Quem sabe um amanhecer… após uma longa noite

Marcos Abreu* lamenta o fechamento da AIR Studios e conta o que há dentro das grandes instalações

A AIR Studios, uma das maiores e mais célebres instalações de gravação do Reino Unido, está à venda. O preço não foi divulgado. Até porque parece ser impossível dimensionar o valor de um local fundado por George Martin, primeiro na Oxford Street, em Londres, em 1969, e depois em Lyndhurst Hall, desde 1992 – e que recebeu artistas como Paul McCartney, Van Morrison, Joni Mitchell e Paul Weller.

Foto: AIR Studios
Fundado por George Martin, o estúdio à venda recebeu artistas como Paul McCartney, Van Morrison, Joni Mitchell e Paul Weller (Foto: AIR Studios)

A história começa lá pelo meio dos anos 80, quando as grandes gravadoras começam a perder dinheiro com as decrescentes vendas de CDs. Houve então uma limitação nos valores pagos aos grandes estúdios e uma troca. A gravadora deixaria de pagar horas e horas gastas nos estúdios e colocaria valores fechados nas mãos de um produtor. Esse por sua vez se encarregaria de fazer tudo e entregar à gravadora um trabalho pronto.

Isso, e a facilidade de aquisição de novos equipamentos digitais, fez com que muitos produtores, com o dinheiro ganho nas suas produções, comprassem seus próprios equipamentos e investissem no seu próprio negócio.

A tecnologia permitiu então que muitos produtores e músicos levassem o trabalho para casa, ou melhor, para os próprios estúdios. Os estúdios domésticos se tornaram tão populares que quase todo músico tem pelo menos algum tipo de equipamento de gravação dentro de casa. Para o produtor musical, gravadora ou artista, esses “estúdios” economizam muito dinheiro.

O problema é que isso não foi o melhor para os grandes estúdios. Os músicos não estão apenas escolhendo fazer ou gravar a sua música, mas também produzem e gravam a música de outras pessoas por uma fração do custo. As razões, econômicas,  culturais, mais as mudanças na forma de arrecadação, distribuição digital de música, legítima ou não, prejudicaram todas as fontes de receita tradicionais de músicos, gravadoras e estúdios.

Os efeitos colaterais foram tão previsíveis quanto devastadores para todo um tipo de negócio, fazendo com que dezenas de estúdios deixassem de existir em duas décadas. Um artigo do Los Angeles Times de 2009 dizia que mais da metade dos grandes estúdios da cidade fechou ou foi vendida para uso privado.

Dois exemplos são os clássicos estúdios de NY, Hit Factory (fechado em 2005, virou um condominio) e Avatar (antigo Power Station) vendido para a Berklee e novamente nomeado Power Station, agora como parte da Berklee School of Music. Mesmo com centenas de discos de ouro e muitos Grammys, não resistiram as mudanças no mercado. A própria Sony Music fechou seu grande estúdio em NY. E o famoso Abbey Road, fundado em 1931, andou perto de fechar várias vezes.

No Brasil muitos dos grandes estúdios fecharam ou foram absorvidos por técnicos ou produtores. Alguns não sobreviveram nem a isso. Porém deve ser dito que essa mudança foi responsável por um aumento no trabalho dos sobreviventes, os estúdios menores, os domésticos, e alguns dos grandes. Eles buscaram a transformação, melhorando instalações e equipamentos, reduzindo custos e buscando clientes e produtores para seguir no mercado.

Ainda há um desejo por parte de artistas e produtores de usar um grande estúdio em Nova York, Los Angeles ou Londres, teoricamente esses são os únicos lugares que podem oferecer a infraestrutura que eles querem ou precisam. Li uma vez que no dia em que você encontrar um dentista que faça a sua consulta confortável e indolor, ele pode estar a 400 quilômetros de distância, que você vai até lá.

Mas, afinal, tem diferença? O ex-gerente de um dos grandes disse: “Você não pode reproduzir o som de uma sala, a menos que tenha a sala”. Digo o mesmo sobre microfones e outros equipamentos. Para dizer a verdade, as grandes salas fazem toda a diferença. A variedade de equipamentos de verdade, não emulações, muitos microfones, que você pode escolher qual vai utilizar para captar cada coisa exatamente como deve, um console, que facilita muito a mixagem de muitos canais, tanto na visualização quanto na operação, enfim são muitos fatores a considerar a favor das grandes instalações. Até a moça do cafezinho, a recepcionista, a sala de jogos e o estacionamento para as limusines.

A grande questão que permanece é: como se paga por isso?

O que se vê hoje é um mercado que volta a se movimentar, lentamente buscando formas de se recuperar financeiramente. Um mercado que foi literalmente derrubado pelo mercado de música ilegal e por baixas remunerações nas vendas digitais.

Em 2017, as receitas nos Estados Unidos aumentaram 16,5% em relação a 2016. Estes aumentos foram impulsionados por mais de 35 milhões de assinaturas pagas nos meios de stream, com um crescimento de 56% em relação ao ano anterior. Esta foi a primeira vez desde 1999, que as receitas de música dos EUA cresceram materialmente por dois anos seguidos. Mesmo assim ainda existem distorções no mercado que privam os artistas e compositores de suas justas remunerações.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

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