Viva Villa!

Roberto Muggiati* vê influências nos Beatles, em Bernard Hermann, no Modern Jazz Quartet e em Eric Dolphy de Heitor Villa-Lobos, o erudito até certo ponto que sempre sentiu um fascínio especial pelos idiomas populares

Para ler ao som de Bachianas Brasileiras pelo Modern Jazz Quartet
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Você pode ouvi-lo nas cordas (e nos acordes) iniciais que sublinham a apresentação de Psicose, com os títulos geniais de Saul Bass (que também “desenhou” o leiaute da aterrorizante sequência do chuveiro. Bernard Herrmann, o grande compositor das trilhas de Alfred Hitchcock, usa e abusa de Villa-Lobos em outras trilhas marcantes, como Vertigo/Um Corpo Que Cai e Marnie/Confissões de uma Ladra, por sua vez transplantada para a trilha de Último Tango em Paris, de Gato Barbieri.

Você pode ouvi-lo nos arranjos neossinfônicos de George Martin para os Beatles no álbum Sargeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, mais explicitamente, em Eleanor Rigby e I’m a Walrus – na primeira, a introdução com violoncelos e contrabaixos galopantes e nervosos; na segunda, os graves letárgicos dos contrabaixos.

Oboísta com formação clássica e estudos de arranjo e composição, Martin sempre foi atraído pela obra do erudito brasileiro. Erudito até certo ponto, porque Villa-Lobos sempre sentiu um fascínio especial pelos idiomas populares. Aos 12 anos, estuda violoncelo erudito e passa a tocar em teatros, cafés e bailes, interessando-se pela música dos “chorões”, que o leva a tocar também o violão. Martin admitiu que o tema que as cordas tocam em I’m the Walrus antes de Sitting in an English Garden/Waiting for the Sun foram tiradas dos Choros para Orquestra do velho Heitor.

Bernard Herrmann recorria com frequência aos ostinati de cordas – violinos, violoncelos e contrabaixos, e às vezes todos juntos – tão característicos das obras de Villa-Lobos. O próprio Villa invadiu a seara de Herrmann ao aceitar um convite para compor a música do filme Green Mansions/A Flor Que Não Morreu. E se deu mal, por desconhecer a técnica da trilha sonora e a politicagem interna dos estúdios de Hollywood. O filme, passado na Amazônia, foi dirigido por Mel Ferrer, marido da estrela, Audrey Hepburn; o astro é Anthony Perkins (logo ele, Norman Bates, o assassino da cena do chuveiro!). A trilha foi encampada pelo veterano Bronislaw Kaper, que só preservou alguns fiapos da partitura original de Villa-Lobos.

Já os músicos de jazz, cada vez mais sofisticados depois da revolução modernista do bebop, investiram em peso sobre o velho Villa. Incontáveis gravações foram feitas da Bachianas N.º 5, introduzida ao Modern Jazz Quartet pelo violonista Laurindo de Almeida, quando se apresentava como artista convidado do grupo no início dos anos 60. Branford Marsalis a gravou em 1986 no álbum Romances for the Saxophone, ao lado de Debussy, Ra­­vel, Fauré e Rachmaninoff. O saxofonista Wayne Shorter fez uma re­­leitura das Bachianas no álbum de 2004, Alegria. Em 1962, no ál­­bum Speak, Brother, Speak!, Max Roach ocupou uma faixa inteira com um tema que leva a sua assinatura, Variation, mas que nada mais era do que o Prelúdio N.° 3, de Vil­­la-Lobos. O saxofonista Eric Dolphy, que tocava ainda flauta e clarone, também estudou a fundo a obra do brasileiro.

Se nos Estados Unidos a favorita dos jazzistas é Bachianas N.º 5, aqui quem sai ganhando é O Trenzinho do Caipira, gravado e tocado exaustivamente. Ouvi uma versão interessante há pouco tempo por Mauro Senise (sax, flauta), Gilson Pera­­n­­z­­zetta (piano) e Sílvia Braga (harpa). O trio, batizado com o nome do compositor, está lançando o álbum Melodia Sentimental, que, além dessa peça do Villa, inclui a Lenda do Ca­­bo­­clo e uma homenagem de Peranz­­zetta e Ivan Lins a Villa e a Jobim intitulada Villa Jobim.
Antes, no CD Tempo Caboclo, com Jota Moraes, Senise gravou o “Choros N.º 1 (Chora Violão)”. O saxofonista Ivo Perelman, radicado há mais de 20 anos nos Estados Unidos, lançou em 1996 o álbum Man of the Forest, baseado inteiramente em peças de Villa-Lobos. E mais recentemente, em 2009, o contrabaixista Bruce Henri fez todo um CD apenas com o repertório do maestro: Villa’s Voz.

Vale também não esquecer a presença de Villa-Lobos no cinema nacional, com sua música presente em trilhas sonoras de filmes como O Descobrimento do Brasil, de Humberto Mauro; Deus e o Diabo na Terra do Sol Terra em Transe, de Glauber Rocha; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni, e Menino de Engenho, de Walter Li­­ma Jr. A desfeita de Hollywood para com o bom Villa foi mais do que desagravada pelo cinema brasileiro.

* Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor vintage Martin Indiana circa 1925

 

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Nenhum pensamento

  1. Dizer que Bernard Hermann se inspirou em Villa-Lobos para compor a trilha de Psicose é um chute digno de um beque do Madureira. Hermann era fã e divulgador de Charles Ives, e autor de trilhas inovadoras como “O dia em que a Terra parou”. Foram, sim, os famosos ostinati de Psicose que, comprovado e admitido, influenciaram George Martin na introdução de Eleanor Rigby, e não Villa-Lobos. Claro que o compositor brasileiro usou e abusou dos ostinati em seus quartetos de cordas, mas por óbvia influência dos raros quartetos de seus predecessores Debussy e Ravel. Compositores do Leste europeu, como Alois Haba, Janacek e, depois, Penderecki também foram pródigos na utilização dessa técnica, que tem efeito percussivo, em sua música de câmara. O que digo é que Hermann com certeza ouviu toda essa turma bem antes de supostamente ter ouvido Villa-Lobos.

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