Chet in Rio

Pedro Só* lembra a vinda de Chet Baker ao Brasil para a primeira edição do Free Jazz.


Chet Baker em ilustração de Gilmar Fraga
Chet Baker em ilustração de Gilmar Fraga

Chet Baker já chegou aprontando. Quer dizer… não chegou. Não chegou no domingo, não chegou na segunda, não chegou na terça, não chegou na quarta, não chegou na quinta… Foram ao todo cinco canos na produção do festival. “Parece que ele influenciou João Gilberto nisso também”, observou o espirituoso Ruy Castro, em cima do lance, na Folha de S. Paulo.

Chet não era apenas um legendário trompetista e vocalista de jazz. Aquilo que os brasileiros finalmente poderiam ver ao vivo estava mais para mito romântico. Um mito construído a partir da trajetória decadente e da imagem de galã beatnik, sonorizado por passagens musicais sublimes para carimbar a autenticidade. Mito mito, mito mesmo. “James Dean do jazz” e “anjo caído” eram dois dos clichês mais repetidos sobre ele – e, como os melhores clichês, se aplicavam perfeitamente.

Chesney Henry Baker seria servido como prato principal do Free Jazz Festival, uma novidade que a multinacional do tabaco Souza Cruz estava lançando no calendário de eventos nacionais. Em 1984, duas meninas baianas de 23 e 24 aninhos tinham proposto à empresa um projeto com o nome de Festival Internacional Free de Música Instrumental. Com pouca experiência, mas bom gingado, as irmãs Sylvia e Monique Gardenberg superaram todas as expectativas (inclusive as delas mesmas) já na primeira edição.

Depois do banquete fast food do Rock in Rio em janeiro, teríamos um opulento bufê de iguarias de delicatessen: o colosso do sax Sonny Rollins, o flautista Hubert Laws, o piano supremo de McCoy Tyner, a guitarra límpida do mestre Joe Pass, o sax alto de Phil Woods, o gaitista belga Toots Thielemans bluesetteando, o ídolo do “jazz jovem” Pat Metheny, o fenômeno vocal Bobby McFerrin (com a vantagem de ainda não ter virado refém da oligofrênica “Don’t Worry, Be Happy”, só cometida em 1988)… Uma total comoção, reforçada ainda pelo cardápio nacional que trazia os imperdíveis Radamés Gnattali e Moacir Santos.

Quem gostava de todos esses cobras do jazz gostava de Chet, claro. Mas quem venerava e estava perdendo o sono com a perspectiva de ver um show dele era outro pessoal, fã de música popular brasileira. O disco Chet Baker Sings, lançado nos Estados Unidos em 1954, tinha sido legendário entre a turma da bossa no final daquela década. Era apreciado menos pelo trompete do que pelos vocais. Quase conversando, falando baixinho, sem vibrato, as interpretações do músico tinham um quê da tradição brasileira. Para ouvidos privilegiados iguais aos de João Gilberto, Chet cantando “My Funny Valentine” indicava um caminho a seguir. Todo mundo que reverenciava o baiano, mais cedo ou mais tarde acabava indo ouvir o americano e virando devoto dele também.

Fica difícil de acreditar, mas é o que conta a biografia No Fundo de um Sonho, de James Gavin: quando chegou ao Hotel Nacional para o show, em 11 de agosto de 1985, a única pessoa que não sabia do culto brasileiro a Chet Baker era Chet Baker. Coisa de louco. Em 1966, ele tinha tocado com João Donato na Califórnia. Em 1980, em Paris, chegou até a gravar disco com o Bôto Brazilian Quartet, que incluía o baterista José Boto e um jovem pianista chamado Rique Pantoja. Não é possível que ninguém tenha lhe falado de sua importância para a bossa. Provavelmente contaram e ele esqueceu, ou estava chapado demais para registrar. Chet, na flor de seus 54 anos, era um junky incorrigível.

A produção do festival precisou cortar um dobrado para garantir que a lenda viva continuasse viva e funcionando. Com autorização da Polícia Federal foi descolada uma droga similar à metadona e capaz de evitar as síndromes de abstinência de heroína. Assim como Rique Pantoja seria o band-leader do grupo que tocaria com Chet, administrando eventuais contratempos com o da ausência nos ensaios, o médico Walter Almeida estava encarregado de segurar a onda química da fera. O resto, a namorada de Chet, Vavra, tentaria administrar.

