A bossa psicodélica de João Donato

O João Donato mau (ou maldito) – com cara de traficante colombiano, como aparece na capa do disco A Bad Donato – serviu primeiro para assustar aos que estavam acostumados ao seu estilo. Saía Donato de estilo suingado, com piano bossa nova temperado com calientes ritmos do Caribe, e entrava o Donato elétrico, influenciado pelo jazz-rock, por Jimi Hendrix e por James Brown.

>> Leia o texto de Pedro Só: A trip de Bad Donato

Em 1970, João Donato – já mais de uma década morando nos EUA (mudou-se para lá em 1959) e com trabalhos com Mongo Santamaria (quando saiu do conjunto foi substituído por Chick Corea), Tito Puente e Cal Tjader – decidiu gravar em Los Angeles um disco em que fizesse uma fusão de MPB com jazz, funk rock e eletrônica.

Agora, em plena fase de incontinência fonográfica – nos últimos tempos, entre lançamentos e relançamentos, mais de uma dezena de CDs seus foram colocados no mercado -, Donato pode ter seu disco devidamente avaliado no panorama de sua obra. Mais comentado do que ouvido, A Bad Donato, lançado pela pequena Blue Thumb, saiu de catálogo tão logo havia sido lançado. Foi durante anos um dos mistérios mais bem guardados da fértil carreira musical do acreano. No Brasil, nunca chegou a ser comercializado até ter uma versão em CD lançada pela gravadora Dubas. Nesse período todo, o disco, talvez até por influência do nome, tornou-se “maldito”, ainda que o próprio autor deboche da sua fama de mau, como evidencia a foto da contracapa em que ele aparece “fantasiado” de hippie.

Como confessa no encarte que acompanha o CD, Donato não sabia o que queria nem como gravaria. Ganhou autorização da gravadora para comprar os instrumentos que achasse necessário e tempo para ficar em casa descobrindo como tirar cada som dos teclados.

Quando entrou nos estúdios, Donato já tinha ideias mais claras. Pretendia usar instrumentos em dupla (duas guitarras, dois trompetes, dois pianos, dois trombones, duas baterias…) e sabia também com quem queria cercar-se: músicos americanos com quem já trabalhara (o saxofonista Ernie Watts, o flautista Bud Shank, o trompetista Jimmy Zito, o clarinetista Don Meza) e velhos parceiros do tempo da bossa nova, como o baterista Dom Um Romão e o violonista Oscar Castro Neves (ambos também morando havia anos nos EUA). Quando já estava no estúdio, Donato recebeu telefonema de Eumir Deodato que, entusiasmado com o que ouviu, se ofereceu para fazer os arranjos. Foi aceito. Muitos músicos convocados por Donato integraram a orquestra de Stan Kenton, o que de certa forma fechava um ciclo na carreira do músico brasileiro: era Kenton seu modelo de compositor-arranjador quando começou a tirar as primeiras notas do piano, nos anos 40.

O Donato músico – o João que não gosta de poesia, como definiu Caetano em Outro Retrato – também se sentiu mais à vontade por poder fazer um disco instrumental, indo na contramão do que o público americano esperava da bossa nova (o canto suave de Astrud e João Gilberto, o sax tenor de Stan Getz…) e se mimetizando com o que havia de mais contemporâneo na música popular dos EUA. Donato não flagrava apenas o vanguardismo musical. Em A Bad Donato, que reúne dez composições próprias e inéditas, ele se mostrava antenado com o que acontecia na época, do psicodelismo ao movimento hippie, do interesse pela astrologia às experiências com o LSD.

Basta ver o nome de algumas das composições, como Celestial ShowersLunar Tune e Straight Jacket. O disco também seria um antecipador da onda discoteca, além de servir de modelo para trabalhos posteriores tanto de conterrâneos de João Donato (como o antigo parceiro Dom Um Romão, o percursionista Airto Moreira, o trombonista Raul de Souza e, principalmente, Eumir Deodato, que alcançaria sucesso planetário com sua versão de Also Sprach Zarathustra) quanto de músicos americanos, como o tecladista George Duke, o contrabaixista Stanley Clarke e o vibracionista Cal Tjader.

Dois anos depois, como não havia mais nada para explicar para os americanos, João Donato deu por encerrada a sua temporada nos Estados UnidosA. Com o cachê arrecadado com o disco, ele compraria uma passagem de avião – e voltaria ao Brasil definitivamente.

* Este texto foi publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

 

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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