A trip de Bad Donato

PEDRO SÓ

Fumegava o ano de 1970 na Califórnia. O sonho até podia ter acabado, mas a larica precisava ser saciada com outros quitutes. O flower power ainda vigorava – informalmente, claro –, e muita gente boa dava carona para o primeiro cabeludo que estendesse o polegar pela rua. E daí que Richard Nixon estivesse no poder desde o ano anterior? Como se sabe, a história da vida real não obedece às linhas do tempo das reportagens de revista ou ao caga-regrismo de historiadores que não viveram a época.
O acreano João Donato estava muito vivo e morando em Los Angeles naqueles dias. Tinha mais de dez anos de exílio profissional nos Estados Unidos, descontando uma brevíssima recaída carioca em 1962 (Miniflashback: depois de se deparar com a canícula do verão na Tijuca e com os desconfortos de um racionamento de energia elétrica, sua mulher, americana, esbravejou: “Iiisso é que é a Cidade Maravilhosa?”). O casamento com a Patricia acabara de chegar ao fim e o ambiente musical californiano já não desafiava mais sua curiosidade.

>> Leia o texto de Márcio Pinheiro: A bossa psicodélica de João Donato

Pouco antes, porém, João Donato havia substituído o pianista Osmar Milito numa turnê de Sérgio Mendes com o grupo Bossa Rio pelo Japão. Coisa rápida, sete dias. Bob Krasnow, diretor do selo californiano Blue Thumb, foi junto e providenciou que aquela excursão ficasse registrada em disco: Bossa Rio Live in Japan. Uma noite, depois do show, ele bateu no quarto onde o pianista estava hospedado junto com o baterista Dom Um Romão, e se declarou: “Rapaz, quando você faz o seu solo lá, eu fico todo arrepiado…”.
Donato lembra desfazendo: “Era um solinho assim, limitadinho, porque o show tinha os cantores, Pery Ribeiro e Gracinha Leporace… Mas ele gostou e me disse: ‘Quando voltarmos pra América, quero gravar um disco com você’. Voltamos, eu não liguei muito…” Mas pouco depois veio o telefonema de Emil Richards, vibrafonista americano que tocou com todo mundo, de Frank Sinatra a Frank Zappa, passando por Stan Kenton, Beach Boys e Charles Mingus. “Olha, o Bob vai atrás de você…”.

O tal Bob Krasnow era um jovem que tinha subido na indústria fonográfica promovendo discos de James Brown. Num período especialmente fértil para a cultura alternativa, sua especialidade era levar ao mainstream sons do underground como Lovin’ Spoonful e Flamin’ Groovies. O selo Blue Thumb foi uma aventura indie inovadora que o executivo montou com um amigo, o produtor Tommy Lipuma (hoje chefão da Verve).

Sujeito eclético e acostumado a lidar com os mais abilolados porra-loucas do rock e do soul (amigo de Ike Turner e de Don Van Vliet, o Captain Beefheart), Bob deu carta branca a João Donato: “Faz o que você quiser. Entra no estúdio, aluga os instrumentos que você achar interessantes, grava o que você quiser…” E assim surgiu A Bad Donato, assumida tentativa de cair no gosto popular da época.

Diferente de tudo que Donato tinha feito antes e de tudo que fez depois: um disco superfunky e psicodélico, avançando pelo que se chamava na época de jazz fusion (termo que viraria palavrão nos anos 1980). “Eu queria fazer sucesso e a bossa nova já não dava pra mim, porque era uma coisa mais cantada”, justifica o pianista, décadas depois.

No escaninho do jazz, Donato seguia o caminho de popularização trilhado por outros gênios, como Miles Davis e Wes Montgomery.

Lisergia era especialidade da casa na Blue Thumb: reza a lenda que Bob Krasnow inseriu efeitos de phaser no disco Strictly Personal (1968), do Captain Beefheart, sem consentimento do artista. Com João Donato a estratégia de “psicodelização” foi diferente.

O brasileiro conta que, para se familiarizar com os sons da época, pegou dez discos de James Brown e “começou a estudar, ver o que tinha ali que eu gostava”. Encontrou diversão nas pequenas células que se repetiam, feito os modernos loops, “aquela coisa repetitiva mesmo”. Foi então que teve uma ideia: botar dois instrumentos de cada – duas guitarras, dois pianos, dois trompetes, dois baixos, duas baterias, dois trombones…

Os ensaios começaram, na garagem da casa de Emil Richards, encarregado da produzir a maluquice, e uma coisa ficou clara. “Os dois contrabaixos juntos não funcionaram, deu uma salada do cacete… Mas deixamos as duas baterias, Dom Um Romão e Paulinho Magalhães.” O time de músicos era excepcional: Oscar Castro Neves no violão, Bud Shank na flauta, Jimmy Zito (veterano trompetista da banda de Tommy Dorsey), os irmãos trompetistas Pete e Conti Candoli (que tocaram na orquestra de Stan Kenton, ídolo de toda a turma da Bossa Nova)…

Donato lembra que estava ouvindo a fita em casa e o telefone tocou: era o carioca Eumir Deodato, de Nova York. “Ele falou: ‘Rapaz, que negócio bom é esse que você tá aí ouvindo? A aldeia dos índios tá animada, hein?’ Expliquei que era um disco que eu estava gravando e ele se ofereceu. ‘Cê não quer que eu vá aí ajudar, não?’ Eu disse: ‘Ué? Vem , pô!’ Ele pediu licença à Ruth, mulher dele; ela autorizou e ele veio….Como eu tinha acabado de me separar, a casa estava sem alguns móveis, só tinha um piano. Ele passou uma semana na minha casa em Los Angeles dormindo numa rede. Foi aí que nós fizemos os arranjos do disco”.

