Uma área de som e incenso

O show que foi cancelado porque os jovens “puxavam a ‘erva’ durante as apresentações e, alucinados, dançavam sobre as poltronas”. Poltronas que não existiam

Para ser lido ao som de Soma em Potato Fields

Reprodução

O registro do primeiro Curtisom aparece perdido numa página de anúncios pagos em meio a peças de André Villon, Paulo Autran, Miriam Pérsia, Brandão Filho e outros mais. Era 27 de julho de 1970 e a chamada era simples e direta: “Noite de Curtisom – Festival de Música Pop com Soma, Beat Boys, Baby Consuelo, Macalé e Sic Sunt Res Bollonzi Vacancy Group. E avisava: Uma área de som e incenso. O local era o teatro Cimento Armado e o horário previsto era às 21h com a promessa de ir até o sol do outro dia. O segundo, mais badalado, mereceu até notinha de abertura de Big Boy na sua coluna de 17 de agosto de 1970. Chamava para o evento daquela noite, realizado no mesmo Teatro Cimento Armado e produzido pelo grupo Sonda: “Irão se apresentar Mercado (conjunto super-aplaudido no Festival Universitário com Mary K. no Esgoto Maravilhoso), Underground, Macalé e outros babados mais. Estamos hoje, portanto, firmes, acompanhando a segunda Noite do Curtisom”, garantia o roliço apresentador. O que ele não contou foi que a partir de então o festival saiu das notas musicais para as páginas policiais, com os jornais deitando e rolando em cima do fato de que o festival havia sido suspenso e o local interditado por um motivo assustador: um público formado por maconheiros.

O Globo, sempre defendendo os valores da tradicional família brasileira, trazia o título “Tóxicos dominavam o espetáculo proibido” e contava que um “fiscal tinha visto algumas pessoas fumando maconha”.

O espaço era dirigido por Maria Esther Stockler e por José Agripino de Paula, teatrólogo, cineasta e escritor já respeitado no circuito marginal por seu livro de estreia, PanAmérica, de 1967, a mesma obra citada por Caetano Veloso em Sampa ao falar em áfricas utópicas. O acontecimento foi um caso raro em que o teatro foi fechado mas a peça que lá era apresentada, Rito do Amor Selvagem, não sofreu nenhum ataque da censura.

Mas o melhor relato para compreender o que acontecia no Brasil daquele começo dos anos 70 foi dado pelo jornal O Dia, na época um dos mais sensacionalistas diários do país, comandado por Chagas Freitas, que sete meses depois tomaria posse como governador indicado da Guanabara.

A manchete na capa entra rachando: “Polícia cerca teatro: PLATÉIA DE MACONHEIROS” e fala do show “que reunia os conjuntos mais pops da cidade”, da “plateia composta de jovens ‘avançados’ demais”, que “‘Puxavam’ a ‘erva’ durante as apresentações e, alucinados, dançavam sobre as poltronas”.

Reprodução

Bruce Henri, testemunha auricular e ocular da história, não lembra de Sic Hunt… mas lembra do Soma, Jards, Nana e Levindo, guitarrista e fotógrafo. Lembra ainda que no segundo Curtisom o Soma acompanhou Jards Macalé, que, na mesma época, fazia temporada no Teatro Poeira.

A terceira edição não foi realizada por causa da blitz pré-anunciada pelo O Dia. Bruce conta: “Fumávamos maconha, sim, e tinha muito incenso mas ninguém dançava em cima das poltronas por um simples detalhe: não havia poltronas”. E completa: “Afinal era o Teatro Cimento Armado, que depois virou supermercado e depois – claro – igreja evangélica”.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.