Negro social, intelectual e chic

Bola de Nieve, com seu charme e sua elegância, foi um embaixador musical de Cuba

Texto para ser lido ao som de Messie Julian, de Bola de Nieve
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

O nome tinha algo de imperial, mas Ignacio Jacinto Villa Fernández ficaria conhecido por um apelido tão curto quanto jocoso: Bola de Nieve, identificação que era fiel à figura rotunda do músico.

Os mais de cem quilos nunca o impediram de requebrar ao piano com a leveza de uma versão cubana de Carmen Miranda. Suas origens populares (nasceu em Guanabacoa, periferia de Havana, em 11 de setembro de 1911) tambem não o impediram que se destacasse por seu refinamento, transformando-se naquilo que mais próximo Cuba teria da França de Maurice Chevalier.

Suas raízes eram repletas de história e, reza a lenda, o pequeno Ignacio foi incentivado a estudar música desde criança depois que uma tia-avó recebeu uma mensagem do além. Guanabacoa é a cidade das santerias, dos caminhos dos santos, do sincretismo, das fusões das crenças católicas com a religião Iorubá.

Vivendo com os pais, uma dona de casa e um cozinheiro, e mais doze irmãos, Bola de Nieve teve uma infância marcada pelo ambiente festivo da vila onde morava. Outra paixão era o cinema, onde, aos 12 anos, começou a frequentar, não apenas como fã mas também como pianista encarregado de acompanhar os filmes mudos.

Por uma década essa seria sua função até ser descoberto pela cantora Rita Montaner que lhe daria emprego e confirmaria o apelido que já o acompanhava mas que ainda era motivo de vergonha – Ignacio só se confirmaria ao ver pela primeira vez escrito em público, no México, num cartaz que anunciava: Rita Montaner y Bola de Nieve.

Se até então era coadjuvante – apenas tocando, sem cantar -, Bola de Nieve saberia aproveitar a ausência de Rita, afastada dos palcos por conta de uma enfermidade. Para a plateia de 4 mil pessoas do Teatro Politeama, Bola de Nieve se apresentaria cantando “Vito Manué, tú no sabe inglé”. E não pararia mais.

A capacidade de rir de si próprio, demonstrada já na estreia, ganharia uma nova dimensão com a autoparódia Messié Julian, em que se define como “negro social, intelectual e chic”, mas aí, final dos anos 30, Bola de Nieve já era gigantesco. Manteve a casa em Guanabacoa, porém seus hábitos ficaram mais sofisticados e seu círculo de amigos passou a incluir intelectuais e artistas como Ernesto Lecuona e Nicollás Guillén. Sua obra também crescia em qualidade e amplitude. Os anos gastos ao lado das telas de cinema haviam lhe dado uma elogiável memória musical. Tudo seria incorporado a um repertório que se apoiava no romantismo dos boleros e ainda em canções ágeis e ritmadas, muitas delas repletas de pregões e referências folclóricas. Ainda assim, não se considerava-se um cantor, mas alguém que interpreta as canções dando-lhes um sentido especial.

Após a revolução, adaptou-se aos novos tempos em Cuba como havia adaptado-se anteriormente. Se antes fazia turnês pelos Estados Unidos, México, França e Itália, passou a incorporar ao roteiro capitais socialistas como Sofia, Varsóvia, Moscou e Pequim. Diplomata informal de seu país, Bola de Nieve foi presenteado com uma embaixada personalizada. Em 1965, o restaurante Monseigneur, em Havana, foi reformado e reabriu como Chez Bola. Aí e em tantos outros lugares onde levou sua arte, Bola de Nieve só aumentou seu séquito de admiradores, além de manter fãs famosos, incluindo tanto inimigos do regime de Fidel (como Guillermo Cabrera Infante) quanto simpatizantes (como Alejo Carpentier). Retrato mais fiel da Cuba pré-castrista – quando a ilha era pouco mais do que uma mistura de cassino com bordel –, Bola de Nieve superou o radicalismo político, mantendo-se como símbolo da cultura de seu país sem precisar transformar-se num artista engajado. Talvez pelo fato de já ser considerado um resumo não apenas de Cuba – mas de toda a América.

Diabético e asmático, Bola de Nieve passou a ter problemas cardíacos a partir de 1969.

O coração – tão sofrido por amores fracassados – lhe traiu pela última vez em 2 de outubro de 1971, durante um voo que o levava a Lima, no Peru. O Bola de Nieve que mascarava sua homossexualidade morreu solitário tendo a música como sua única companheira. Ou, como Pablo Neruda escreveu, “casou-se com a música e vivia com ela sua mais completa intimidade”.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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