O primeiro show, dia 11 de agosto, no Teatro do Hotel Nacional, deixou os fãs de Chet Baker Sings entre o decepcionado e o indignado. Ruy Castro, por exemplo, chamou a formação que acompanhava o trompetista de “banda carnavalesca”. Na mesma Folha de S. Paulo, o crítico João Marcos Coelho deu as seguinte tintas à noite:

“Num clima de adoração mística, Chet Baker entrou no palco vestindo uma camiseta preta com calças azuis e sandálias. Na plateia, Caetano Veloso, Elba Ramalho e Beth Carvalho, entre outros da MPB, dispostos a conferir ao vivo suas relações com a nossa música popular. Chet tirou os óculos e sentou imediatamente. Só levantou duas vezes: para ir embora e, no meio terceira música, para reclamar claramente ao baterista Bob Wyatt, que insistia em fazer um som pauleira, justamente o contrário de tudo o que Baker quis, artisticamente, da vida. (…) Enquanto Baker procurava imprimir um som intimista, soft, em suma, cool até a medula, o espaventado Bob e o flautista italiano Nicola Stilo, coadjuvados pelos teclados de Pantoja, faziam exatamente o contrário. O mal-estar de Chet foi visível. Ele só se acalmou – ou melhor, resignou-se – da metade para o final do show. ‘Corcovado’, de Jobim, não foi bem por causa disso. Na música de Tom, Chet fez scat singing, improvisando com a voz como se estivesse tocando seu trompete. Em outros temas, cantou a letra – como em ‘Love For Sale’, ‘Just Friends’ e ‘My Foolish Heart’- e aí evidenciou-se para toda a plateia por que ele é tão aparentado à bossa nova. Afinal, foi do west coast californiano do início dos anos 50 – no qual foi figura-chave – que a bossa nova estabeleceu-se como linguagem”.

O veredicto final de Coelho era interpretativo: “Aparentemente, o show foi mediano. Mas, a sério, foi desastroso o choque estético”. O próprio Rique Pantoja comentaria, anos mais tarde: “Para quem esperou a vida inteira e o encontrou cochilando numa cadeira, chapado, com suas sandálias surradas (…) Era uma coisa muito deprimente”. Zuza Homem de Mello, curador do festival, lembra que a performance esteve longe de ser ruim. “Não teve nada de desastre. Ele apenas não cantou ‘My Funny Valentine’. Quem conhecia jazz sabia o que esperar de um grande músico que, por força dos hábitos, podia ou não estar num dia ruim.”

            Os hábitos, benditos hábitos, mandavam no homem. O show no Hotel Nacional foi num domingo, e durante a semana rolaram jams no bar Jazzmania, um pequeno paraíso que funcionava em Ipanema, pertinho do Arpoador. Ali, na camaradagem com os colegas músicos, Chet ganhou presentinhos embrulhados em papelote e fez a festa. Misturada à droga que o doutor lhe dava diariamente, o efeito lembrou o da speedball, sua onda predileta no fim de carreira junkie. Se houve uma paixão brasileira para Chet, foi a brizola (no Rio dos anos 80, ninguém chamava cocaína pelo nome, era só brizola – talvez pelo fato de a droga já estar governando o pedaço).

E foi nessa batida que ele chegou a São Paulo, onde entregaria ao povo o que o povo queria. O produtor Paulinho Albuquerque sugeriu a inclusão no roteiro de “My Funny Valentine” e outros standards do disco Chet Baker Sings, e deu tudo razoavelmente certo. Os dois mil que pagaram para ver o show no Anhembi no dia tiveram o seu Valentine’s Day em 21 de agosto.

À noite, porém, o hotel Maksoud viveria uma noite movimentada. Paulo foi chamado ao quarto do músico, e o encontrou caído, olhos vidrados, banhado em suor. A imagem do rostinho de querubim todo vincado de rugas ainda não tinha sido explorada pelo fotógrafo gay Bruce Weber. Ao vivo, ali, na lata, e daquele jeito, não havia glamour nem poesia. Paulinho achou que iria presenciar a morte da lenda viva. Chet tinha descolado morfina, cocaína e possivelmente anfetaminas. Por pouco não perde o voo de volta.

Ele ainda viveria para registrar versões magistrais de uma linda canção relativamente nova, “Almost Blue”, de Elvis Costello. Em 1986, passaria por breves três meses sem drogas, fazendo belos shows pelo Japão. Em junho do ano seguinte, teve outra performance memorável, gravada para um programa de TV japonês e depois transformada no CD Chet Baker In Tokyo. Em 1988, ainda faria na Itália Chet On Poetry, tocando, cantando e lendo versos, antes de pegar o último voo de sua vida, em 13 de maio. Tinha 59 anos ao aterrissar no chão, na frente de um hotel barato em Amsterdam.

* Pedro Só é um jornalista carioca com passagens por algumas das principais redações do país. Este texto foi publicado originalmente no livro 1985 – O Ano Em Que o Brasil Recomeçou, de Pedro Só e Edmundo Barreiros, Ediouro, 2005.

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