Subo neste palco

Roberto Muggiati* fala sobre a importância de honrar o código do jazz: a gig – ou seja, todo e qualquer compromisso para tocar, geralmente pago – é sagrada

Para ser lido ao som de Ron Carter – Live At Tokyo Jazz 2008
Ron Carter atravessou aeroportos e alfândegas da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, arrastando o pesado contrabaixo, para cumprir o compromisso com a gig
Ron Carter atravessou aeroportos e alfândegas da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, arrastando o pesado contrabaixo, para cumprir o compromisso com a gig (Ilustração: Gilmar Fraga)

Comoveram-me as atribulações do saxofonista Wayne Shorter no BMW Jazz Festival em São Paulo, em 2011. Por conta das cinzas do vulcão chileno, o músico e sua banda – depois de um show em Buenos Aires – pegaram um ônibus até Uruguaiana e embarcaram num jato fretado para chegar ao palco do Ibirapuera com o espetáculo já iniciado. Wayne Shorter uma vez mais honrou o código do jazz: a gig é sagrada. Gig é todo e qualquer compromisso para tocar, geralmente pago. O site Wordnik a descreve: “Um trabalho num período específico, geralmente curto, para apresentações avulsas de músicos de jazz ou de rock”. (Uma das mais belas canções do Pink Floyd se chama The Great Gig in the Sky). A palavra vem de Nova Orleans e é derivada de uma dança francesa do século 18, a Gigue (em português, Jiga). É um termo tão difundido no Brasil que foi o título do curioso livro de Valéria Leal, fonoaudióloga e personal trainer de famosos vocalistas da MPB: Guig/Dicionário de Termos, Gírias e Expressões Musicais (2010).

Em 2008, Wayne Shorter chegou a tempo para o tributo a Milton Nascimento em Ouro Preto. Menos feliz foi o contrabaixista Ron Carter, que teve de atravessar aeroportos e alfândegas da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, arrastando o pesado instrumento para honrar a gig. Voltando a Wayne Shorter: em 1996 ele cumpriu várias gigs e tocou nos grandes festivais, após a morte de sua mulher, Ana Maria, na misteriosa explosão do voo 800 da TWA perto de Nova York, que alguns consideraram um “ensaio” das Torres Gêmeas.

Existem histórias menos trágicas – algumas até engraçadas – no rico folclore da gig. Nos anos 30, Coleman Hawkins – o inventor do solo do saxofone – estourou seu carro para alcançar a orquestra de Fletcher Henderson para uma gig. Hawk se demorou em Kansas City numa renhida batalha de sax com os tenores locais. Quando viu que não podia vencer Ben Webster, Herschel Evans e Lester Young desistiu, sentou-se ao volante e enfiou o pé na tábua. Tinha um Cadillac novinho em folha e fundiu a máquina tentando chegar a tempo em Saint Louis.

Mary Lou Williams foi um dos pianistas daquela noitada lendária. Às quatro da manhã Ben Webster bateu no vidro de sua janela e a convocou para render um pianista que havia desmaiado de tanto tocar. As jam sessions eram mais importantes que as gigs pagas. Kansas City era a meca dessas reuniões só para músicos. Lembra o pianista Sam Price: “Uma vez deixei uma jam às dez da noite, fui tomar um banho e trocar de roupa, quando voltei à uma da manhã ainda estavam tocando a mesma música”.

Nos tempos da Depressão os músicos tinham de correr atrás das gigs. Viajando em ônibus, as bandas tocavam cada noite numa cidade – eram as gigs chamadas de one nighters. Muitas vezes o empresário fugia com todo o dinheiro e largava os músicos na rua. Foi assim que Count Basie deu com os costados em Kansas City, sem um centavo, lamentando ter deixado o emprego de pianista de cinema em Nova York. Mas Basie tinha sorte. Foi tocar com Bennie Moten e herdou a banda quando o líder morreu de apendicite. Viajando de ônibus com as bandas de Basie e Artie Shaw, Billie Holiday aprendeu a dura realidade da estrada. “Quando estava necessitada, pedia ao chofer para parar e fazia o que tinha de fazer à beira da estrada. Preferia o matinho a me arriscar nos restaurantes e nas cidades. Fiz isso tanto tempo, sob sol e chuva, frio e calor, que fiquei muito doente”. Mas Billie nunca faltava a uma gig. Com a banda branca de Artie Shaw, era hostilizada como negra. Com a banda negra de Basie, por sua pele clara, era considerada branca e tinha de passar graxa no rosto para poder cantar…

Nos tempos do bop, era um milagre conseguir que Charlie Parker tocasse. Ele penhorava o saxofone para comprar drogas e chegava à gig sem instrumento. Havia sempre alguém de prontidão com um saxofone reserva. Também chegado a bebidas e drogas, o saxofonista Serge Chaloff criava tantos problemas que Woody Herman quis demiti-lo. Alertado, Chaloff jogou num rio todas as partituras de barítono da banda. E ainda ironizou com Herman: “Vai ter de me aturar. Sou o único que sabe de cor todo o book do sax barítono na banda…”.

Vieram os anos 80 e a época atual, de músicos certinhos com currículos acadêmicos, ternos Armani e gravatas de seda, mas a coisa não mudou tanto assim. No Brasil, milhares de bons instrumentistas continuam ralando atrás da gig nossa de cada dia – não muito distante do pão nosso, com os magros cachês que pagam. Marília Giller, jazzista de Curitiba, viveu um inferno astral para emplacar suas gigs no julho excepcionalmente quente de 2006. Ciceroneava um scholar de jazz que, ao ver os ipês precocemente floridos, comentou: “Tem April in Paris, Autumn in New York – por que não compõe um July in Ritiba?”. Marília o levou para ouvi-la numa nova casa, o Pare Olhe Escute (POE), junto aos trilhos do misterioso trem que atravessa Curitiba. O acadêmico deu até uma de roadie e carregou o teclado da moça, que ela plugou afoitamente numa tomada de 220. A fonte derreteu no ato. Marília disparou o celular e minutos depois apareceu um teclado salvador. A gig foi um sucesso. No dia seguinte, o scholar foi assaltado na roleta de um ponto de ônibus de Curitiba. Marília, que estudava kung fu, tentou pegar o ladrão. Só conseguiu quebrar o dedo anular da mão direita. Com uma tala no dedo, encarou a gig do sábado seguinte no POE e estreou uma nova composição, July in Ritiba… feita para oito dedos.

* Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor vintage Martin Indiana circa 1925

 

 

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