De volta à varanda do Antonio’s

José Antônio Severo* estreia na AmaJazz lembrando sua proximidade com o grande cronista José Carlos Oliveira

Para ser lido ao som de Paulo Moura em Confusão Urbana, Suburbana e Rural

Foto: Arquivo Nacional/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Arquivo Nacional/Domínio público/Wikimedia Commons

Carlinhos Oliveira, como o escritor e cronista José Carlos Oliveira gostava de ser chamado, colunista diário do Jornal do Brasil nos anos 50, 60, 70 e parte dos 80, foi o último lírico de uma geração a permanecer na ativa, escrevendo diariamente uma coluna de jornal. Nos seus últimos tempos, seus contemporâneos já tinham pendurado as chuteiras, enquanto ele, solitário, em meio à uma mídia literária crescentemente engajada em diversos movimentos jornalísticos, políticos ou literários, ia ocupando os espaços dos poetas e beletristas. Todos fazem falta.

Um pouco mais jovem que os demais (só por isto foi o último a nos deixar), Carlinhos ou Charlot, como também era chamado pelos amigos de copos e bares, fez parte da última geração de cronistas da imprensa carioca iniciada (assim se diz) por Machado de Assis, no jornal Gazeta de Notícias. Na virada do século 19 para o 20, essa literatura teve como expoentes, nas gerações seguintes, o célebre João do Rio (também considerado fundador do movimento) e, na sua última leva, o grupo inigualável capitaneado pelo capixaba Ruben Braga, e integrado, com igual brilho, por Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Henrique Pongetti, Rachel de Queiroz, dentre outros. No Rio Grande do Sul, a corrente também teve suas expressões, como Adel Carvalho, Antônio Carlos Ribeiro, Mário de Almeida, Sérgio Jockymann, Ruy Carlos Ostermann, Ibsen Pinheiro e, ainda, temporão que nem Carlinhos, o santanense Kenny Braga, na Folha da Tarde, levado pelo também cronista renovador Walter Galvani, na época secretário de redação do vespertino da Caldas Junior. (Houve outros. Peço desculpas, mas não dá para citar todos os contemporâneos. Relembro os que foram meus amigos pessoais).

Carlinhos fez parte da imprensa gaúcha, com sua crônica diária, vendida pelo Jornal do Brasil, publicada na Zero Hora, nos tempos de Ary de Carvalho, ali por 1966, 1967. Nas suas férias anuais, era substituído por Carlos Nobre, com uma coluna de humor. Em 1967, estando Nobre com problemas para cobrir as férias do titular, o diretor de redação do jornal, Paulo Amorim, aproveitou a brecha e escalou para tapar o buraco (dizia-se assim) o editor da página de variedades, o redator estreante Luis Fernando Verissimo. Consequência: Carlinhos não voltou à ZH. O gaúcho ganhou a posição no primeiro jogo e nunca mais perdeu o posto. Luis Fernando não apenas fez uma revolução da crônica jornalística brasileira, como deixou para traz os líricos da belle époque. A única reação do cronista carioca à perda do freguês foi, numa entrevista ao CooJornal, de Porto Alegre, instado a dar uma palavra sobre os demais cronistas em atividade, dizer que Verissimo era um “brasilianista”. Aí estava o ferino Charlot: “Perco um amigo, mas não perco a piada”, disse, numa alusão sem sentido às influências mais modernas do escritor riograndense; não perdia uma frase. “Pour epater le foie gras”, como dizia, numa paródia. a jornalista carioca Flávia Villas-Boas (então mulher do jornalista gaúcho Roberto Manera), comentando a língua cortante de Carlinhos.

Para se ter uma ideia da sua língua, vale lembrar sua tirada numa tarde carioca, em plena varanda do Antônio’s, numa mesa de celebridades, dentre as quais o escritor Dias Gomes, que lamentava irado a proibição de sua telenovela Roque Santeiro, na Rede Globo. Ante a lamúria do autor, Carlinhos desferiu: “Deixa para lá, Dias: você não é o maior dramaturgo nem na sua casa”. Dias Gomes era casado com Janete Clair, a mais popular figura da dramaturgia televisiva naquele tempo, 1975. Carlinhos era assim, na lata, de viva voz ou por escrito. Adolfo Bloch morria de rir. Dias Gomes nunca o perdoou.

