Hermeto sem fronteiras

Tárik de Souza conta como o quarteto poliglota do gaitista Gabriel Grossi reverencia o mestre Hermeto Pascoal

Para ser lido ao som de Gabriel Grossi em Hermeto Universal

Foto: Gabriel Grossi/Divulgação

Como revisitar a obra de um criador fluido, torrencial, cuja caligrafia é parte do processo de fabulação? Esse é um dos desafios a que se propuseram quatro grandes músicos de nacionalidades diferentes, liderados pelo gaitista carioca Gabriel Grossi no álbum Hermeto Universal. Caetano Veloso, em Podres Poderes, não por acaso, cunhou a expressão “hermetismos pascoais” para definir o, literal, fenômeno.  O pianista/tecladista francês de jazz Laurent Coloundre, 37, é um dos cultores do Bruxo, que estuda sua obra desde os 17. A Silvio Essinger, de O Globo (26/05/2026), relatou a coincidência funesta: tinha um show marcado com Grossi para o Rio, e desembarcou no dia do velório do músico alagoano, no ano passado. Mas a tristeza converteu-se quando começaram a tocar e resolveram dar início a um projeto envolvendo a obra do imponderável Hermeto Pascoal (1936-2025). O grupo Snarky Puppy fazia show no Rio e seu baixista, o americano Michael League acabou incorporado ao projeto, complementado pela inclusão do baterista cubano Ruy López-Nussa, já no estúdio da gravação, em Barcelona.

De todos eles, Grossi, 47, é o de mais longa convivência com o celebrado, que conheceu no Clube do Choro, em Brasília, e acabou integrando sua banda escola (“ele meio que virou um padrinho meu”). Mas seu currículo é robusto e diversificado, a ponto de ter arrancado altos elogios do próprio homenageado: “É o melhor tocando seu instrumento”. E de uma sumidade da harmônica, o belga Toots Thielemans: “É um verdadeiro mestre”. Grossi tem 15 discos em seu nome, participações e parcerias com ases brasileiros e internacionais como Wynton Marsaslis, Chico Buarque, Dave Mathews, Beth Carvalho, Milton Nascimento, Guinga, Djavan, Ivan Lins, João Donato, Lenine e Dominguinhos, a quem prestou tributo no disco Domingou, com o multinstrumentita Arismar do Espírito Santo, em 2023, ano em que ganhou o prêmio Profissionais da Música, na categoria “melhor artista instrumental brasileiro”. Foi integrante do Hamilton de Holanda Quinteto, conjunto vencedor do Prêmio da Música Brasileira, de 2007, e finalista do Grammy Latino por três vezes seguidas.

Também foi parceiro do exímio clarinetista Paulo Moura, com quem atuou de 2003 até seu falecimento. E ainda dividiu estúdios com os violonistas Marco Pereira, Felix Junior, Jurandir Santana, o pianista Amilton Godoy (Zimbo Trio), o acordeonista Bebê Kramer, a pianista italiana Stefania Tallini e o cellista Jaques Morelenbaum. Com o parceiro Alex Rossi, no álbum We do it out of love reuniu vários harmonicistas internacionais para homenagear Toots Thielemans, nos seus 94 anos. Para outro mestre, em Viva Mauricio Einhorn, com o parceiro Pablo Fagundes, convocou 26 gaitistas brasileiros numa celebração de sua obra aos 85 anos, em 2017. Já em Plural, foi sua vez de ser incensado, num repertório autoral, com desempenhos de Lenine, Jacob Collier, Anat Cohen, Seamus Blake, Zélia Duncan, Yamandu Costa, Omar Sosa, Leila Pinheiro e, não por acaso, Hermeto Pascoal.

