As tardes de Buenos Aires têm…

…Astor Piazzolla, Amelita Baltar, Anibal Troillo, Horacio Ferrer, Tenório Jr. e muito mais na memória de Vinicius de Moraes de suas temporadas pela Argentina entre as décadas de 60 e 70

Para ser lido ao som de Tango Zero Hour, de Astor Piazzolla

“Filho da puta!”. O grito, em claro e sonoro português, cortou a apresentação do quinteto de Astor Piazzolla no palco, em Buenos Aires. Não era ofensa, tampouco agressão. O jeito pouco convencional de se expressar foi a maneira encontrada por Vinicius de Moraes para deixar explícita toda a sua admiração e saudar um artista excepcional. Era dessa forma desbragada e espontânea que Vinicius fazia  o que de melhor poderia ser feito para aproximar a Bossa Nova do Nuevo Tango, a cultura da política, a Argentina do Brasil.

Diplomata de carreira, Vinicius fez muito mais pelas relações exteriores do Brasil em bares, cafés e teatros do que em assembleias e reuniões. Depois de quase três décadas de dedicação, Vinicius soube conhecer a ingratidão do Itamaraty e do governo militar brasileiro do final dos anos 60. Tudo o que ele havia feito por seus país pôde ser resumido em um curto bilhete de apenas três palavras enviado pelo ditador Costa e Silva ao chanceler Magalhães Pinto com uma ordem: “Demita esse vagabundo”. O AI-5 confirmou a ordem do ditador e justificou a dispensa de Vinicius colocando-o numa lista em que eram afastados diplomatas suspeitos de “corrupção, alcoolismo e homossexualismo”. Vinicius ficou sabendo da decisão em Buenos Aires e ao chegar no Rio, recepcionado pelos amigos, segurava uma garrafa de uísque enquanto gritava “Eu sou o bêbado, eu sou o bêbado”.

Estas e muitas outras histórias emergem de Nuestro Vinicius – Vinicius de Moraes en el Río de la Plata, relato da jornalista Liana Wenner sobre as longas temporadas que o poeta brasileiro passou entre a Argentina e o Uruguai a partir dos anos 60 e que, dois anos depois, ganhou uma versão em português: Vinicius Portenho. Para evitar possíveis processos, a versão brasileira sofreu cortes e alterações, mexendo algumas passagens mais polêmicas que envolviam o próprio Vinicius, sua ex-mulher Gesse Gessy e a cantora Maysa. As mudanças foram autorizadas pela autora.

Merecidamente, o grande Vinicius que se destaca nessas histórias é o poeta. Sua proximidade com Buenos Aires começou em 1966, quando foi procurado no Rio de Janeiro pelo editor Daniel Divinsky. Desta parceria nasceram as versões para o espanhol de Para Vivir un Grande AmorAntologia PoéticaPara una Muchacha con una Flor, Orfeo de la Concepción e El Arca de Noé). Entusiasmado com o trabalho ao lado de Vinicius, Divinsky havia fundado a Ediciones de la Flor, casa editorial que na mesma época em que começou a editar o poeta brasileiro também começaria a publicar quadrinhos da personagem Mafalda, do cartunista Quino.

Antes disso, o vínculo entre Vinicius e o Rio da Prata estava restrito às atividades diplomáticas – ele havia ocupado um posto em Montevidéu em 1958. Geograficamente, Vinicius dividia-se entre Buenos Aires e Montevidéu, embora não fossem raras incursões a Punta del Este e Mar del Plata. Musicalmente, seu primeiro grande espetáculo iria acontecer em 1968, no Teatro Opera, na Avenida Corrientes. Depois disso, Vinicius escolheria o café-concerto La Fusa como sua base principal. Além disso, ele gostava de frequentar bares e cafés e seguidamente era visto circulando pela região da Recoleta. Já sem a obrigatoriedade do terno e da gravata, Vinicius adotaria como uniforme as camisas largas, usadas para fora da calça, e os óculos escuros.

Sujeito para quem a vida era a arte do encontro – e a amizade não se fazia, apenas se reconhecia –, Vinicius consolidou-se na região como ponto de convergência de escritores (Horacio Ferrer – poeta uruguaio que escreveu letras para canções como Balada para un Loco e Chiquilín de Bachín, além da esplêndida opereta Maria de Buenos Aires –, Antonio di Benedetto, Mario Trejo e Edgar Bayley), pintores (Paez Villaro) e músicos (Piazzolla, Amelita Baltar e Anibal Troillo). Mas Vinicius não apenas aproximava uruguaios e argentinos de brasileiros. Também aproximava brasileiros de brasileiros. Foi por inspiração dele que Ferreira Gullar, então exilado na Argentina, gravou em uma fita-cassete a sua versão de Poema Sujo. A audição, feita no Rio de Janeiro, foi fundamental para garantir a volta de Gullar ao Brasil.

Como não se fala de Vinicius sem se falar de mulher, a musa que simbolizou este período foi Marta Rodriguez Santamaría, a oitava de suas nove mulheres. Ela entrou na vida de Vinicius já no final do mandato da baiana Gesse Gessy. Os dois se conheceram em em Punta del Este em 1975. Para ela, que tinha 23 anos, Vinicius compôs Amigo Portenho”, canção na qual pede a um amigo de Buenos Aires que encontre determinada garota na rua, lhe diga que está morto de saudade.

Exagerado e apaixonado, Vinicius deu-se de corpo e alma à vida Argentina e ao Uruguai. Poeta que viveu como poeta, Vinicius de Moraes fez de Buenos Aires e de Montevidéu extensões de suas casas. Demonstrava por essas cidades a mesma paixão que havia dedicado ao Rio de Janeiro, Salvador e Los Angeles. Notívago, boêmio, grande bebedor de uísque, contador de casos, charmoso e mulherengo, Vinicius tratava as cidades da mesma maneira que tratava as mulheres. Apaixonava-se profundamente – era eterno e duradouro enquanto durasse aquele período – e depois as trocava por um novo amor. Nenhuma cidade conseguiu aprisionar sua alma livre e seu desejo em buscar novas experiências.

Mas todo o encanto e hedonismo dessa época acabariam com uma tragédia. Os últimos dias de Vinicius em Buenos Aires se confundiriam com o golpe militar de março de 1976. A alegria de viver seria atropelada pelo sumiço de Tenório Jr., pianista da banda do poeta. Confundido com outra pessoa – provavelmente um militante político argentino – Tenório havia saído para comprar cigarros e nunca mais foi visto. Anos depois, soube-se que ele havia sido sequestrado e posteriormente assassinado.

Vinicius em Buenos Aires também morreria um pouco.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

  1. Muito bom, baita relato e bastidor deste personagem singular da história da música e do Brasil.

    A leitura, de tão boa, acompanhou a trilha só até a segunda faixa. E a trama ganhou emoção e força justamente ao som de “Milonga del Angel”.

    E a descrição do uniforme do “poetinha” me lembrou, na hora, de alguém muito legal que conheço.

    Bárbaro 👏🏻👏🏻👏🏻

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