalhavam com Bill Evans. “Falava então um inglês de quebra-galho e até hoje estou quebrando o galho. Meus filhos cansam de me corrigir.”

Somente depois de dois anos, através de um contrato com a Teddy Bate’s Company para escrever jingles, Dom Salvador conseguiu o seu greencard. “Confesso que não posso me queixar de nada. É claro que não tenho nenhum disco estourando na praça, mas gravei The Family há dois anos e estou me preparando para um novo LP.

Além da música, Salvador concentra-se muito em sua família, a mulher Mariá, que cantou no conjunto Abolição, formado pelo marido em 1970 para interpretar uma música concorrente ao Festival da Canção desse ano, e aos dois filhos: “O conjunto Abolição era integrado por nove músicos e tocávamos um pouco de tudo, da música semi-clássica ao jazz”.

No ano passado chegou a participar do Newport Jazz Festival e quando Bill Evans foi internado às pressas, no final de 1972, o brasileiro o substituiu. “A penetração cada vez maior da música e brasileiros nos Estados Unidos faz parte de um trabalho de equipe, de brasileiros radicados aqui que cada vez mais vão se impondo, como Eumir Deodato, Airto Moreira e Flora Purim, Raulzinho, Moacir Santos, Sérgio Mendes, Oscar Castro Neves. Mas tivemos todos de começar do início”.

Como compositor, o trabalho de Dom Salvador é cada vez mais ativo. The Family é só de músicas suas. “Não gosto de compor e dar para americano gravar, porque eles têm uma outra concepção do que faço e sei que não ficarei satisfeito. Prefiro ser o primeiro a mostrar minhas músicas. Apesar disso, o Charles Rouse, saxofonista do Thelonious Monk, gravou alguma coisa”. (As músicas  Backwoods Echo (Sertão) e Waiting On The Corner, do disco  Cinnamon Flower, de 1977 – Nota do Editor)

Mas o contato com outros músicos é importante. Desde que se apresentou no Waldorf Astoria com Elza Soares, Dom Salvador fez amizade com vários deles, como Sonny Rollins, Elvin Jones, Ahmad Jamal, Charles Lloyd e Bill Evans. Hoje, um de seus maiores amigos é Harry Belafonte, com quem gravou e excursionou no ano passado e para quem faz todos os arranjos. “Noto mesmo, atualmente, uma mistura muito grande de música brasileira com a americana, até em discotecas”.

Sua vivência internacional é grande. Só na Europa, Dom Salvador visitou nove países, representando o Brasil ao lado de Edu Lobo, Rosinha de Valença e Rubens Bassini. “É claro que não tenho a intenção de ficar aqui a vida toda. Quero conseguir um bom tutu e curtir a vida no Brasil”.

Morando numa boa casa em Long Island, ele tem certeza de que não poderia ter aqui a vida que leva nos Estados Unidos. “Agora mesmo a Warner me chamou para gravar, já é uma segunda gravadora interessada na minha música. Isso é muito bom”.

O restaurante lotado vê baixar o tom de voz de seus frequentadores. Dom Salvador volta à teclas de seu piano e toca um chorinho, de sua autoria. Nos lábios, um de seus melhores sorrisos. “Só peço que os músicos brasileiros não se esqueçam de mim e me mandem seus discos. É importante para a continuação de meu trabalho aqui”.

* Maria Lucia Rangel é jornalista com passagens pelas redações da Última Hora, do Jornal do Brasil e da Rede Globo, onde foi repórter e editora de cultura. Trabalhou ainda no Jornal da Tarde, n’O Dia e na Folha de S. Paulo. Foi pesquisadora e editora dos cancioneiros de Vinicius de Moraes e Tom Jobim e do livro Mata Atlântica, de Tom Jobim. Organizou o livro Machado de Assis por Otto Lara Resende e escreveu – com Tino Freitas – o livro Aula de Samba. Filha do crítico musical Lucio Rangel, Maria Lucia é também conselheira da AmaJazz no Rio de Janeiro.

** Entrevista cedida pela autora e publicada originalmente no Jornal do Brasil de 12 de julho de 1978.

Leia também: O Salvador daqui | Dom Salvador em São Paulo

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