O Havaí seja aqui

Ana Maria Bahiana* lembra o Hapa, um som havaiano em que a alma continua lá, porque a alma é milenar e inteligente e fala uma língua com vogais ternas que caem bem num ouvido brasileiro

Para ser lido ao som de Hapa
George Henry Burgess/Domínio público/Wikimedia Commons
George Henry Burgess/Domínio público/Wikimedia Commons

Um cineasta metido a moderninho uma vez me disse, numa entrevista, que poucas coisas mereciam mais o seu desprezo do que a língua havaiana. “Você pode imaginar uma língua assim? Eles só tem vogais! É uma língua para débeis mentais!”. Eu, da minha parte, acho que uma língua que tem sete palavras diferentes para “alga”, uma dezena para “onda do mar” e mais de uma dúzia de permutações para “dia de sol” é a expressão refinada de uma cultura que tem todas as suas prioridades no lugar. Os Estados Unidos – por meio, entre outros, da família Dole, de latifundiários do abacaxi – entraram no arquipélago havaiano há um século, atropelando tudo o que de bom e sofisticado e profundo as ilhas ofereciam e plantando arranha-céus, freeways e bases militares em seu lugar. Mas a alma continua lá, porque a alma é milenar e inteligente e fala uma língua com vogais ternas que caem bem num ouvido brasileiro: eu, por mim, acho lilikoi mais doce que maracujá e aloha quase tão complicado quanto saudade.

Meu caso de amor com o Havaí também é quase tão complicado quanto ambas, aloha e saudade. Numa tradução muito livre de uma expressão local, eu deixei meu coração enterrado debaixo das folhas da bananeira. Eu sei até onde. O Hapa é uma dupla de havaianos nativos – Barry Flanagan e Keli’i Kaneali’i. Tocam um violão riquíssimo e cantam na língua dos antigos. Entendo quase nada das letras, mas entendo tudo da música: há uma pureza absoluta aqui que vem de fontes subterrâneas, de um outro mundo, um mundo sonhado, imaginado. Existe uma determinada série de notas que Barry tira do violão em Olinda Road que, não importa quantas vezes eu escute, sempre me traz lágrimas aos olhos. Como os arranjos de cordas de Tom Jobim: saudade do que não se sabia que fazia falta.

* Ana Maria Bahiana é uma das mais importantes jornalistas culturais do Brasil. Escreveu para a Rolling Stone brasileira, Opinião, O Globo, Jornal do Brasil. Folha e Estado de S. Paulo. Atualmente colobora com a Exame e é editora do site goldenglobes.com. Há 30 anos mora nos Estados Unidos

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