Do maior ao menor

Felipe Pimentel* escreve sobre Ev’ry Time We Say Goodbye, de Cole Porter, a canção mais bonita do mundo, segundo Chico Buarque

Para ser lido ao som de Ev’ry Time We Say Goodbye, com Ella Fitzgerald

Tempos atrás, em uma entrevista, Chico Buarque, o mestre-maior do cancioneiro brasileiro, afirmou que a canção mais bonita de todos os tempos era o clássico de Cole Porter Ev’ry Time We Say Goodbye, apresentada pela primeira vez – gravação que não se tem registro – por Billy Rose e interpretada por dezenas de músicos, tornando-se um tema celebre do jazz. A versão cantada mais bonita dessa música, para mim, está no songbook de Ella Fitzgerald cantando Cole Porter.

Harmonicamente, a canção não apresenta maiores surpresas. É uma canção em mi bemol, que praticamente – e este praticamente aqui é crucial – não escapa da escala, nem na melodia, nem nos acordes. A linha melódica pode ser, inclusive, tomada, à primeira vista, como repetitiva, pois deste a primeira frase a nota sol repete-se para dizer a frase-título inteira: Every Time We Say Goodbye. Isto é, cada sílaba cantada nessa frase é a mesma nota, um sol. Contudo aqui já temos a sacada de Cole Porter nessa canção e que lhe empresta toda beleza: o acorde de mi bemol que sustenta essa nota sol que se repete se alterna com o seu relativo menor, a saber, um dó menor. Vale um esclarecimento fundamental para os não-músicos: os acordes maiores são alegres, radiantes; ao passo que os acordes menores são tristes e melancólicos. Assim, cantar a frase-título inteira em uma nota só faz com que a tensão musical aponte para a harmonia e não para a melodia; e na harmonia Cole Porter escolhe alternar entre um acorde maior e um menor, mostrando-nos um sentimento ambíguo, entre alegre e triste – prenunciando o afeto que está por trás da canção.

image (14)A letra bem conhecemos: “Toda vez em que dizemos “adeus”/Eu morro um pouco/Toda vez que dizemos “adeus”/Eu fico imaginando “por quê?”/Por que os deuses lá no céu/Que devem saber a razão/Pensam tão pouco de mim/Que permitem que você se vá”.
Nesta primeira passagem da música, não há sentimento outro que a tristeza da despedida dos dois amantes. Porém, a segunda passagem, que inicia musicalmente idêntica, vem mostrar o outro lado: “Quando você está junto a mim/ Há um frescor de primavera no ar /Eu posso ouvir os pássaros que começam a cantar nalgum lugar/Não existe uma canção de amor mais bela”.

E é neste exato ponto que temos uma montagem maravilhosa de Cole Porter, pois os próximos versos dizem: “Mas quão estranha é a mudança/Do maior ao menor”.
No original, trata-se de From major to minor, que significa uma brusca queda de sentimento de quando os amantes se separam, mas fala em termos musicais (seja referindo-se à canção dos pássaros, seja à própria canção de Cole Porter), pois poderia ser traduzido como Do acorde maior para o menor. Poderia ser somente uma sacada poética, mas é mais: neste momento os acordes também trocam do maior para o menor, fazendo a harmonia dialogar com a melodia e, também, com os versos. O tema é retomado após este achado, e Cole Porter deixa-nos livres para alternar a melodia de Toda vez em que dizemos “adeus” no modo em que preferirmos – maior ou menor. Não é uma história triste de amor, tampouco feliz. É uma história inteira de amor, talvez de praticamente todos, escondidos em um ou dois de seus compassos ou na canção inteira. Chico Buarque tinha razão: é a canção mais bonita do mundo.

* Felipe Pimentel é psicanalista e historiador

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