Entre o sagrado e o profano

Eduardo Osório Rodrigues* recorda como Ray Charles reinventou as músicas aprendidas na igreja, revestindo-as com harmonias modernas e sensuais, para criar um novo e vibrante gênero musical: o soul

Para ser lido ao som de Ingredients In a Recipe For Soul, de Ray Charles
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Ray Charles tinha 73 anos e uma longa lista de serviços prestados à história da cultura afro-americana quando a tampa de seu piano fechou-se pela última vez, em junho de 2004. Uma doença no fígado interrompeu, de forma brusca e inesperada, a carreira iniciada ao apagar das luzes da década de 1940.

A despeito de tudo que sofreu, Ray foi um romântico que extraiu alegria da dor. Sua voz rascante e o estilo vocal emotivo deram novo viço a baladas desconhecidas e um acento pop às suas composições. Vendeu milhões, virou filme, livros, lenda.

Nascido em setembro de 1930, em Albany, no Estado da Geórgia, Ray Charles Robinson cresceu no período pós-Depressão. Ainda pequeno, mudou-se com a mãe e o irmão para a ensolarada Flórida e o resto quase todo mundo já sabe. Negro, pobre e cego, o filho de Aretha tinha apenas a miséria no horizonte, mas se tornou maior que a própria vida.
Além do talento natural para tocar instrumentos, cantar, compor e arranjar, sua maior contribuição artística foi a fusão de gêneros musicais. Dito assim, parece ter sido uma coisa simples, mas foi uma revolução. Seu big bang musical.

Ao fazer a ponte entre o gospel e o R&B, Ray Charles reinventou as músicas aprendidas na igreja, revestindo-as com harmonias modernas e sensuais, para criar um novo e vibrante gênero musical: o soul. Mas não só. Fez mais e foi além. Aberto a outras influências, ele misturou elementos do rock, blues, jazz e country, e mostrou ao mundo o poder de fogo dessa alquimia.

Existem dois “Rays Charles”. O intérprete visceral que põe fogo na pista e o crooner à moda antiga que aprendeu as lições do mestre Nat King Cole. A discografia de ambos é repleta de baladas românticas. Ray mantém a chama alta em versões lentas de músicas vitaminadas pelo apoio das Raelettes e de super orquestras.

Em sua voz melodiosa e cheia de variações, standards manjados como Moonlight in Vermont e It Had to Be You ganham novas cores e significados, e canções antigas como Moon Over Miami e Blue Hawaii embalam danças de rostos colados.

No disco Ingredients In a Recipe For Soul, gravado em 1963, o cantor emociona ao interpretar de forma contida, mas tocante, Over The RainbowA Stranger in TownBorn to be Blue e My Baby. Em Modern Sounds — In Country and Western Music, de 1962, I Love You So Much It Hurts e Born to Lose são prazeres a luz do abajur. Já o encontro com a cantora Betty Carter seu spot de maior potência no enlace amoroso.  Duas vozes que marcam pela doçura e sutileza nas interpretações de Ev’ry Time we Say Goodbye Cocktails for Two.

Não se engane. Ray Charles cantava para elas. Notório mulherengo, teve várias amantes, casou-se duas vezes e foi pai de 12 filhos com sete diferentes mulheres.
A sério, no palco e nos estúdios, emplacou hits e imortalizou clássicos nem sempre de sua autoria, como Georgia on My Mind, versão definitiva para a composição de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell que virou hino oficial de seu estado de origem. Estado para o qual dedicou a balada cujo verso — Just an old sweet song — foi o que ele mais quis fazer enquanto esteve por aí. E conseguiu.

* Eduardo Osório Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

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