Você já ouviu Cécile McLorin Salvant?

Eduardo Osório Rodrigues* pergunta e responde: a voz dela é calma e cristalina, sua arqueologia musical é a nova ciência nos palcos do jazz

Para ser lido ao som de Dreams and Daggers , de Cécile McLorin Salvant
Foto: Miami6205/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons
Foto: Miami6205/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons

Cécile McLorin Salvant é a estrela maior de uma constelação em evidência no céu do Jazz contemporâneo: a das grandes cantoras. Em setembro de 2017, a norte-americana iluminou o cenário musical com seu spot de maior potência. O disco duplo Dreams and Daggers reafirma as virtudes que fizeram dela herdeira da linhagem de Sarah Vaughan (1924-1990) e Betty Carter (1929-1998) – a quem foi inicialmente comparada.

Como Sarah e Betty, Cécile modula e molda a voz com deslocamentos estratégicos do microfone, mas sem a extensão vocal da primeira nem o virtuosismo elástico da segunda. Crooner da orquestra de Lionel Hampton, Betty “Bebop” Carter deu novo colorido ao scat singing (canto sem palavras). Cécile não é afeita a malabarismos vocais. Apesar disso, com sua paleta tonal rica e variada, e incrível senso de balanço, a cantora renovou a arte vocal do jazz com sua técnica e musicalidade.

Filha de mãe francesa e pai haitiano, Cécile nasceu e cresceu em Miami, nos Estados Unidos. Estudou piano clássico e cantou em coral. A maioridade artística veio com a mudança, em 2007, para Aix-en-Provence, na França. Lá estudou Direito e aprimorou-se em vocal clássico e barroco no Conservatório de Darius Milhaud. No mesmo período, sob orientação de um professor atento aos interesses da aluna, mergulhou na história do Jazz e começou a fazer os primeiros concertos em Paris.

Cécile desperta a atenção da crítica e a paixão do público desde o lançamento de seu primeiro álbum Cécile, de 2009. No ano seguinte à estreia discográfica, venceu o prestigiado Thelonious Monk International Jazz Vocal, uma competição que impulsiona cantoras promissoras como ela. Selecionada entre as 12 finalistas num universo de 237 candidatas, foi eleita cantando à frente de um júri formado por Dee Dee Bridgewater, Dianne Reeves, Kurt Elling, Patti Austin e Al Jarreau.

Boas credenciais nunca lhe faltaram. Crítico do New York Times, Ben Ratliff destacou uma qualidade peculiar da cantora: “Seu rosto transmite significado, representando tristeza ou serenidade como um ator de filme mudo”. Em um artigo para a revista New Yorker, Fred Kaplan elaborou um pouco mais esse conceito: “No palco, Salvant demonstra confiança e sutil teatralidade; Fora do palco, ela é morna, inteligente e engraçada, mas também reservada e nervosa, sua voz mais nasal do que esfumaçada”.

Mas, além da amplitude vocal, o que a distingue das demais? Em primeiro lugar, o culto a um passado musical que estimula a exumação de pérolas esquecidas do jazz, do blues, do Vaudeville e da música folclórica norte-americanas. Em segundo, a qualidade de suas composições. Finalmente, uma sensibilidade musical apurada que a aproxima de músicos emergentes e talentosos como ela. A parceria com Aaron Diehl é o melhor exemplo.
É um espanto que alguém cante assim. Sua voz é calma e cristralina, mas cheia de nuances. Cécile gosta de saltar sem redes de proteção.
Sua arqueologia musical é a nova ciência nos palcos do jazz. “Eu adoro quando uma canção tem cem anos de idade, mas ainda se conecta”, afirma a cantora que escande as sílabas e estica as palavras na entonação correta, ronronando as linhas iniciais de canções seculares com a leveza e altivez de uma gata que sai sem pedir licença e volta sem dar satisfação.

* Eduardo Osório Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

 

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