Equipamentos eletrônicos, espírito humano

Marcos Abreu* lembra como Van Gelder mudou a engenharia de som e tornou-se um personagem fundamental em clássicos como A Love Supreme e Saxophone Colossus

Texto para ser lido ao som de A Love Supreme, de John Coltrane

Seu nome era Rudolph (Rudy) Van Gelder, e ele é o mais aclamado técnico de som da história do jazz. Sem ele, o som que você conhece hoje e identifica, poderia ser outro. Ele teve a capacidade de fornecer aos artistas um meio ideal de comunicar sua música e permitir que os músicos fossem ouvidos do jeito que eles gostariam. Nascido em Jersey City, Nova Jersey, em 2 de novembro de 1924, filho de um casal de comerciantes, Rudy ouvia jazz desde pequeno. Na adolescência, tentou tocar trompete, mas logo percebeu que aquilo não ia muito longe. Sua vida mudaria depois de uma visita a um estúdio de rádio, onde descobriu sua paixão pelos equipamentos eletrônicos e passou a montar na sala da casa de seus pais, em Hackensack, um estúdio. Ali desenvolvia técnicas de gravação usando métodos próprios de posicionamento de microfones, tudo com atenção, cuidado e luvas, sempre buscando um som mais real. “Minha ambição era capturar e reproduzir a música melhor do que os outros engenheiros, fazendo com que tudo soasse mais próximo e com os equipamentos eletrônicos capturando com precisão o espírito humano”, explicou Van Gelder numa entrevista ao repórter James Rozzy, na revista Audio, em novembro de 1995.

microfone
O microfone Neumman com o qual Van Gelder revolucionou o jazz Foto: Marcos Abreu

Van Gelder foi dos primeiros a utilizar microfones Neumann em gravações de música não erudita ou locuções de rádio e ainda a explorar ao limite a qualidade dos gravadores AMPEX de fita magnética. “No final dos anos 40, quase todo mundo usava microfones da RCA e da Western Electric.Eu comecei a usar microfones Neumann e tive o segundo modelo vendido nos Estados Unidos, em1949. Na década de 60, o Dr. Neumann (1898-1976), que tinha um escritório perto do meu estúdio em Englewood Cliffs, veio me visitar. Foi uma emoção para mim e acho que foi emocionante para ele também”.

Em 1953, Van Gelder foi apresentado ao fundador e produtor da Blue Note Records, Alfred Lion, tornando-se o principal engenheiro da gravadora. No novo estúdio aplicaria seu método que consistia basicamente na colocação de microfones mais próximos dos instrumentos, a fim de capturar melhor os detalhes que as técnicas tradicionais de gravação perdiam. A principal característica do “som” de Van Gelder era o intimismo, revelando uma clareza que permitia escutar os detalhes sonoros de cada instrumento como se estivessem bem próximos.

E se Van Gelder tivesse uma sala maior, mais tempo, e mais dinheiro, teria o mesmo resultado ou isso foi obtido graças às limitações? Em 1959, ele construiu um estúdio maior, semelhante a uma catedral, em Englewood Cliffs, investindo boa parte das suas economias e buscando reproduzir os ensinamentos da arquitetura de Frank Lloyd Wright. Num primeiro momento, a qualidade de som não se repetiu no novo estúdio mas logo Van Gelder conseguiria solucionar quase todos os problemas. A partir de 1999, já consagrado, Van Gelder começaria a remasterizar digitalmente muitas de suas sessões da Blue Note, e os resultados foram lançados mais tarde como as Edições RVG. “No caso da Blue Note, Alfred Lion insistia para que os músicos ficassem até que eu fizesse uma edição boa edição. Eu tinha que fazer a edição na frente de todos. E ninguém poderia sair até eu acertar. Isso aumentava a tensão”, recordaria.

Van Gelder não tinha dúvidas como qual gravação das que participou foi a mais surpreendente: “A Love Supreme, de John Coltrane. Foi hipnótico. Foi emocionante. Foi diferente”. Rudy Van Gelder morreu em casa, em Englewood Cliffs, em agosto de 2016, aos 91 anos.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s