A ligação com o Rio Grande não ficou só na coluna na Zero Hora. Embora nunca tenha visitado o Estado (Carlinhos só viajava, além do Sudeste, para Europa, com primeiro pouso em Paris – típico dessa última geração francófila), ele foi cercado por mulheres gaúchas nas suas últimas duas décadas de vida. Embora sem papel passado, foi casado com a porto-alegrense Maria Carvalho Duhá, a Cotinha, hoje Maria Duhá-Klinger, mulher do advogado de Wall Street Andrew Klinger e socialite em Nova York. Cotinha levou para a vida de seu então marido suas antigas contemporâneas do Colégio Bom Conselho, em Porto Alegre (e também colegas na Faculdade de Jornalismo da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde as três se graduaram), as gaúchas já então radicadas no Leblon, Conceição Mendes Rocha, a Tita, casada com este locutor que vos fala, e Ana Luísa Job, mulher do compositor e músico Antônio Adolfo. Também integrava o grupo a atriz da Rede Globo Maria Cláudia, casada com o gaúcho Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do Pasquim. Cotinha, neta do escritor Adel Carvalho, foi o anjo da guarda de Carlinhos, mesmo depois que o casal se separou. Ela cuidava dele em vida e, depois, foi sua inventariante.

Em começos de 1968, Cotinha, com 20 anos, casou-se com Carlinhos e foi morar com ele no Rio. Eu e Conceição já havíamos mudado para São Paulo e, anos depois, fui para o Rio de Janeiro chefiar a sucursal da Gazeta Mercantil. Entretanto, mantínhamos contato estreito com Cota e Carlinhos. Fim de semana aqui outro lá. Ana Luísa também se mudou para o Rio e se casou com Antônio Adolfo. Cota foi trabalhar na TV Globo e lá ficou amiga e trouxe para a turma a atriz Maria Claudia, então uma das principais estrelas das novelas. E assim se formou o grupinho, que acompanhou Charlot até seus últimos dias de vida. Charlot cercado e paparicado por três mulheres gaúchas.

Carlinhos separou-se de Cotinha, mas ela nunca deixou de cuidar dele e de sua saúde e de seus interesses, pessoais e profissionais. Em 1979 ela mudou-se para Nova York, com um contrato para dar aulas de português aos executivos norte-americanos do Banco Moreira Salles (depois Unibanco) e com uma bolsa da New York University para uma pós-graduação em jornalismo. Ele voltou a se casar com Claudinha Gonçalves, norte-americana, filha de um descendente de imigrantes portugueses, daí seu nome lusitano. A nova esposa não tinha ciúmes e aceitava que Cotinha continuasse a recolher a crônica diária, todas as tardes, para levar à redação do Jornal do Brasil, pagar suas contas e organizar suas agendas, porque ele só confiava na ex-mulher para administrar sua vida pessoal e profissional. Mesmo morando nos Estados Unidos, ela conseguia de lá, de Manhattan, fazer tudo funcionar para ele no Rio de Janeiro.

Nesse ano de 1979 houve uma mudança radical na vida de Carlinhos. Ele estava em Paris. Uma crise gástrica violentíssima quase o matou. Foi recolhido no hotel e mandado para à morte para UTI de um hospital púbico. Foi uma correria. O embaixador na França era Delfim Netto. Em poucas horas movimentou a diplomacia brasileira para dar apoio ao jornalista moribundo. Sendo jornalista de economia, conhecia Delfim e movimentei o diplomata; mas já a condessa Carneiro Pereira, dona do Jornal do Brasil, e Walter Fontoura, diretor da redação, tinham acionado a Embaixada. Ele se salvou. Na volta, escreveu sua experiência numa série de crônicas contando como funcionava a saúde pública na França, um sucesso total. Entretanto ele voltou proibidíssimo de sequer passar diante de uma garrafa de bebida alcoólica. Carlinhos sem álcool ficou mais sisudo, mas sempre brilhante numa roda de conversa. Um dos convivas, o escritor paulista João Antônio, dizia que Charlot era “primus inter-pares” naquele grupo. Afinal, era o único efetivamente famoso (na Zona Sul do Rio havia uma diferença entre famosos e manjados). Carlinhos gostava do afago do “escritor maldito”, como a crítica o denominava. Um elogio desses vindos de João Antônio era uma raridade. Carlinhos valorizava.

