O Salvador daqui | Dom Salvador em São Paulo

Programação do Sesc Jazz traz ao Brasil Dom Salvador, um dos grandes nomes da música instrumental do país e que ainda é pouco conhecido pelo público local

Para ser lido ao som de Dom Salvador Trio
Foto: Phoebe Landrum/Divulgação
Foto: Phoebe Landrum/Divulgação

Eram os dias finais de 1992 e Nova York estava gelada como normalmente fica nesta época do ano. Gelada e lotada, outra característica da cidade neste mesmo período, quando fica infestada de turistas. E eu, turista pouco afeito a viagens e a aglomerações, optei por me refugiar em um local que contrariava estas duas tendências. Ficava às margens do East River e chamava-se River Café. E o que me levava lá era minha curiosidade por ouvir o pianista da casa, já na época titular do piano Yamaha do salão por 15 anos e – muito antes disso – um nome respeitado (porém pouco conhecido) da música instrumental brasileira: Dom Salvador.

O mesmo Dom Salvador que agora, com quase 80 anos – o aniversário é no dia 12 de setembro – volta ao Brasil para ser uma das atrações do Sesc Jazz, festival que será realizado em São Paulo no final de agosto e que terá os ingressos colocados à venda a partir de hoje. Para esta temporada, Dom Salvador estará acompanhado por Daniel D’Alcântara (trompete), Jorginho Neto (trombone), Rodrigo Ursaia (sax e flauta), Sérgio Barrozo (contrabaixo) e Mauricio Zottarelli (bateria).

O que Dom Salvador apresentava no salão do River Café – e que está resumido no repertório dos dois CDs Romantic Interlude at River Café – é bem diferente de outros discos da sua fase brasileira dos anos 60 e dos primeiros discos em solo americano na década seguinte. Mas é coerente com a opção de vida que fez. Dom Salvador deixou de lado o repertório mais jazzístico e aproximou-se do cancioneiro americano (Gershwin, Cole Porter…) com algumas notas de bossa nova (Tom Jobim, principalmente) e também  atendendo a pedidos dos clientes. Ficaram para trás as noitadas jazzísticas dos primeiros tempos, com muitas as gigs ao lado de Charlie Rouse (ex-saxofonista de Thelonious Monk), Ron Carter e Herbie Mann.Dom Salvador acomodou-se e no total já são 45 anos de Nova York, 42 só de River Café, onde tornou-se o mais longevo pianista do local e um dos recordistas da cidade.

Esse grande músico que poucos de seus compatriotas conhecerm é Salvador da Silva Filho – caçula de onze irmãos, filho de um ferroviário e de uma dona de casa, nascido em Rio Claro (SP) –, protagonista da primeira leva dos trios do samba-jazz. Seu começo musical foi ao lado do baterista DomUm Romão mas logo a seguir já estava à frente do Rio 65 Trio. Tocou ainda com Elis Regina e Jorge Bem. Depois, radicalizou. Já casado com Mariá, aproximou-se do funk e do soul naquele mesmo tsunami nos quais foram tragados Wilson Simonal, Toni Tornado, Tim Maia e Erlon Chaves. Com o grupo Abolição, Dom Salvador deu um sotaque brasileiro ao soul americano. Se a experiência musical seria quase perfeita – ouça o disco Som, Sangue e Raça e entenda porquê – a convivência pessoal não seria das mais harmônicas. Discreto e disciplinado, Dom Salvador – recordaria anos mais tarde numa entrevista – não se sentia à vontade com o descompromisso de muitos de seus parceiros. A separação seria amigável: os parceiros formariam dali adiante a Banda Black Rio. Salvador iria para uma pequena temporada nos Estados Unidos – e nunca mais voltou a morar no Brasil. Agora é hora de matar a saudade.

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SERVIÇO

O Sesc Jazz será realizado de 14 de agosto a 2 de setembro pelo São Paulo, levando 22 artistas consagrados e novos de 11 nacionalidades para a capital e o interior paulistas. Entre os nomes esperados estão, além de Archie Shepp, Dom Salvador Omar Sosa.

A programação abarca vertentes e fusões do estilo com a música erudita, blues, funk, soul, r&b, pop, rock, hip-hop, música eletrônica, samba, choro, gafieira e outras expressões regionais dos países participantes.

Além dos shows, haverá atividades de formação com artistas e críticos musicais nos Centros de Música do Sesc, nas unidades Consolação e Vila Mariana, na capital, e no Centro de Pesquisa e Formação.

 

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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