O blues de Cabo Verde

Antonio Carlos Miguel parabeniza o surpreendente time do goleiro Vozinha – e também de Horace Silver

Para ser lido ao som de Horace Silver em The Cape Verdean Blues

Foto: Dimitri Savitski, SAVITSKI, CC BY-SA 2.5 via Wikimedia Commons

Em sua autobiografia, Let’s get to the Nitty Gritty (algo como Vamos Direto ao Assunto ou … ao Xis da Questão), Horace Silver (confirma o elo de Song to my Father com o Brasil. Ou, para ser mais exato, com o samba jazz que, na primeira metade dos anos 60, rolava solto no Beco das Garrafas.

Essa que se tornou a sua mais conhecida composição começou a nascer após duas semanas de férias entre Niterói e o Rio, no carnaval de 1964. Hospedado inicialmente na casa de Sérgio Mendes e depois na do então casal Dom Um Romão e Flora Purim, o pianista assistiu a shows, e participou de muitas jam sessions. Ao voltar para os Estados Unidos, influenciado pelas aventuras cariocas, criou o tema no qual o hard bop recebia uma injeção de balanço.

Música pronta, Horace percebeu que, de certa forma, também estava atendendo a um insistente pedido do pai, John (João?) Tavares Silva, de incorporar ao jazz os sons de Cabo Verde. Ritmos como batuque, morna e coladeira, que eram a trilha sonora da comunidade de imigrantes cabo-verdianos na cidade de Norwalk (Connecticut) onde nasceu e foi criado.

Gêneros que, para brasileiros, soam tão próximos a choro e samba – como, algumas décadas depois, Cesaria Évora voltou a mostrar. Inconscientemente, ou acidentalmente, acabou uma canção vestida a rigor para o pai, que, por sinal, além do título, virou o cover boy do álbum que está entre os destaques não só de Horace Silver, mas, de qualquer discoteca básica do jazz.

Dois anos depois, uma nova homenagem: o álbum The Cape Verdean Blues, com Horace Silver à frente de um quinteto formado pelo trompetista Woody Shaw, o saxofonista Joe Henderson, o baixista Bob Cranshaw e o baterista Roger Humphries. O trombonista J. J. Johnson também participa em três faixas. O álbum é totalmente inspirado no pai de Silver.

Com o futebol brasileiro decepcionando mais uma vez, que esta Copa tão massacrada pelo mercantilismo e pela política seja dos africanos. Marrocos, Cabo Verde e Egito já provaram na primeira rodada que têm apetite e talento para isso.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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