No Leblon tínhamos nossa base de operações. Terminados os expedientes dos empregos, poucos, pois boa parte de nosso grupo de bar e copo eram profissionais sem compromisso de horário ou expediente. Não batiam ponto Carlinhos, João Antônio, Luiz Carlos Maciel (e seus “conterrâneos” baianos, Paulo Gil, Glauber Rocha e João Ubaldo Ribeiro, quando no Rio, pois ainda vivia na Bahia), Tárik de Souza (crítico de música popular no Jornal do Brasil), os músicos Antônio Adolfo (e seus parceiros Luís Claudio Ramos, arranjador e violonista de Chico Buarque, e Franklin da Flauta) e s jornalista gaúcho Tarso de Castro. No time dos com carteira assinada estavam Paulo Totti, Ismar Cardona (que com Tarso formavam o trio passo-fundense), Euclides Torres (hoje historiador e professor aposentado da UFSM e da UFRGS) e Roberto Manera. Todos trabalhando em O Globo. E mais: Riomar Trindade, Gilberto Paulletti, Uirapuru Mendes (todos da Gazeta Mercantil), o portenho Guillermo Piernes (então UPI e logo depois Reuters) e sua mulher a psiquiatra Cristina Cardoso, depois sra. Euclides Torres. Dos que vinham de São Paulo estavam Belmiro Southier e Guilherme Cunha Pinto, o Jovem Gui, do Jornal da Tarde, e Antônio Carlos Coutinho, o Zuba, hoje presidente da Editora Expansão Sul, de Florianópolis, e sua mulher Regina Echeverria (ambos da Veja), e ainda os publicitários Mauro Salles e Hélcio Ferreira (e sua mulher Carla Balbi). De Porto Alegre, visitavam-nos Elmar Bones e Ivan Pinheiro Machado. Havia outras pessoas, algumas bem conhecidas, produtoras ou ligadas ao jornalismo, à tevê, ao teatro, às artes plásticas e outras “disciplinas” desses segmentos, como era natural no bairro do Leblon naquela época, como, por exemplo, o ator Hugo Carvana e o cineasta Antônio Carlos Fontoura.

Carlinhos era natural de Vitória, no Espírito Santo, migrante para o Rio de Janeiro com um curso de Direito incompleto e uma passagem destacada pela mídia capixaba, onde começou nos suplementos literários, inflado então na vertente aberta por seu conterrâneo de Cachoeiro do Itapemirim, Ruben Braga, na época a estrela máxima da crônica na mídia carioca. Carlinhos chegou ao Rio em meados dos anos 50 e logo começou a se destacar na revista Manchete, contratado pelo próprio dono da publicação, o editor Adolfo Bloch, que ficou encantado com o texto e com a verve do jovem escritor, tão cortante quanto a sua. Era o auge de Copacabana, como centro boêmio do então Distrito Federal. Carlinhos brilhava e embriagava-se nas mesas da cantina Fiorentina, no Leme, e nos escurinhos dos então chamados “inferninhos”, como Vogue, Fred’s, Sasha’s. Era o tempo da “fossa”, tema preferencial de Carlinhos, que ganhou, assim, seu público feminino que o acompanhou até deixar a crônica diária já em meados dos anos 80.