Deodato discorda dessa versão. Diz que naquela época Donato não era arranjador e que só depois é que aprendeu a escrever arranjos. Ao ser contatado para esta entrevista, disse inicialmente que não falaria se fosse uma matéria sobre o colega. “Nós não temos um relação de amizade”.

Oito anos mais novo do que o acreano, Eumir Deodato tinha surgido no cenário brasileiro ainda rapazote, quando Donato já estava nos Estados Unidos. Em pouco tempo de atividade na música brasileira, cativou Tom Jobim com seus arranjos, que começaram a ser disputados a tapa por nomes como Elis Regina, Marcos Valle e Wilson Simonal. Em 1967, foi morar nos Estados Unidos. O plano inicial era gravar com Luiz Bonfá, mas em pouco tempo, depois de colaborar com Astrud Giberto e Frank Sinatra, já estava plenamente integrado ao mercado americano e atuando até mesmo fora da searas “exóticas” da bossa. “Eu trabalhava com comerciais, com bandas ao estilo do programa Johnny Carson, conhecia o funk e o rhythm & blues’, lembra Eumir.

“A culpa do som do A Bad Donato é minha”, brinca. “Donato não entendia nada de funk, quem apresentou isso pra ele fui eu… Ele só entendeu o que iríamos fazer depois que entrou no estúdio. Ficou doido, não sabia que ia sair aquele sonzão. Porque eu botei sax barítono, fui direto no funk jazz”.

Amizades desfeitas e ressentimentos à parte, o disco entrega tudo o que seu subtítulo anuncia: João Donato’s psichedelic funky experience. O funkão é garantido pelos trombones de Jimmy Cleveland e Ken Shroyer, com Jack Nimitz (outro que passou pela escola de Stan Kenton) e Bill Hood (sideman de Chet Baker) nos barítonos, mais Ernie Watts e Don Menza nos tenores.

Eumir Deodato realmente se aprofundou no funk e ao longo dos anos 70 trabalhou com Earth, Wind & Fire, Dazz Band, One Way, Con-Funk-Shun. Isso sem falar no Kool & The Gang. Toda vez que ouve a música “Celebration” num bailão pós-casamento, Eumir tem a sensação do dever cumprido. “Era essa a proposta da faixa: tocar sempre nas festas. Eu trabalhei feito um cavalo pra isso – o mais difícil foi convencer os caras do grupo. Quis amaciar o funk deles, sair daquela coisa mais primitiva tipo ‘Jungle Boogie’ para algo mais suave, com vocais. Eles não acreditavam na minha ideia…”.

bad donato
A Bad Donato esteve longe de fazer sucesso comercial, mas teria uma parcela de responsabilidade no fenômeno discothèque que viria a surgir. (Foto: Reprodução)

Não por acaso Eumir Deodato saiu desse trabalho para, em 1972, emplacar um primeiro lugar na parada pop com sua versão dançante para “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, tema de 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

Em 1973, Donato e Deodato ainda lançariam um disco juntos, o belíssimo Donato Deodato, sem groove nem papo de maluco. Mas, voltando ao Bad Donato, cabe esclarecer devidamente o lado “experiência psicodélica”… E ninguém melhor do que o próprio acreano. “Estávamos na época dos Beatles, paz e alegria, Woodstock e Bangladesh, sei lá… Todo mundo hippie”, lembra Donato. Bob Krasnow queria que ele experimentasse ácido lisérgico, mas não poderia ser numa hora qualquer. O cara tinha tudo certo na cabeça: o músico iria tomar a droga antes de gravar o solo em uma determinada música – que acabou sendo batizada de Lunar Tune. Como o produtor curtia astrologia, essa faixa precisava ser registrada num domingo, às 13h. “Quando entrei pra gravar, tinham passado dois minutos! Isso quase fez a música passar a se chamar Two After One (risos…). Nessa hora aí o cara me deu o tal do LSD. Rapaz??!! Eu fui no banheiro e tomei uma pilulazinha com aparência de pedra de isqueiro. Voltei pro estúdio e fiz um solo que foi….Como se diz, assim… um desastre! Mas a turma hoje vibra!! Eu apertava o que estava pela frente. Tinha uma fita em cima do teclado que você deslizava e ela fazia uuuuh! Quando eu descobri aquilo, pensei: ‘Oba! É aqui que vou ficar. Comecei a zoar então…”.

João Donato não curtiu a experiência nem pessoalmente nem musicalmente. “Acabou a gravação e eu… ‘Então, até logo, passar bem, lembranças à família…’ Saí dali pensando que de mim saíam feixes de luz, que eu era um ET e que de dentro de mim saíam raios. E que estava todo mundo me olhando… Tudo paranóia, claro! Não fiquei fã desse troço. Não mesmo…”.

* Pedro Só é um jornalista carioca com passagens por algumas das principais redações do país. Este texto foi publicado originalmente na revista Bizz.

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