O dia em que Miles Davis chorou

Roberto Muggiati* recorda como o trompetista reagiu quando ficou sabendo da morte de Duke Ellington, em 1974

Texto para ser lido ao som de Miles Davis em My Funny Valentine
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Todo amante do jazz lembra o que fazia quando soube da morte de Miles Davis, naquele sábado de 1991, 28 de setembro. Poucas pessoas lembram o que Miles fazia em 1974, quando soube da morte de Duke Ellington, em 24 de maio, dois dias antes de Miles completar 48 anos. Ele tocava no Brasil, num momento de crise, e chorou copiosamente. Lembra o trompetista em sua autobiografia: “Comecei a pensar seriamente em me aposentar da música em 1974. Estava em São Paulo, Brasil, e tinha bebido um montão de vodca e fumado alguns baseados – coisa que nunca fazia, mas estava me divertindo muito e disseram que era da boa”. Resumindo a ópera, nosso herói foi acabar entubado num hospital e quase morreu. “De 1975 até o começo de 1980 não cheguei a pegar no trompete”. Mas Miles – comparado a Picasso pela quantidade de fases que atravessou em sua arte – retornou aos palcos e às gravações nos anos 1980, improvisando em cima dos novos sons: pop, funk, Michael Jackson, Prince.

Na onda dos tombamentos que assolam o patrimônio da humanidade, sugiro alguns bens imateriais milesianos para incrementar a discussão:

  1. A frase do romancista Antônio Torres sobre a interpretação de My Funny Valentine por Miles, com surdina, em Um Cão Uivando para a Lua. “O título surgiu numa noite escura, em São Paulo, quando num quartinho de hotel barato na Alameda Barão de Limeira, este pretendente a escrevinhador ouvia o tempo todo Miles Davis toando sem parar My Funny Valentine, uma terna canção americana, do Dia dos Namorados, que aquele trompetista, um gigante do jazz, transformara num lamento lancinante”, escreveu Torres.
  2. Os meros – e preciosos – um minuto e quarenta segundos de Prenda MinhaSong Nº 2, no álbum Quiet Nights – pequena pérola da colaboração de Miles com o gênio orquestral Gil Evans.
  3. O episódio em Paris durante a gravação da trilha de Elevador para o Cadafalso (1958), de Louis Malle. Um fragmento de pele se descolou do lábio de Miles e ficou preso no interior do bocal do trompete. Ele seguiu tocando. O que seria um defeito para ouvidos mais ortodoxos foi acolhido pelos técnicos de gravação e o sopro à flor da pele de Miles ficou eternamente preservado para os cultores da arte do acaso.
  4. A love story do século 20 – a Musa do Existencialismo e o Picasso do Jazz – que só não vingou porque eram apegados demais a suas cidades do coração: Juliette Gréco a Paris, Miles Davis a Nova York. Seria genial estampar em grandes letras nas paredes da mostra o depoimento de Juliette: “Soube da morte de Miles quando voltava a Paris de carro, ouvi a notícia no rádio e a vida para mim ficou subitamente terrível. Todos nós ficamos um pouco mais sozinhos. Pela primeira vez na vida, senti que me tinham roubado a juventude. Ele está sempre conosco, sua música, é claro, mas também sua imensa presença, seu humor irônico, mas carregado de respeito, seu riso estranho, seu rosto magnífico, esculpido como uma estatueta egípcia. Quando nos encontramos das últimas vezes, tive a impressão de que Miles era eterno”.

* Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor Selmer Mark VII.

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