Na década de 70, ele entrou na diáspora de Copacabana que cruzou a ponta do Arpoador e desembarcou na praia de Ipanema, junto com a alegre juventude liderada pelo gaúcho Tarso de Castro. Mudaram de praia e de bares, entrando em cena a choperia Zeppelin e o bar Jangadeiro, na Praça General Osório. Entretanto Carlinhos não aderiu à nova moda linguística da turma, continuando a escrever no português clássico e elegante. Em meados dos anos 1970 seguiu a barca e migrou para o Leblon, que foi o território da “intelectuália” até o final do século 20, quando se mudou para o Recreio dos Bandeirantes, na ponta do que normalmente se chama de Barra da Tijuca, seguindo a atração da mudança da Rede Globo para Jacarepaguá, para o reduto hoje conhecido como Projac, que nos tempos do Jardim Botânico era a menina dos olhos de Roberto Marinho.

No Leblon, Carlinhos foi morar na rua João Lira, a 50 metros de meu apartamento, na mesma rua, na quadra da praia, nos tempos em que essa localização não era um metro quadrado proibitivo. Na quadra seguinte, moravam Maciel e Maria Claudia, na rua José Linhares. Ali nesse grupo, em nossas casas, nos encontrávamos fins de semana. Normalmente as reuniões se davam, às noites, nas mesas dos bares Degrau ou Luna, também, à tarde, na varanda do Antônio’s, naquelas imediações.

À noite o Antônio’s ficava muito chique, frequentado por grã-finos deslumbrados, do tipo espanta-intelecas exclusivistas, mas à tarde era quase deserto de frequentadores convencionais. Então, depois do pôr do sol, nos concentrávamos nos dois outros botecos (Degrau e Luna) com seus filés maravilhosos e preços mais de acordo, situados ali nas proximidades da Praça Antero de Quental.

A varanda do Antônio’s era um programa difícil para a maior parte do pessoal de nosso o grupo de jornalistas, que tinham compromissos profissionais com horário. Mas sempre dava para dar uma fugidinha e ali encontrar com a fauna do Leblon, que, dentre outros, incluía, além de Carlinhos, as famosos Chico Buarque, Vinícius, Tom Jobim (que gostava de lembrar suas visitas, nas férias escolares, na infância, à fazenda do avô, em São Gabriel), Tarso, os arquitetos Oscar Niemeyer, Marcos Vasconcellos, Paulo Casé, e outras celebridades como João Saldanha, Freddy Carneiro, Dr. Geraldo Carneiro (pai do poeta Geraldinho), os globais Walter Clark e Boni e mais uma penca de artistas da Globo, como Paulo José, Paulo Cesar Pereio, José Lewgoy, Lillian Lemmertz dentre outros luminares daquela época. Nos fins de semana, quando as praias do Leblon se enchiam de “turistas” de outros bairros ou tribos, que também lotavam os bares à procura de ver em carne e osso os artistas da televisão, o pessoal fugia. E então nos encontrávamos na minha casa ou na do Maciel. Não deixava de ser certa arrogância dos famosos, mas também uma forma de fugir dos olhares e, às vezes, no caso dos atores e atrizes, do assédio dos fãs. Carlinhos não só frequentava, como era uma das estrelas desse “grand Leblon”. Aquela outra turma, apresentada acima, do “sub Leblon”, também transitava na Varanda, mas sem grande assiduidade, pois quase todos tinham compromissos de horário e frequência no dia-a-dia. Mas sempre sobrava um tempinho para fugir da rotina e dar um pulo na Avenida Bartolomeu Mitre para falar com os “superstars” da boemia vespertina. Grandes tempos.

Naquele “senado” Carlinhos era capaz de surpreender com suas tiradas absolutamente estonteantes. Num momento em que o País vivia sob pressão, com o presidente Ernesto Geisel ameaçado de deposição pelo ministro da Guerra, Sylvio Frota, ele descartava uma solução de força, uma saída sangrenta para a ditadura, com uma tese inesperada num ambiente de teóricos e militantes: o Brasil é um país surrealista. Logo, a ditadura terá um desfecho surrealista. Todos se riam como se fosse uma piada. Entretanto, anos depois, quando o ditador João Baptista Figueiredo abandonava o Palácio do Planalto pela porta dos fundos, em 1986, enquanto o novo presidente eleito pela oposição, o ex-presidente da Arena José Sarney, subia a rampa, as pessoas lembraram da previsão feita na dez anos antes na varanda do Antônio’s. Entre risos e piadas, nos tempos da reforma partidária de 1980, ele propunha a criação de um novo partido, que chamava de PPS, ou Pequeno Partido Socialista, muito seletivo e elitista. Ou seja, renegando a vocação inerente aos partidos políticos de serem grandes, majoritários e conquistarem o poder pelo voto. Já no papel em que escrevia suas crônicas, era de um lirismo inigualável. Certa vez ele chegou à varanda gritando: “Fomos enquadrados. O Geisel nos enquadrou!”. Para os ouvintes perplexos, ele explicou: “o general nomeou todos os inimigos da “democracia”, advertindo os dissidentes. “os comunistas, os cripto comunistas, os inocentes úteis e os baderneiros sem fé e sem bandeira. Estes somos nós. Nos enquadraram”. Os copos tilintaram.

