Milhas à frente

Tárik de Souza se soma às homenagens do centenário do impermanente Miles Davis

Para ser lido ao som de Miles Davis em Miles Ahead

Foto: Dr Jean Fortunet/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons

O nome já diz tudo: Milhas! Davis, Miles Dewey III (1926-1991) nunca foi dos 100 metros rasos. Era um maratonista, saltador de obstáculos, sempre milhas à frente dos contemporâneos. Miles Ahead, como trocadilha seu título de 1957, devotado ao third stream jazz em acoplagem erudita. Ou Milestones como propaga o do ano seguinte, incorporando John Coltrane, Canonball Adderley (saxes), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e “Phily” Joe Jones (bateria). Como cantaria outro dialético demolidor de prateleiras estéticas, Caetano Veloso, “onde queres prazer, sou o que dói/ e onde queres tortura, mansidão/ e onde queres um lar, revolução/ e onde queres bandido sou herói”. Davis decolou no revolucionário bepop, já avalizado pelas sumidades que o ladeavam, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Em Birth of the Cool estabeleceu novos parâmetros para um jazz cerebral, num noneto onde gravitavam entre outros, Gerry Mulligan, John Lewis e Lee Konitz. Saltou para o modal Kind of Blue, a bordo o piano impressionista de Bill Evans, modulado pelo swing nos teclados de Wynton Kelly, o sax sobrenatural de John Coltrane, e de novo Cannonball Adderley e Paul Chambers, timaço para reescrever mais uma vez a história.

Um dos poucos músicos brancos para quem batia cabeça, o fabuloso maestro Gil Evans, foi parceiro em Miles Ahead, e numa densa imersão hispânica em Sketches of Spain (1960), com direito ressignificação do popular adagio do Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo. Já a incursão da dupla na bossa nova, em Quiet Nights, em 1963, resultou controvertida. A faixa título, versão em inglês para Corcovado, de Tom Jobim, é inexplicavelmente abalroada por Aos Pés da Cruz, de Zé da Zilda e Marino Pinto – catapultada para o planeta por João Gilberto, após o sucesso inicial de Orlando Silva, em 1942 – num estranho erro de mixagem. Mais incrível ainda é a apropriação (indébita) do clássico folclórico gaúcho Prenda Minha, intitulada simplesmente Song nº 2, assinada pela dupla de jazzistas.

O próprio Davis renega o disco em sua farpada autobiografia, escrita em parceria com Quincy Troupe, em 1989. Nela admite que, em certo momento, ficou contrariado ao ver o público jovem virar as costas para o jazz e marchar com o rock. Foi sua guinada mais radical, prenunciadora de outras. Davis foi atrás das sonoridades roqueiras, sedimentando o subgênero fusion, que fez uma parcela de ortodoxos alvejarem-no com a pecha de traidor, que já tinha acometido Bob Dylan quando abandonou o folk acústico pelas guitarras. Discos como Filles de Kilimanjaro (1968), In a Silent Way (1969) e, principalmente, o recordista Bitches Brew (1970), projetaram um elenco extraordinário de novos músicos afeitos ao entroncamento do acústico com o eletrificado, que mais uma vez, sacudiram as estruturas do jazz. Tecladistas como Chick Corea, Joe Zawinul e Herbie Hancock, baixistas do naipe de Ron Carter e Dave Holland, os bateristas Jack DeJohnette e Billy Cobham, o saxofonista Wayne Shorter, o guitarrista John McLaughlin. Deste último álbum e do posterior, Live Evil (1971), com a adesão ainda do supremo Keith Jarrett, participaram o catarinense Airto Moreira, responsável pela expansão timbristica da percussão e o alagoano Hermeto Pascoal, que contribui com três composições (IgrejinhaNem um TalvezSelim; Miles ao contrário) surrupiadas ao bruxo pelo titular da obra.

Na sua fome de novos horizontes estéticos, Miles chegou a planejar um duo com o guitarrista Jimi Hendrix, a quem admirava, e ainda queria adicionar o baixo de Paul McCartney à experiencia. O projeto acabou não sendo realizado por causa da morte precoce de Hendrix. Mas Miles mergulhou de cabeça no pop, no combatido You’re Under Arrest (mal traduzindo; Teje Preso!), de 1985, onde ele reciclou de Michael Jackson (Human Nature) à rival de Madonna, Cindy Lauper (Time After Time). No ano seguinte, com o ígneo baixista Marcus Miller envolveu-se com ruidosos sintetizadores e baterias eletrônicas em Tutu. E dobrou a aposta multinstrumentista de Miller, com grande elenco, em Amandla (1989), que além de George Duke (teclados), contou com outro brasileiro ilustre, Paulinho da Costa (percussão), recém contemplado com uma estrela na calçada da fama de Hollywood. Querendo aproximar-se do som que ouvia nas ruas, Miles associou-se ao produtor de hip hop Easy Mo Bee no derradeiro e semipóstumo Doo-Bop, lançado em 1992, ano seguinte à sua morte, com algumas faixas adaptadas. Em 1993, esta arrojada ponte entre o bebop e o hip hop ganhou o Grammy de “melhor performance instrumental de R&B”. Davis instalou nas milhas e milhas de jazz que percorreu o princípio da revolução permanente. Como dizia uma de suas máximas: “Não toque o que está lá, toque o que não está”. 

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Autor: Cássia Zanon

Tradutora e jornalista

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