“Hermeto foi na cozinha/ pra pegar o instrumental/ do facão à colherinha/ tudo é coisa musical/ trouxe concha e escumadeira, ralador, colher de pau/ barril, tirrina e peneira/ tudo é coisa musical”. A ode afetiva Chá de Panela (1996), de Guinga e Aldir Blanc, à incorporação do elemento sonoro aleatório a execução do apelidado Bruxo, desviou um pouco o foco do essencial de sua caligrafia. Algo que Hermeto Universal procura reposicionar. Como discerniu Grossi na entrevista: “O Hermeto conquistou espaço pela figura excêntrica, por essas loucuras de tocar chaleira, mas o importante é ele ser o criador de uma escola musical, de toda uma maneira de composição e de improvisação. Ele formou muita gente no quesito técnico, mas também no jeito de enxergar a música, de desbravar, de não ter medo”.

Em certa medida abordado por um viés mais pop, o repertório não evita os standards, se é que alguma composição do implacável inovador pode ser rotulada assim. Lá estão dois deles. O baião Bebê, numa reformulação de timbres e texturas, pelo quarteto, alternância de climas, escalas e acelerações, infiltradas pelo toque macio do convidado (mais uma nacionalidade) Ibrahim Malouf, trompetista libanês. O tortuoso Chorinho pra Ele viaja, às vezes vertiginosamente, ora ralentando, pelas escarpas projetadas pelo autor, sobre cama de teclados e eventuais pinceladas fusion, encerradas num corte súbito, pouco após seus três minutos de viagem. O aboio encantatório da cantora indiana Varijashree Venugopal dilata ainda mais as latitudes estéticas de Montreux, a composição em que Hermeto louva a cidade suíça, cujo festival de jazz ajudou a projetá-lo em definitivo internacionalmente. Com um mote recorrente, De Sábado para Dominguinhos incorpora o timbre da cantora Vanessa Moreno, numa alternância de narrativas entre música e fala transfigurada pela gaita guia.

O percussionista Fábio Pascoal, filho de Hermeto, é um dos convidados das multi latitudes da Suíte Norte Sul Leste Oeste, ao lado da soprano francesa Laura Dausse. Fragmentos rítmicos seccionados pelo quarteto, são alicerçados pelo baixo pontiagudo, teclados rodopiando, bateria em tropel e a harmônica dando polimento.  O sax do jazzista americano Cris Potter instala assimetria na Ginga Carioca com a gaita reversa, percussão inconstante, sob mediação dos teclados intervalados. Sax flautista espanhol ligado ao flamenco, com atuações ao lado do grande violonista Paco de Lucia, Jorge Pardo colore a densa Canção no Paiol em Curitiba (dedicada ao célebre teatro da cidade), palmilhada por bongôs. Furtiva, com muitas modulações, retomadas e dissonâncias, Capivara, a faixa mais longa do disco, de quase seis minutos, acolhe os improvisos dos sopros de outros convidados (da França), Christelle Raquillet e Baptiste Herbin.

Composta pelo tecladista Laurent Coulondre para o homenageado, a faixa título, Hermeto Universal abarca um perfil eclético do criador, com cada elemento do quarteto acrescentando texturas próprias ao quadro semovente. As filhas gêmeas de Grossi, com alegres interjeições infantis, adornam a vinheta Som da Aura e Catarina e Teresa, parceria do líder com o homenageado, que participa ao piano, num entrançado onírico de improvisos surpreendentes. Escoltado apenas pelos teclados de Coloudre, Gabriel espraia-se no resfolego das escalas e vocal acoplado, que esculpem um vibrante e solar Domingo Pascoal, pedestal à altura do gênio entronizado pelos sons circunstantes. Como o próprio Grossi define: “Trata-se de uma arte sem fronteiras, guiada pela liberdade e pela inventividade, que definem seu legado e expressam o poder transformador da música”.

Nenhum pensamento

  1. Oi Tarik, tudo bem? Pra variar, ótima matéria. Eu queria muito te mandar ou entregar o Heróis e Heroínas da MPB que preparei junto com o artista Eduardo Baptistão. Tenho certeza que voce vai gostar. É uma caixinha (de 8 por 10 cm) que homenageia 52 grandes mestres da nossa música com caricaturas, mini biografias e uma playlist para cada um. Já está nas livrarias. Se tiver uma forma de eu te mandar, por favor avise em geleite@sing.com.br. Grande abraço e lembro que o teu livro sobre o João e a Bossa Nova é o melhor já publicado.

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