Em 1979, Carlinhos voltou ao Espírito Santo. Foi a Vitória depois de quase 30 anos ausente, para resolver problemas legais, ligados à sua família, regularizar umas papeladas relativas à herança de sua mãe, falecida há tempos, mas que estavam pendentes. Ele tivera um relacionamento tumultuoso com os parentes, especialmente com as irmãs. Foi obrigado a se render à burocracia, tantos problemas que estavam lhe causando os embaraços daquele reduzido espólio. Não fosse um outsider e mantivesse sempre distância das formalidades, Carlinhos volta a meia era atucanado por seus homônimos, que davam golpes aqui e ali, e as autoridades iam atrás de um José Carlos Oliveira e acabavam batendo à sua porta. Era mais uma incomodação até que ele conseguisse provar que não era o outro. “Também com esse nome”, dizia conformado.

Nessa volta a Vitória, mal começou circular pela cidade, procurando e reencontrando antigos amigos, colegas de escolas, contemporâneos em sua curta passagem pelo jornalismo, que lhe pudessem ajudar nos trâmites, o filho pródigo foi redescoberto e, dias depois, estava na mídia. Um desses ex-colegas era o advogado e jornalista Élcio Álvares, no seu último ano de mandato como governador do Estado. Esse reencontro marcou uma nova relação com sua terra natal. Foi providencial, pois depois da morte da condessa, em 1983 ele foi perdendo espaço no jornal, até ser demitido um ano depois. Então, através de seu amigo Élcio, Carlinhos passou a receber uma pensão do Estado além de trabalhar como mentor de uma espécie de oficina literária.

Depois da séria crise hepática que quase o matou em Paris, Carlinhos abandonou a bebida. Perdeu sua marca registrada. Carlinhos sem álcool esvaziava a frase que se lhe atribuíam autoria: “Intelectual não vai à praia; intelectual bebe”: A frase é de outra celebridade, Paulo Francis, mas quase sempre era atribuída a Carlinhos de Oliveira. Embora se hostilizassem em frases cortantes, os dois foram integrantes da mesma “patota” de Ipanema, expoentes da diáspora de Copacabana. No Leblon, Carlinhos também se revelou um ótimo nadador. Claro, menino de praia no Espírito Santo, era um peixe dentro d’água.

Nesse grupo, formado por figuras que até hoje ainda estão ativas, como Ziraldo e Jaguar, havia um código: “Você me elogia, que eu te elogio”. Em público ou em letras impressas eram só flores. ninguém batia em ninguém. Nas mesas dos bares não perdiam a piada. Foi Tarso de Castro quem os reuniu num projeto comum, O Pasquim, e botou todos puxando para o mesmo lado, um feito nunca mais repetido, juntado tantos cobras no mesmo saco. Tarso, embora fosse um colunista, o que significa, uma estrela da mídia carioca, tinha uma experiência administrativa que serviu naquele momento. Além de aprender com seu pai, Mucio de Castro, dono do jornal O Nacional, de Passo Fundo, tinha sido da Última Hora de Porto Alegre, de Samuel Wainer. Ou seja: chefiou equipes e geriu recursos. O Pasquim levou para Ipanema os retirantes de Copacabana, como Millôr Fernandes, Sérgio Cabral e outros, e revelou nova estrelas, como Henfil e Maciel. Carlinhos, entretanto, preferiu ficar no Jornal do Brasil e não participou diretamente do Pasquim, embora estivesse em todas as mesas em que esse grupo se reunia em torno de um litro de Buchanan’s ou, mais raramente, de Chivas Regal.

