O velório de Hermeto Pascoal

Marcos Abreu* revira seus discos e se surpreende com um disco gravado há quase 50 anos pelo músico brasileiro à frente de uma orquestra americana

Para ser lido ao som de Hermeto
Ilustração: Daniel Kondo
Ilustração: Daniel Kondo

É um disco pouco conhecido, quase clandestino. O nome? Simplesmente Hermeto. A capa, na edição brasileira, é em preto e branco, apenas com o traço em alto contraste do rosto do artista. Resolvo reouvir o disco. Meu preferido sempre será Slaves Mass. Mas este disco foi gravado nos Estados Unidos, pouco depois de Hermeto lá ter chegado, chamado por Airto Moreira e Flora Purim. Pouco depois também de ter conhecido e gravado com Miles Davis. E este novo Hermeto que surgia estava consciente de que tão cedo não teria outra chance como aquela de gravar com esse instrumento tão raro: uma orquestra.

A gravadora, a pequena Cobblestone Records (fundada em 1968 e subsidiária da Buddah Records, que pertencia aos produtores Joe Fields e Don Schlitten) era pequena. Pequeno também era o orçamento para a produção – e esse, obviamente, explodiu. Situação resolvida segue-se o trabalho com uma orquestra de 35 músicos do primeiro time de Nova York, mais Ron Carter (contrabaixo), Airto Moreira (percussão) e o próprio Hermeto (piano elétrico e flautas). O resultado é Hermeto dando um banho de inventividade no uso da orquestra, jogando com os diversos naipes, cordas, madeiras e metais obtendo as mais diversas texturas sonoras, com duas ou três melodias diferentes entrelaçando-se com tremendo bom gosto. Como solista Hermeto mostra sua técnica e criatividade. O disco abre com a faixa Coalhada, com ataques que lembram Coltrane. Em seguida Hermeto, uma bossa nova, com cordas bem ao estilo Jobim. Hermeto brinca no piano, como que se divertisse com a própria música. Depois Alicate e As Marianas, com os naipes se contrapondo, tudo facilmente escutado pela técnica de mixagem da epoca, tudo muito separado nos canais esquerdo e direito. Em Guizos, a orquestra é valorizada novamente mais o vocal de Googie Coppola. Depois, Flor de Amor, composição de seu irmão José Neto Pascoal, e Fabiola, as duas com roupas de luxo.

Mas uma faixa chama a atenção: em Velório, Hermeto começa com flautas graves, garrafas e vozes, reproduzindo um clima de rezas, escuro, e o choro das carpideiras ao fundo. O jogo vira para um voo de imaginação fantasioso com sons semelhantes aos de um violino ou violoncelo, produzidos em um instrumento japonês chamado Sapho, modificado pelo próprio Hermeto. Um som de cordas ardidas, raspadas, que viaja entre os dois canais. E a melodia lembra muito o folclore nordestino e é cheia de efeitos. Nessa faixa, Hermeto colocou alguns dos músicos da banda para tocar em  garrafas de suco de maçã, o que virou folclore na época da gravação. Velório é uma suite de dez minutos com solos de flauta, cordas e piano que termina com uma massa orquestral que repete os temas do início. A faixa se revela um estudo muito forte da expressão musical nordestina. Muita coisa está ali escondida.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

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