Carlinhos sem álcool continuou frequentando as rodas dos bebuns. Trocou o uísque pelo chá da Índia. Ele levava consigo os saquinhos, em geral de produto inglês, mas podia ser de outra origem, como chá-mate, tão popular no Rio de Janeiro até hoje. O chá do Carlinhos era um verdadeiro ritual: mal se sentava à mesa vinha o garçom com um bule de água fervente, a xícara e um pires auxiliar para depositar o sachê usado. Devagar, em silêncio, concentrado na operação, tirava os saquinhos de uma bolsinha, depositava no fundo da xícara e botava a água pelando. Com a mão direita sacudia o chá até ele começar a soltar a cor. Então, pousava a xícara e tampava com o pires por dois minutos. Então, outra vez, voltava com a xicara sobre o pires, tirava saquinho da água fervente agarrando pelo barbante, lentamente, e o depositava no pires auxiliar. Então provava. Com o chá fumegando, iniciava então algum assunto ou dava seu palpite pelo que estive em pauta na mesa. O repouso do bebum.

Carlinhos continuou no seu tranco de escritor romântico, o último colunista lírico em atividade, no Jornal do Brasil e ferino polemista de mesa de bar nos tempos alegres da então chamada “esquerda festiva”. No início dos anos 80 parecia uma figura desembarcada de uma máquina do tempo, em meio a seus convivas já vivendo uma outra época. Entretanto, popular, com milhares de leitoras, ele defendia o estilo e a boa língua, em meio à uma nova torrente de colunistas e comentadores que iam surgindo aos borbotões nas páginas dos jornais. Alguns até foram parar na televisão, como Paulo Francis.

No Jornal da Globo tivemos, em 1982, a transmigração de algumas das maiores expressões do colunismo gráfico da década de 1970: o já citado Paulo Francis, e mais Henfil, Chico Caruso, João Antônio, Luiz Carlos Maciel, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Guedes e também Jô Soares. Carlinhos nunca aceitou botar sua cara na tela, a não ser como entrevistado.

Nos últimos tempos, Carlinhos enveredou pelo romance. Terror e Êxtase é um clássico da literatura policial. Ouve outros títulos. Entretanto, a falta de faz é na imprensa, que desde então perdeu seus “beletristas”, como dizia João Antônio para designar Carlinhos. Jornalistas com sensibilidade romântica, com o domínio da língua, com textos elegantes fazem falta. Com certeza se as publicações em papel quiserem sobreviver terão de se adaptar aos novos tempos dos equipamentos eletrônicos. E por aí, nada como voltar ao passado glorioso, quando ler jornais e revistas eram momentos inebriantes, cultos, inesquecíveis.

Carlinhos bem que poderia ressuscitar.

* José Antônio Severo é jornalista desde os anos 60, com passagens pelos jornais Jornal do Dia, Zero Hora, Correio do Povo, Folha da Manhã, Estado de S. Paulo, O Globo, Gazeta Mercantil, pelas revistas Realidade, Veja e Exame e pelas TVs Globo e Bandeirantes. Atualmente é roteirista na TV Cultura de São Paulo e comentarista político e econômico nos blogs Os Divergentes, Repórter Brasília e Matéria Prima.

2 pensamentos

  1. Grande artigo. Nos leva a viver num mundo que se perdeu. O autor Jose Antonio Severo escreveu um livro A Guerra dos Cachorros que virou bestseller entre os militares que tentavam entender o comunismo nas colônias portuguesas na Africa. Bravo!

  2. Um magnifico artigo que resgata história de um local do Brasil,que ainda em tempos difíceis, amava, criava, sonhava e lutava por um futuro melhor. Que maestro Jose Antonio Severo!. Quanto Severo proporcionou ao país em termos de analises políticos, pinçadas da História, livros divertidos e instrutivos, além de ter sido um brilhante diretor de jornalistas em grandes meios de comunicação. Palmas!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.